Candidatos ignoram emergência climática

Análise do Observatório do Clima revela que o programa de Lula é o mais alinhado à agenda socioambiental entre os candidatos à presidência em 2026, contrastando com a pouca atenção dada à emergência climática por outros concorrentes.
Segundo análise do Observatório do Clima, o programa de governo de Luiz Inácio Lula da Silva é o mais verde entre os candidatos que pontuam nas pesquisas de intenção de votos das eleições de 2026. A comparação incluiu os planos de Flávio Bolsonaro, Augusto Cury, Renan Santos, Ronaldo Caiado e Romeu Zema. O Observatório do Clima considerou 28 itens da agenda socioambiental e identificou 16 compromissos positivos e detalhados no programa de Lula. O segundo colocado nas pesquisas, Flávio Bolsonaro, apresenta apenas um compromisso positivo.
A rede com mais de 130 organizações mostrou o programa dos candidatos com mais de 1% nas pesquisas. O resultado mostra que a mudança climática e os temas ambientais estão fora do radar da maioria dos candidatos que pretendem governar o quinto maior emissor de gases de efeito estufa do planeta. Para chegar aos resultados, organizações que integram a rede do Observatório do Clima avaliaram os planos de governo apresentados à Justiça Eleitoral. A avaliação partiu de oito grandes eixos: mudanças climáticas, energia, desmatamento, proteção de povos e comunidades tradicionais, agronegócio sustentável, mineração e infraestrutura, governança ambiental e climática, oceano e zona costeira. “A análise, realizada pela Força Tarefa de eleições do Observatório do Clima, mostra que os temas referentes a clima e meio ambiente de forma mais ampla têm uma atenção muito aquém do necessário. A exceção é o plano de governo do atual Presidente, no qual o ponto de preocupação fica apenas na área de energia, o que era até esperado. Os planos dos demais candidatos são todos muito mais fracos em relação à agenda ambiental, alguns absolutamente inaceitáveis”, diz Suely Araujo, coordenadora de Políticas Públicas do Observatório do Clima.
A respeito de mudanças climáticas, apenas o plano de Lula cita o cumprimento da meta climática brasileira (NDC) e o Acordo de Paris. A adaptação climática aparece como destaque no documento, com detalhamento de ações e prazos, além de compromissos com o fortalecimento da fiscalização ambiental e agricultura sustentável, que se relacionam direta ou indiretamente com a ação climática. O plano de Flávio Bolsonaro não reconhece a existência de uma crise do clima, enquanto Augusto Cury, apesar de reconhecer as mudanças climáticas, não apresenta uma política estruturada para enfrentá-las e não menciona a NDC brasileira, metas de redução de emissões, neutralidade climática, justiça climática ou racismo ambiental.
O programa de Renan Santos não apresenta políticas específicas para a crise climática e nem menciona a agenda de clima. Também ficaram de fora a meta climática brasileira, o Acordo de Paris, a Política Nacional sobre Mudança do Clima (PNMC) ou o Plano Clima. Ronaldo Caiado, por sua vez, reconhece que as mudanças climáticas provocam eventos extremos e perdas agrícolas e propõe medidas de adaptação e prevenção de desastres. O plano, porém, não contém propostas de redução de emissões nem menciona a NDC brasileira, o Acordo de Paris, justiça climática, racismo ambiental, o Plano Clima ou os mapas do caminho.
Quanto a Romeu Zema, apesar de reconhecer que o país é afetado por eventos extremos, não especifica quais serão os meios de implementação de ações de monitoramento e resposta a desastres. Em seu governo em Minas Gerais, Zema reduziu em 96% as verbas destinadas à prevenção de impactos das chuvas entre 2023 e 2025. “Desde a última eleição, a agenda de clima ficou mais evidente no país, principalmente depois das cheias no Rio Grande do Sul e da seca na Amazônia. Eventos como estes, que afetaram a vida de milhares de brasileiros, infelizmente tendem a se repetir. Assim, é lamentável ver como alguns candidatos simplesmente ignoram o assunto em seus planos de governo ou, pior, chegam até mesmo a negar a existência das mudanças climáticas”, diz Marcio Astrini, secretário executivo do Observatório do Clima.
As análises foram enviadas para as coordenações de campanha de cada candidatura. A tabela síntese da análise em relação aos 28 temas destacados pela rede do Observatório do Clima pode ser acessada pelo link https://oc.eco.br/wp-content/uploads/2026/09/Analise-de-Planos-de-Governo-Eleicoes-2026_f.pdf.

