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Substituição do plástico de uso único é urgente

Substituição do plástico de uso único é urgente

Artigo por Júlio Jubert Caiuby Guimarães *

Apesar dos esforços contra a aplicação de materiais de uso único, cerca de 720 milhões de copos descartáveis vão parar nos lixões todos os dias no Brasil. A estimativa é da Associação Brasileira de Resíduos Sólidos e Limpeza Pública (ABLP). Esse é só um dos números que refletem o dano à infraestrutura das cidades, que sofrem com entupimentos de bueiros, sujeira nas ruas e o aumento do risco de enchentes. Atualmente, o plástico é responsável por 80% do lixo jogado nos oceanos, de acordo com o recente estudo global publicado na revista científica Nature Sustainability.

Diante disso, levanto a bandeira de que a substituição do plástico de uso único pelo papel em embalagens é urgente. Essa é uma atitude necessária no Brasil e no mundo, e já vem sendo abraçada por grandes marcas de bens de consumo que estabeleceram metas ousadas de troca de matéria-prima até 2025 e 2030. Esse é um processo complexo, mas que se torna viável com linhas de alto investimento em inovação.

Um movimento exemplar foi realizado pelo Parlamento Europeu em 2021, ao proibir o uso desse tipo de plástico, muito utilizado em talheres, canudinhos e cotonetes, por exemplo. A decisão levou à taxação pelo Reino Unido, a partir de abril deste ano, as empresas que fabricam ou importam itens plásticos que não contenham no mínimo 30% de plástico reciclado. Espanha e Portugal foram na mesma direção, e a partir de janeiro de 2023 as embalagens em plástico não reciclável serão taxadas. Na França, a prioridade foi banir embalagens plásticas para frutas e verduras.

A América Latina não ficou para trás: o Peru já baniu o plástico de uso único em 2021 e o Chile concedeu prazo até 2024 para restaurantes fazerem o mesmo; México, Colômbia e Uruguai igualmente tomaram medidas restritivas. No Brasil, a cidade do Rio de Janeiro foi pioneira ao banir o canudo plástico ainda em 2018, medida ampliada por São Paulo a todos os utensílios de plástico em bares e restaurantes em 2021 – em julho deste ano, regulamentou as multas a quem distribuir canudos plásticos. Outros locais do país seguem o exemplo.

Apesar do despertamento de governos, que inclui medidas tomadas por outras regiões do globo, como China, Canadá e Índia, vejo que uma real mudança de mentalidade ainda se faz necessária – pois o ideal seria que o próprio usuário tomasse atitudes ambientais, sem a necessidade de uma lei que o obrigue a isso.

Ao mesmo tempo, trabalhamos arduamente para incentivar a indústria da reciclagem nos caminhos da economia circular, pois é possível – e necessário – dar um destino mais nobre e sustentável aos resíduos, principalmente devolvê-los à cadeia produtiva e transformá-los em dinheiro, o que aumenta a renda de diversas famílias brasileiras.

Essa é a meta de projetos que admiro e que ajudo a desenvolver: incluir cooperativas de catadores e startups na cadeia produtiva, as quais já foram responsáveis pelo envio para reciclagem de mais de 200 mil copos de papel no país e que precisam seguir disseminando essa boa prática.

Ao colocar em ação a economia circular, acredito verdadeiramente que o brasileiro não só melhora sua relação com o meio ambiente, como dará o exemplo aos países vizinhos. É um jogo que só tem vencedores: os fabricantes, as cooperativas, as cidades e… você, consumidor!


* Júlio Jubert Caiuby Guimarães é diretor comercial da Ibema

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Reciclagem de PET e Logística Reversa

Artigo por Jair Rosa Claudio * A reciclagem dos materiais que compõem o lixo domiciliar, institucional e urbano sempre foi um dos principais temas de interesse de ambientalistas em todo o planeta e um dos maiores desafios ambientais das municipalidades e da sociedade em geral. Waste Minimization, 3 Rs, Cradle to Grave, Life Cycle Analysis , Sustainable Packing , Circular Economy ... conceitos que vêm tratando do tema reciclagem desde o início do movimento ambientalista há 5 décadas, todos propondo, essencialmente, uma mesma solução, qual seja, evitar o descarte no ambiente natural dos resíduos da vida moderna. Invariavelmente está também entre os temas abordados por todos os programas ESG das organizações empresariais no momento. Contudo, salvo casos pontuais em alguns países de economias avançadas, nenhuma dessas ferramentas têm se mostrado eficazes para se atingir plenamente as metas de reciclagem, em termos globais. Publicação recente da consultoria estratégica internacional Verisk Maplecroft aponta os Estados Unidos “como o maior vilão da crise gerada pelo descarte na natureza de materiais potencialmente recicláveis”. Com apenas 4% da população do mundo, os EUA seriam responsáveis por a 12% dos resíduos sólidos municipais gerados no planeta, com uma geração per capita três vezes superior à da China e 7 vezes a da Etiópia, que seria a última colocado no ranking de geração de resíduos sólidos urbanos. Em temos de geração, depois dos Estados Unidos, aparecem na lista Verisk Maplecroft dos maiores produtores per capita de lixo, a Holanda, Canadá, Áustria, Alemanha, França e Austrália. A publicação prossegue afirmando que a taxa de reciclagem nos EUA seria de apenas 35%, enquanto na Alemanha, citada como a melhor experiência do mundo, chegaria a 68%. Ressalta, ainda, que a questão de destinação do lixo urbano vem se tornando mais dramática pelo fato de vários países asiáticos como China, Tailândia, Vietnã e Malásia que por muito anos aceitaram receber lixo, literalmente, de países da Europa e dos EUA estarem criando legislações para impedir essa modalidade de comércio. O conhecido “turismo do lixo”, no entanto, é um problema crônico há décadas, apesar da regulamentação internacional estabelecida em 1989 através da Convenção de Basileia sobre o Controle de Movimentos Transfronteiriços de Resíduos Perigosos e seu Depósito incluindo, ressalte-se, “outros resíduos”, a fim de coibir o tráfico ilegal e prever a intensificação da cooperação internacional para a gestão ambientalmente adequada desses resíduos. Por essa Convenção, a importação e exportação de resíduos perigosos e resíduos controlados são permitidas entre os países signatários, entre os quais o Brasil que a internalizou, na íntegra, através do Decreto n. 875 de 19 de julho de 1993 regulamentado em 2012 por Resolução Conama n. 452 desse ano. Essa Resolução, entretanto, estabelece de forma clara em seu Artigo 6º que não estão sujeitos à restrição de importação os Resíduos Inertes - Classe IIB, classificação essa definida pela Norma ABNT NBR 10004, que tem como foco resíduos sólidos de origem industrial sendo difícil a sua interpretação para o lixo urbano. Considerando que a parcela gravimétrica do lixo urbano que normalmente é objeto do “turismo do lixo” é basicamente a de material plástico, que pode se enquadrar como resíduo inerte Classe II B segundo algumas interpretações, conclui-se que a Resolução Conama 452/2012 não restringe a importação desse resíduo. Adicionalmente o Artigo 7º define que “ A importação de Resíduos Controlados só poderá ser realizada por Destinador de Resíduos para reciclagem, em instalações devidamente licenciadas para tal fim, após autorização e anuência prévia do IBAMA.. .”. Ou seja, na prática, a regulamentação da Convenção de Basileia no Brasil, não só não impediu, como abriu possibilidade para a importação legal de lixo urbano, incluso plástico, para ser reciclado no nosso país. Dados divulgados pela mídia permitem inferir que a exportação do plástico oriundo do lixo urbano é a forma que países industrializados têm conseguido atingir suas metas de reciclagem desse material. Matéria¹ publicada em 2019 pelo jornal britânico The Guardian, por exemplo, denunciava que o plástico dos EUA estava sendo enviado para países pobres do mundo que administram incorretamente 70% de seu próprio plástico, como Bangladesh, Laos, Etiópia e Senegal, mas também para Turquia, Equador e mesmo para a China até aquela data. O Brasil, por sua vez, embora não citado nessa matéria, não possui situação muito distinta desses países: recicla pouco seus próprios resíduos plásticos e parte da indústria recicladora desse material no país se apoia na importação dessa “matéria prima”, inclusive da própria China que até recentemente era importadora, como acima mencionado. E as importações legalizadas, ressalte-se, não raramente têm sido utilizadas criminosamente para o envio ao nosso país de resíduos perigosos, geralmente patogênicos, como vêm apontando matérias jornalísticas nos últimos anos. “ Uma carga de 22 toneladas de lixo embarcada na Alemanha foi interceptada pela Receita Federal no Porto de Rio Grande, no Rio Grande do Sul, em 3 de agosto de 2010 ” e recentemente “mais de 60 contêineres com lixo hospitalar foram encontrados no porto de Santos. A carga veio dos Estados Unidos e da República Dominicana e foi enviada ilegalmente para o Brasil” ( publicado em 21/09/2021 - 11:56. Por Júlia Ballarini - Repórter da Rádio Nacional - São Paulo )” E por que tratarmos aqui especificamente de reciclagem de resíduo plástico? Em função do modo de vida contemporâneo da população urbana de todas as camadas sociais, em todo mundo, das tecnologias de produção e dos modernos sistemas logísticos, o lixo urbano atualmente possui como um dos principais componentes gravimétricos o plástico, sendo seu descarte na natureza a causa de um dos principais impactos ambientais globais: a poluição dos mares! Não se trata aqui de eleger o plástico como vilão ambiental, pelo contrário. Seu benefício para inúmeras setores da vida moderna é indiscutível e seu uso crescente irreversível, em muitos aspectos. “A produção global de plásticos foi estimada em mais de 360 milhões de toneladas métricas para o ano de 2020”. O problema das embalagens de polietileno tereftalato, ou PET, um polímero termoplástico , reside na sua destinação final sem controle. E no Brasil? Em entrevista à CNN Rádio, a coordenadora do projeto Blue Keepers , Gabriela Otero, deu detalhes sobre o estudo: “....um terço do plástico consumido no país corre o risco de parar na natureza, uma vez descartado...Em números absolutos, quase 3,5 milhões toneladas ( anualmente ) de resíduos plásticos têm risco real de ir parar no oceano.” As referidas matérias jornalísticas e tanto outros estudos indicam invariavelmente como soluções para esse problema os conceitos de Economia Circular, de 3 Rs aplicados às embalagens plásticas: R edução do consumo, R eutilização e R eciclagem. Mas, como? Por que essas soluções óbvias não se concretizam? É necessário separar nesses conceitos o que existe de utópico e inviável do que poderia ser efetivamente aplicável à realidade brasileira. Pela praticidade e baixo custo, a redução do uso de embalagens PET descartáveis não ocorrerá, pelo contrário. Com relação ao reuso, embalagens de vidro são insubstituíveis notadamente pelo aspecto sanitário, ainda que mais caras. E sendo a embalagem plástica de PET e outros termoplásticos os de reciclagem mais fácil, por que essa não ocorre em níveis significativos? A razão da incipiente taxa de reciclagem de embalagens plásticas de PET no Brasil é a ausência de um acordo multisetorial de logística reversa bem estruturado, e específico para esse resíduo, nos termos estabelecidos no Decreto nº 10.936/2022 que regulamentou a Política Nacional de Resíduos Sólidos - Lei nº 12.305/2010. A implementação desse mecanismo específico para PET, resíduo de baixo valor intrínseco, é urgente e imprescindível ao contrário das embalagens de alumínio, de alto valor por densidade, para as quais o mercado suportado pela farta disponibilidade de mão de obra informal e barata de catadores não cooperativados por todo o país conseguiu atingir os decantados índices de reciclagem sem praticamente nenhum esforço ou ônus dos setores de produção do material, de fabricação e distribuição de bebidas, retalhistas e dos próprios consumidores de bebidas. O valor pago pelo consumidor por produtos comercializados em embalagens de PET é essencialmente devido à logística de distribuição, haja vista que os preços da matéria prima da embalagem e do produto engarrafado, como água mineral e mesmo refrigerantes, são desprezíveis na composição do preço de venda nos supermercados, bares e restaurantes. Daí, pode-se inferir sem maiores estudos econômicos que o custo para se implementar a logística reversa adequada de embalagens de PET será de aproximadamente similar ao custo atual da logística de distribuição e comercialização dos produtos engarrafados. Custo esse que precisará ser incorporado pelos múltiplos setores e atores que se beneficiam do processo, quais sejam: produtor da matéria prima, fabricante de produtos de plástico reciclado, fabricante da embalagem, fabricantes de bebidas e de outros produtos embalados em PET, distribuidor, retalhista e consumidor final do produto. Só não faz sentido incluir entre os atores que devem assumir essa inciativa os serviços públicos de coleta de lixo urbano, nem é justo a esses atribuir o ônus e responsabilidade única pela coleta seletiva de embalagens de PET, ou de qualquer embalagem reciclável ou não como as de triplo materiais agregados, em alguns casos com cobrança aos munícipes de taxas específicas para tal finalidade como ocorreu e ainda ocorre em municípios do país. O custo do transporte do plástico separado seletivamente até as cooperativas de catadores, principal fator que impede o aumento da taxa de reciclagem do material, tem que ser assumido pelos bene…

23 de junho, 2023
COP26 e a necessidade do consumo circular
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COP26 e a necessidade do consumo circular

Artigo por Juliana Schunck Por Juliana Schunck * A 26.ª Conferência das Partes sobre Mudanças Climáticas da ONU – COP26, que aconteceu em Glasgow, na Escócia, chegou em boa hora. Com o objetivo de não produzir nenhum novo acordo, esperamos que os resultados alcançados pelos cerca de 200 países signatários do Acordo de Paris sejam úteis para as novas metas de emissões, visto que estamos vivenciando um cenário radicalmente alterado por conta da pandemia de COVID-19. Importante dizer que os países, de maneira geral, buscam resultados econômicos em um mundo cada vez mais competitivo, mas só um acordo mundial, puxado pelos países do velho mundo será capaz de frear e reverter essa roda do consumo inconsciente. Diante de um desmatamento incontrolável e da falta de uma política séria e transparente, o Brasil vê despencar sua liderança como articulador em negociações climáticas e como um dos principais players nesse cenário, onde, inclusive, deveria dar as cartas e assumir a posição protagonista nessa linha de frente a favor da sustentabilidade. Para falar de sustentabilidade é necessário falar na redução de emissão de CO². Durante a ECO 92, mais de 150 países se comprometeram a retornar o nível de emissão global durante um período de 10 anos, de 1990 a 2000. No entanto, essa meta nunca foi alcançada e o mundo observa tacitamente os números crescerem em avanço vertiginoso. Mas não podemos nos esquecer e sim, dizer sem errar, que o comportamento humano é o grande responsável pelas mudanças climáticas. Se entendermos que desde a revolução industrial o mundo segue na direção desenfreada de produção e consumo, esse é o momento de repensarmos esse consumo exacerbado e linear e passarmos agir no sentido do consumo circular. Vejamos a reciclagem do vidro. Esse processo é um dos mais eficientes na indústria atual em se tratando de reaproveitamento de embalagens: com um quilo de vidro é possível produzir outro quilo de vidro reduzindo as emissões de CO² para a atmosfera, o que só reitera a importância de incentivar e reciclar esse material tão único. Se descartado em aterros sanitários, o vidro pode levar vários anos para se decompor na natureza e apenas com a maneira correta de descarte e destino é um dos principais aliados que o meio ambiente pode ter. Importantíssimo ressaltar, que a utilização do caco de vidro substituindo outros minerais virgens no processo de fabricação de um vidro novo, exige menor consumo energético para fusão das matérias primas e como consequência essa reação gera menor emissão de CO². Diferente de outros materiais, não apresenta perdas em seu processo de reciclagem. Como não destacarmos alguns problemas relacionados à gestão e descarte inadequado desse tipo de resíduo?. Há um significativo comprometimento de corpos d´água e mananciais resultando na degradação do solo; esgotamento de espaços adequados, como os aterros sanitários, e falta de espaço para dispor os resíduos adequadamente. Por tudo isso, é premente que cada um de nós repense nossas atitudes em relação ao meio ambiente como, por exemplo, o consumo de produtos de marcas que possuem um propósito genuíno em favor da sustentabilidade. No Brasil e no mundo, cada vez mais empresas atuam de maneira consciente, com preocupação socioambiental e procuram reduzir e equilibrar o impacto negativo na sociedade onde estão inseridas. * Juliana Schunck é Diretora da Massfix, empresa de reciclagem de vidros

16 de novembro, 2021
O caminho para um setor de papel ainda mais sustentável
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O caminho para um setor de papel ainda mais sustentável

Artogo por Fernando Wagner Sandri Por Fernando Wagner Sandri * A preferência pelo papel pode ser relacionada ao contato ancestral do ser humano com a árvore, que sempre foi a base para seu aquecimento, proteção, manutenção da biodiversidade e ajuda na sua própria sobrevivência. Todo esse ciclo e o aprendizado histórico continuam em nossa mente. Sabemos, intuitivamente, que tudo que vem da árvore é bom – incluindo as embalagens de papel. Para nosso setor, como em tantos outros, é em momentos de crise – como nesta pandemia – que surgem as melhores soluções para atender novas necessidades, e de forma urgente. As formulações típicas dos materiais começam a sofrer pressões na busca por alternativas: onde havia fibra de pinus, passa a entrar fibra de eucalipto. Onde havia fibra química, entra a mecânica. No lugar da fibra virgem, entra a fibra reciclada e a fibra originada no pós-consumo. Felizmente, o papel tem a capacidade de atender a uma gama múltipla de utilizações em embalagens, por meio de um conjunto de formulações de fibras e aditivos que podem reforçar determinadas características necessárias a cada projeto. Com suas propriedades físicas, químicas e visuais, ele permite aplicações tão amplas que o conjunto de soluções se torna impressionante. As fibras de eucalipto estão cada vez mais presentes em papéis para embalagens e praticamente todas as embalagens de papel coletadas são recicladas prontamente no Brasil. Com isso, a reciclabilidade de embalagens tem favorecido projetos de economia circular e logística reversa, e, atendendo à crescente demanda, surgem novos produtos em papel com material reciclado e de alta performance nos processos de impressão e envase. Entenda o ciclo do papel Para ampliar a capacidade de reutilização do papel em um novo ciclo produtivo, as unidades industriais têm se preparado cada vez mais para receber e processar materiais pós-consumo com eficiência na recuperação de fibras. Embalagens de papel podem ser recuperadas em sua grande maioria. Embalagens tipo longa vida, copos de papel, sacolas de papel, caixas papel de presentes, diversos artefatos de papel como tubetes, entre outros, podem ser reciclados. A separação de fibras celulósicas de embalagens de múltiplas camadas que contenham plásticos hoje é uma realidade. A inovação em novos sistemas de captura de embalagens de papel para um viável caminho de logística reversa é um imenso desafio. O Brasil é um país continental com 5.568 municípios com características regionais distintas, e por isso há a necessidade de um diálogo contínuo com os diversos atores da cadeia de embalagens para dar continuidade ao processo de retorno do papel à indústria. Inovar no design de embalagens de papel é desafio Por fim, destaco o desafio de prover soluções que permitam inovar no design das embalagens. Hoje, a indústria gráfica trabalha com sistemas de impressão offset, corte e vinco, dobradeiras e coladeiras integradas, oferendo um portfólio de embalagens ao mercado nacional, em sua maioria, em formato de hexaedro, com raríssimas variações em outros tipos de poliedros. Sair do “quadrado” exige um esforço maior. Ao pensarmos em fazer algo redondo, por exemplo, percebe-se que os processos industriais não estão preparados para fazê-los em grande escala. Somente com projetos integrados, com participação de múltiplas empresas participantes da cadeia de valor da embalagem, será possível superar essa barreira da geometria e propor inovações. Creio que a nossa tarefa é melhorar a eficiência do papelcartão em novas faixas de gramatura, com ganho de rigidez, uso de material reciclável quando aplicável, propondo novas barreiras, novas estruturas, inovando e aperfeiçoando o ciclo de vida das embalagens em prol de um mercado futuro sustentável em que todo potencial de utilização da árvore demonstre seu valor. * Fernando Wagner Sandri é Engenheiro químico, conselheiro da ABTCP, diretor Técnico do Sinpacel/PR, conselheiro da ABRE e diretor de Tecnologia da Ibema.

16 de agosto, 2021
Como tornar o plástico mais circular?
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Como tornar o plástico mais circular?

Artigo por Amanda Baldochi Por Amanda Baldochi * Uma publicação da Ellen MacArthur de 2016 denominada "A Nova Economia do Plástico - Repensando o Futuro do Plástico" previu que, se nada fosse feito para impedir a entrada de plástico nos oceanos, até 2050 haveria mais plástico do que peixe em nossos mares. Com o maior consumo desse material desencadeado pela pandemia COVID-19 associado à sua disposição inadequada, novos estudos vêm confirmando esse dado alarmante. Com o apoio de diversas organizações, entre elas a Universidade de Oxford e a Fundação Ellen MacArthur, o estudo denominado "Breaking the plastic Wave" (quebrando a onda do plástico, tradução livre), aponta que, se continuarmos na trajetória atual, em 2040 o fluxo de plástico que chega aos oceanos irá triplicar, chegando a 29 milhões de toneladas por ano. Chama atenção a informação de que todos os compromissos já acordados entre governos e empresas deverão causar uma redução de apenas 7%, muito aquém do necessário. Mais do que confirmar o tamanho do problema, uma das principais conclusões do estudo é que é possível reverter cerca de 80% desse volume se diversas soluções forem implementadas em conjunto e se agirmos para colocá-las em prática o quanto antes. Algumas medidas já são bastante conhecidas e debatidas, como a eliminação de todos os plásticos desnecessários. O vídeo em que pesquisadores retiram um canudo de plástico do nariz de uma tartaruga é de fazer qualquer um chorar e nunca mais usar um canudinho, mas isso está muito longe de resolver o problema. Faz-se necessário eliminar todo tipo de plástico que não for imprescindível. Os demais precisam ser projetados para serem reutilizáveis, recicláveis ou compostáveis. Há aqui um desafio grande no qual a indústria precisa atuar com muita inovação, seja para substituir uma série de materiais que não se enquadram nessas categorias, seja para desenvolver novos modelos de negócio e novas tecnologias de reciclagem, como a reciclagem química - processo pelo qual o plástico volta a apresentar sua composição primária. Não é possível, entretanto, eliminar ou substituir todo o plástico. Assim, garantir que esse material tenha uma destinação adequada e que sempre que possível seja reincorporado aos processos produtivos, permite que esse material tão versátil continue sendo usado sem impactar o meio ambiente. Para que isso aconteça, é preciso que haja infraestrutura para coleta seletiva, unidades de triagem e fábricas de reciclagem em todos os países, ou seja, que haja infraestrutura suficiente para garantir a coleta e circularidade desse material. Sobre esse ponto, o estudo Breaking the plastic Wave indica a necessidade de se expandir as taxas de coleta de material reciclável nos países em desenvolvimento em 90% nas áreas urbanas e em 50% nas áreas rurais, com apoio e investimento na cadeia informal da reciclagem, além de dobrar a capacidade de reciclagem mecânica no mundo, escalando-a até atingir a marca de 86 milhões de toneladas por ano até 2040. A perspectiva sobre o estudo "Breaking the plastic Wave" - A solução da Economia Circular para a poluição por plásticos publicada pela Ellen MacArthur indica que para isso acontecer, faz-se necessário "financiamento anual contínuo de cerca de US﹩30 bilhões, no melhor cenário". Neste sentido, nasceu o reciChain, uma rede de empresas que, organizadas em consórcios de cadeias de valor inteiras, busca escalar soluções de economia circular por meio de uma plataforma colaborativa, baseada na tecnologia blockchain. Por meio dessa tecnologia, a plataforma permitirá rastrear o volume de investimentos feitos pelas empresas de bens de consumo para atendimento às metas da Política Nacional de Resíduos Sólidos e a utilização desse recurso em iniciativas que garantam o aumento da capacidade instalada de reciclagem de resíduos. Um dos objetivos principais da iniciativa é, portanto, garantir adicionalidade, ou seja, que se gere um aumento nas taxas de reciclagem, quando se comparado a um cenário inicial (baseline). Além disso, por se tratar de uma tecnologia descentralizada e imutável, o blockchain garante o aumento e a credibilidade de programas de logística reversa, assegurando a transparência entre todos os elos que fazem parte da cadeia de reciclagem, ao mesmo tempo em que ajuda a gerar empregos mais justos para quem atua no setor de reciclagem. A geração de empregos justos será garantida pelos programas estruturantes, entidades que criam unidades de triagem com base no investimento feito, e que também assessoram e auditam as unidades de triagem e conseguem verificar se essas instalações estão cumprindo com as obrigatoriedades e requisitos legais, além das boas práticas e critérios mínimos estabelecidos pela iniciativa. Outro diferencial do reciChain é que ele tornará possível o investimento de outros elos da cadeia, como fornecedores, que poderão investir em créditos de logística reversa e repassar esses créditos a seus clientes, promovendo a cooperação entre os diferentes elos da cadeia para firmar compromissos efetivos em economia circular. Ao todo, oito empresas já estão participando da fase piloto do projeto: BASF, Natura, Henkel, Braskem, Bomix, Triciclos, Wise e Recicleiros, com apoio da Fundação Espaço ECO. além da questão da poluição plástica nos oceanos, que por si só já traz uma obrigação de todos os setores envolvidos na resolução desse problema, a circularidade do plástico pode trazer ganhos financeiros substanciais às empresas e aos governos. A indústria pode se beneficiar de várias maneiras, seja por garantir seu compliance legal, já que a legislação ambiental em diversos países do mundo vem se tornando cada vez mais restritiva, seja pela maior eficiência operacional, redução do consumo de matéria-prima fóssil, além de diversos outros benefícios intangíveis, como aumento da reputação da marca e fidelização de consumidores mais sensíveis à pauta ambiental e social. Os governos também podem ter retornos econômicos significativos, já que coleta seletiva e destinação adequada dos resíduos sólidos urbanos consomem parcela expressiva da verba das prefeituras, principalmente dos municípios menores. Ainda de acordo com o estudo, se começarmos e avançarmos no desenvolvimento dessa agenda positiva de forma sistêmica, além de controlarmos a poluição plástica nos oceanos, haverá ganhos econômicos da ordem de US$ 70 bilhões para os governos, US﹩ 1,3 trilhão para os negócios, além da geração de mais de 700.000 novos empregos, quando comparado ao cenário Business as Usual. O que estamos esperando? * Amanda Baldochi é Analista de Sustentabilidade Aplicada da Fundação Espaço ECO

2 de agosto, 2021
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Por que o plástico não precisa ser o vilão do meio ambiente?

Por Alessandra Zambaldi * O plástico tem sido tema central de amplos debates públicos, especialmente em relação a seus riscos ambientais. Em São Paulo, desde 1º de janeiro, nenhum estabelecimento comercial pode fornecer copos, pratos, talheres, agitadores para bebidas e varas para balões de plásticos descartáveis. De acordo com a nova lei, esses produtos agora devem ser substituídos por outros elaborados com materiais biodegradáveis, compostáveis ou reutilizáveis. No entanto, esta alternativa, além de não resolver o problema ambiental, ainda vai gerar um novo tipo de lixo na natureza, problema com o qual o poder público não poderá lidar da maneira correta. Sendo assim, a emenda pode ser inúmeras vezes pior do que o soneto. Produtos com embalagens que afirmam ser "biodegradáveis" ou "compostáveis" na grande maioria das vezes se degradam apenas em condições especiais e isso pode complicar os esforços de reciclagem. Portanto, aquele copo de café que possui logotipo indicando ser biodegradável não vai se decompor entre os compostos orgânicos que as pessoas têm em casa, mas, para se degradar adequadamente, precisará ser enviado para instalações de compostagem industriais. O processo de compostagem industrial envolve alto calor e umidade precisamente controlados, entre outras condições, e não está disponível na maior parte do país. Já se este lixo for parar em um aterro, ficará lá por muito tempo, porque é improvável que seja exposto a condições que ajudariam a se decompor. Além disso, a produção desses itens consome mais recursos, cria mais resíduos e resulta em mais poluição do que a produção de itens plásticos descartáveis. Obviamente, entendemos ser fácil apontar o plástico como o grande vilão que precisa ser proibido, afinal ninguém no mundo fica feliz com imagens de mares e rios repletos de embalagens e com animais morrendo por conta do produto. No entanto, banir os plásticos de consumo não soluciona os problemas, mas apenas desvia a atenção de soluções reais e, em vez disso, prejudica os consumidores e o meio ambiente. Para resolver a questão ambiental do plástico, é preciso melhorar a qualidade das práticas de gestão de resíduos, produzir materiais que tenham o menor impacto ambiental possível, investir em coleta adequada e incentivar a reciclagem disponibilizando locais especializados acessíveis para que a população possa fazer o descarte do material que utiliza em seu dia a dia. A grande variedade de formas em que pode ser reciclado também precisa ser vista como um benefício do material. Isso não só é mais ecológico, mas também torna o plástico um material muito flexível para as necessidades do mundo moderno. Outro ponto importante: com a trágica chegada da pandemia, os argumentos e o debate sobre o uso do material também ganharam outra direção: a saúde e a vida. A pandemia transformou a produção e uso do plástico em um material essencial de sobrevivência. Nos hospitais e laboratórios, ambientes essenciais na luta pela vida, o plástico está sendo utilizado em grande escala para produção de máscaras, luvas, seringas, tubos de ensaio, cateteres e outros produtos. Além disso, aditivos que inativam o Sars-Cov-2 inseridos a produtos plásticos permitiram que diversos objetos e superfícies com as quais as pessoas têm contato diário em lugares públicos e em suas casas oferecessem uma barreira extra de segurança contra a doença. Este é o caso do Alpfilm Protect que já contava com propriedades antifúngicas e bactericidas graças à presença de micropartículas de prata e que, com a pandemia, passou por uma série de estudos para adequações em sua composição com o objetivo de assegurar sua eficácia antiviral, em especial contra o novo coronavírus. Já no espaço doméstico, o plástico foi o material que mais entrou nas casas. Itens básicos de sobrevivência, como água e alimentos, tiveram alta de estoque: muitas vezes embalados em materiais plásticos. Também podemos encontrar o material em máscaras n95. Além disso, com o plástico é possível vedar produtos e alimentos, o que evita a degradação rápida da comida, além da contaminação por doenças, garantindo a segurança alimentar e também evitando o desperdício de alimentos, especialmente em um momento com tanta instabilidade econômica e desemprego. Não há dúvida de que a crise dos plásticos é um problema sério e que precisamos encorajar uma mudança de atitude em relação à mentalidade de uso único da sociedade com pessoas favorecendo o consumo inteligente e o pensamento sobre o ciclo de vida, além de realizar seu descarte apropriado. Mas devemos ter em mente os benefícios ambientais e econômicos que os plásticos oferecem e usar a inovação para aderir à melhor solução. * Alessandra Zambaldi é Diretora de Comércio Exterior na Alpes. Graduada em Engenheira Química pela Escola de Engenharia Mauá e pós graduada em Negócios Internacionais e Comércio Exterior pela Fundação Getúlio Vargas (FGV), possui carreira desenvolvida na indústria de plásticos, com forte atuação em projetos de exportação, com vendas de plásticos para embalagens para o mercado externo.

26 de janeiro, 2021
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ARTIGO
Ciclo de vida sustentável para descartáveis de papel

Por Thiago B. Spedo * A inclusão de copos de papel e de plástico e outros produtos descartáveis entre os resíduos sólidos que podem ser encaminhados para a compostagem, garantiria um enorme ganho do ponto de vida ambiental, econômico e social. Permitiria ampliar o potencial de desenvolver a sustentabilidade da cadeia, com um final de vida que contribua para a economia circular, o retorno do produto ao solo produzindo fertilizante e atenderia um dos maiores desafios para a implementação da Política Nacional de Resíduos Sólidos. A opção da aplicação de bioplásticos compostáveis para os descartáveis, como os utensílios de uso único, sacolas de compras e embalagens já é uma realidade e pode ser ampliada para o revestimento de copos de papel, permitindo que eles também possam ser destinados para a coleta de resíduos orgânicos. Normalmente, os copos descartáveis de papel precisam de um revestimento interno de polietileno, que age como um impermeabilizante para impedir que o papel absorva líquidos ou que eles vazem, além de garantir uma barreira de contato com os alimentos. A necessária aplicação da resina plástica, no entanto, torna complexo o processo de reciclagem do copo de papel e não é uma alternativa do ponto de vista de biodegradabilidade. Ele acaba sendo destinado aos aterros sanitários e, nesses ambientes, se decompõe liberando metano, gás que contribui para o desequilíbrio climático. O uso do biopolímero compostável como revestimento dos copos e embalagens de papel facilitaria a coleta de resíduos orgânicos em eventos públicos e nos restaurantes, por exemplo. Esse foi o foco do desenvolvimento do revestimento para papel com ecovio® PS 1606 um biopolímero de alta qualidade certificado de acordo com a norma de referência internacional para compostagem EN 13432. A regulamentação considera o material compostável quando, em um período de até 180 dias, cerca de 90% da massa do polímero é convertido em CO2 e água e 10% é convertido em biomassa, se colocado em condições de compostagem, ou seja, na presença de água, oxigênio, calor e microrganismos. As propriedades de barreira de migração do ecovio® tornam também mais seguro o uso de papel reciclado em aplicações alimentícias, ampliando a eficiência de recursos, reduzindo consumo de energia e melhorando a pegada de carbono do produto final. Tecnicamente o ecovio® pode ser aplicado em papel, cartão, entre outros materiais para embalagem, é à prova d'água, resistente a rasgos, tem propriedades de barreira para aroma e sabor, está em conformidade com os requisitos de segurança alimentar, pode ser processado nas plantas industriais convencionais para polietileno, enfim, tem propriedades que garantem uma performance igual à do material convencional, sem significar um passivo ambiental duradouro. O material contém alto conteúdo de matérias-primas renováveis, como o PLA (Poliácido láctico) oriundo em geral de amido de milho, oferecendo uma pegada reduzida de carbono. Também permite a eficiência no uso de recursos por meio da decomposição de resíduos orgânicos e economia de recursos escassos, como fosfatos para fertilização do solo, que podem ser substituídos pelo composto obtido. Entretanto, para que os ganhos de sustentabilidade com os utensílios feitos com material compostável sejam efetivos, é importante a introdução dos produtos num conceito de circuito fechado. Os operadores de eventos públicos e restaurantes, por exemplo, devem coletar os resíduos orgânicos junto com os descartáveis compostáveis, encaminhando-os para compostagem. A proposta é justamente simplificar a coleta, eliminando a etapa de separação, porém garantindo a destinação adequada. As inovações desenvolvidas a partir de muito investimento em Pesquisa & Desenvolvimento tem garantido soluções concretas para promover a sustentabilidade na cadeia do plástico. * Thiago B. Spedo é Engenheiro de materiais e coordenador regional de Especialidades Plásticas da BASF para a América do Sul

12 de outubro, 2020
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ARTIGO
Contraprova do plástico

Por Yuri Kabe * Em tempos de banimento de itens de plástico, como acontece no Reino Unido, em países da União Europeia, como França, e em cidades brasileiras como Rio de Janeiro e São Paulo, é fundamental analisar de forma mais crítica e sensata se encarar o produto como vilão do meio ambiente é a melhor solução para problemas ambientais que precisamos solucionar. É preciso considerar que os plásticos podem ser úteis para auxiliar a sociedade e as empresas em soluções para as mudanças climáticas, por exemplo, que são consideradas pela Organização das Nações Unidas (ONU) a principal ameaça para a vida marinha e terrestre. Nesse sentido, a luta contra a poluição plástica não pode se tornar uma guerra conta os plásticos em si. Na construção civil, a invenção do cimento e do concreto revolucionou a forma como construímos nossas edificações. Sua resistência é indispensável para o mundo moderno, tendo se tornado a segunda substância mais consumida, atrás apenas da água. Entretanto, as tecnologias atuais de produção de cimento são grandes emissoras de gases do efeito estufa e a substituição do concreto por outros materiais, principalmente o plástico, nas áreas não estruturais, além de reduzir custos, podem reduzir o impacto ambiental das edificações. No setor automobilístico, o uso do plástico deixa o automóvel mais leve, reduzindo o uso de combustível e diminuindo a queima de gases. No segmento de embalagens, vimos uma revolução com a chegada dos plásticos, que diminuíram o desperdício de alimentos e a relação entre volume de produto e de embalagem de 70% x 30% para 97% x 3%, respectivamente. Outra vantagem são os benefícios para a área da saúde. A matéria-prima tem sido fundamental para evitar contaminação, sendo utilizada na fabricação de bolsas de sangue e das máscaras recomendadas pela Organização Mundial da Saúde (OMS) para evitar a transmissão de doenças. Mas, como garantir um futuro com plástico e o equilíbrio ambiental? A desinformação é um grande problema. As famosas "ilhas de plástico no meio do Oceano Pacífico ou no mar do Caribe", por exemplo, sempre apresentadas como ilustração do que é despejado diariamente nos mares, são, na sua maior parte, resultados de grandes fenômenos naturais que arrastaram lixo para os mares, como o furacão Katrina, que varreu o litoral sul dos Estados Unidos em 2005 e os tsunamis que atingiram o sudeste asiático em 2004 e a costa leste do Japão em 2011. Obviamente a presença de resíduos plásticos no meio ambiente é reflexo de uma ineficiência na gestão de resíduos, um dos principais desafios da atualidade, mas a origem do problema é muito mais complexa, com particularidades em cada um dos quatro cantos do mundo. O Haiti é um país com quase nenhuma infraestrutura de coleta de lixo e localizado na rota de furacões que, junto com a chuva, levam resíduos para o oceano. Lagos, a maior cidade da Nigéria, tem mais de 20 milhões de habitantes e não conta com água encanada e, por esse motivo, o consumo de água em garrafa PET é exorbitante. A Indonésia, um país formado por quase 20 mil ilhas, tem o desafio de pensar em gestão de resíduos para regiões geográficas muito distintas. O Chile vive o problema durante o degelo, acentuado pelas mudanças climáticas, que arrasta os resíduos para o Oceano Pacífico. Na Europa, a indústria turística é um dos setores que mais geram resíduos plásticos. Em terra firme, vemos necessidade de investir mais em pesquisa e criar ciência em torno destas informações para um diagnóstico mais preciso, sem discrepância de dados. Precisamos saber o tamanho real do nosso desafio, assim como a eficácia das medidas mitigatórias para que seja possível pensar em políticas públicas e não endossar uma luta contra o que nos é favorável. Esse processo pode levar um tempo, assim como levamos décadas para chegar à conclusão de que o aumento da concentração de CO2 na atmosfera tem potencial para causar o aumento da temperatura média do planeta. Ainda assim, não é preciso esperar que isso aconteça. Além de adotar práticas de economia circular, a indústria mundial do plástico está se movimentando para gerar estatísticas, relatórios e guias para criadores de políticas públicas. A adesão ao Operation Clean Sweep, uma iniciativa internacional para reduzir a perda de partículas de plástico (pellets) para o meio ambiente, tem contribuído para minimizar impactos ambientais. O Plastic Leak Project, capitaneado pela Quantis, uma consultoria ambiental europeia focada na gestão do ciclo de vida do plástico, é uma das iniciativas mais recentes, com o objetivo de reunir um grupo de multistakeholders para criação de uma metodologia de quantificação que possa ser utilizada em níveis municipal e nacional por setores privado e público. A intenção é identificar a perda de plástico em setores da indústria e desenvolver ações mitigatórias. A ação já analisa dados dos setores de embalagem, têxtil e de fabricação de pneus. Como estudo de caso, uma empresa europeia com atuação no segmento de laticínios identificou que a venda de leite em pó para a Nigéria, China e Bangladesh é responsável pela perda de 4% do volume total de plásticos utilizados e está definindo um novo tipo de embalagem. Definir ações como esta só é possível a partir de uma metodologia consensual. Nem sempre o plástico será a melhor alternativa, mas precisamos reconhecer que para muitos casos o plástico é a solução mais viável do ponto de vista ambiental. Não é possível pensar em um futuro sustentável sem o plástico. * Yuri Kabe é Especialista em Avaliação de Ciclo de Vida na Braskem

27 de julho, 2020