Embalagens inadequadas aumentam riscos ambientais no transporte de cargas perigosas

Só em São Paulo, foram 862 ocorrências com produtos perigosos em 2023; regulamentação exige certificação e conformidade, mas cultura de prevenção ainda é insuficiente
Falhas em embalagens utilizadas no transporte de produtos perigosos estão entre as principais causas silenciosas de riscos ambientais, podendo resultar em vazamentos, contaminação de solo e recursos hídricos, além de prejuízos operacionais significativos. Segundo dados da Associação Brasileira de Transporte e Logística de Produtos Perigosos (ABTLP), somente no estado de São Paulo foram registradas 862 ocorrências envolvendo esse tipo de carga em 2023, com média superior a 70 registros por mês. Os impactos vão além das perdas financeiras: um vazamento químico em rodovia pode provocar interdições, evacuação de áreas urbanas e contaminação ambiental de difícil remediação.
O arcabouço regulatório brasileiro é robusto. A Resolução ANTT nº 5.998/2022, atualizada pelas Resoluções nº 6.016/2023 e nº 6.056/2024, estabelece prescrições detalhadas sobre classificação de produtos, certificação e identificação de embalagens, sinalização de veículos e documentação obrigatória. A regulamentação baseia-se nas recomendações do Comitê de Peritos no Transporte de Produtos Perigosos da ONU e no Acordo Europeu ADR. Embalagens de plástico, por exemplo, têm validade de cinco anos a partir da fabricação, e o descumprimento das exigências pode resultar em multas de R$ 500 a R$ 50 mil, com responsabilidade solidária entre expedidor e transportador.
Apesar dos avanços normativos — são mais de 390 documentos legais regulando o setor apenas no âmbito federal —, muitas empresas ainda tratam a conformidade como custo, optando por soluções inadequadas. Entre os riscos mais críticos estão o uso de embalagens não certificadas, classificação incorreta da carga, armazenamento inadequado e falta de treinamento das equipes. No modal aéreo, mais de 1,25 milhão de remessas de cargas perigosas são movimentadas anualmente, incluindo líquidos inflamáveis e baterias de lítio, cujo acondicionamento inadequado pode desencadear reações térmicas descontroladas (thermal runaway).
Especialistas destacam que embalagens certificadas garantem maior segurança, rastreabilidade e eficiência na gestão de incidentes. A segurança no transporte depende de múltiplas camadas: embalagens homologadas, etiquetagem correta, documentação precisa e capacitação contínua dos profissionais envolvidos. Para o saneamento ambiental, o tema é particularmente relevante: vazamentos de produtos perigosos em rodovias representam risco direto de contaminação de lençóis freáticos, mananciais e áreas de captação de água, evidenciando a necessidade de ampliar a cultura de conformidade e fortalecer a prevenção ambiental na cadeia logística.
*por Leonardo Lopes Bezerra, consultor em materiais perigosos e especialista em certificação e conformidade de embalagens segundo normas DOT, ANTT, Inmetro, IATA/ICAO e IMDG-Code

