MEIO AMBIENTE

Estudo mostra que áreas verdes ajudam no controle da temperatura

Estudo mostra que áreas verdes ajudam no controle da temperatura

O impacto mais eficiente foi observado em jardins botânicos, com a máxima de resfriamento de 5 graus e mínima de 3,5 graus

Pesquisadores da Austrália, Brasil, China, Estados Unidos e Reino Unido selecionaram 202 artigos para revisão e os resultados do estudo ‘Urban heat mitigation by green and blue infrastructure: Drivers, effectiveness, and future needs’, foram publicados na revista científicaThe Innovation. O trabalho teve a contribuição do Instituto de Astronomia, Geofísica e Ciências Atmosféricas da Universidade de São Paulo (IAG-USP), que avaliou 51 tipos de infraestrutura urbana verde-azul-cinza (GBGI), como parques, áreas úmidas e ecologização, repartidos em dez divisões e os comparou com os dados de resfriamento do ar por tipos de estrutura verde-azul. O impacto mais eficiente foi observado em jardins botânicos, com a máxima de resfriamento de 5 graus e mínima de 3,5 graus, seguido por áreas úmidas (4,9 ± 3,2 C), áreas verdes paredes (4,1 ± 4,2 C), árvores nas ruas (3,8 ± 3,1 C) e varandas com vegetação (3,8 ± 2,7ºC).

A infraestrutura verde-azul consiste em ter áreas verdes (parques, canteiros, jardins botânicos etc.) com água (lagos, rios etc.) com o objetivo de reduzir a temperatura e ter balanço hídrico, que ajude a prevenir alagamentos e preservar a natureza. “Em resumo, colabora no balanço térmico, protegendo contra os excessos de temperatura e chuva”, ressalta a física Maria de Fátima Andrade, professora titular do Departamento de Ciências Atmosféricas do IAG-USP e uma das autoras do estudo. Esta análise oferece insights sobre necessidades regionais específicas, práticas eficazes e potencial transferibilidade de soluções entre diferentes locais. A maioria dos estudos do GBGI originou-se da Ásia (51,1%), principalmente da China (29,95%), seguida pela Europa (30,4%), Austrália (7,5%), América do Norte (7,0%), América do Sul (1,8%), África (1,8%) e Nova Zelândia (0,4%).

As áreas urbanas são em geral impactadas pelo chamado Efeito Ilha de Calor decorrente da mudança da superfície com o aumento de construções com concreto e pavimentos que ampliam o armazenamento de calor. A esse efeito, explica Maria de Fátima, soma-se a tendência de haver mais eventos extremos de temperatura, denominados ondas de calor. A mudança de padrão de temperatura é um fator de estresse para a vegetação, o que pode resultar no comprometimento de sua resistência a insetos e a deficiência hídrica. “Preservar as áreas verdes resulta também na absorção de poluentes, prevenção de alagamentos, preservação de animais e plantas e preservação de áreas naturais”, reforça a física.

Maria de Fátima Andrade comenta que a adoção de um planejamento urbano que preserve a presença de áreas verdes reflete diretamente na preocupação com o efeito de temperaturas bem elevadas na saúde, que podem causar um "heat stroke” ou, em português, insolação (golpe de calor), que é uma condição na qual a temperatura corporal fica superior a 40ºC, levando a um estado de confusão e outros possíveis sintomas, entre eles apresentar pele vermelha, seca ou úmida, dores de cabeça e tonturas. “A presença de áreas verdes resulta justamente na diminuição desse efeito. É possível observar em São Paulo, por exemplo, as diferenças entre as temperaturas das áreas com mais parques e aquelas com mais asfalto e concreto”, aponta a pesquisadora do IAG/USP. Outro ponto destacado no estudo é que as paredes verdes, parques e árvores nas ruas foram mais frequentemente analisados nos estudos que foram selecionados nesse trabalho de revisão, mas a mesma atenção na literatura científica não foi dada aos jardins zoológicos, campos de golfe, estuários, jardins privados e loteamentos. “Mostramos com isso que há ainda muitos pontos sem uma análise criteriosa. Não se pode tirar conclusões com base em poucos estudos, assim para alguns tipos de superfície há poucos dados. Uma análise baseada em poucos estudos poderia ser contestada, incluindo a falta de estudos na América do Sul e outros países do sul global”, pondera a cientista brasileira. O artigo científico é assinado por Kumar P, Debele SE, Khalili S, Halios CH, Sahani J, Aghamohammadi N, Andrade MF, Athanassiadou M, Bhui K, Calvillo N, Cao SJ, Coulon F, Edmondson JL, Fletcher D, Dias de Freitas E, Guo H, Hort MC, Katti M, Kjeldsen TR, Lehmann S, Locosselli GM, Malham SK, Morawska L, Parajuli R, Rogers CDF, Yao R, Wang F, Wenk J, Jones L. Urban heat mitigation by green and blue infrastructure: Drivers, effectiveness, and future needs. Innovation (Camb). 2024 Feb 7;5(2):100588.

Artigos Relacionados

Iniciativa apoia vulneráveis em São Paulo durante ondas de calor
CLIMA
Iniciativa apoia vulneráveis em São Paulo durante ondas de calor

A ação teve início em 7 de fevereiro e irá atender cinco mil pessoas até o fim do verão, com a distribuição de água, viseiras, squeezes e kits pet, compostos por vasilha e água.

10 de fevereiro, 2026
Pará vê casos de saúde pública crescer no último triênio
MUDANÇAS CLIMÁTICAS
Pará vê casos de saúde pública crescer no último triênio

Esses eventos ocasionaram um aumento no número de queimadas e de atendimentos em postos de saúde e hospitais do Estado de pacientes expostos à fumaça.

19 de novembro, 2025
Ondas de calor atingem mais população de baixa renda
CLIMA
Ondas de calor atingem mais população de baixa renda

Em 2024, o Brasil enfrentou nove ondas de calor, no ano mais quente da história, e foi a primeira vez que o planeta ultrapassou o limite de aumento da temperatura média definido pelo Acordo de Paris – de 1,5 °C.

29 de setembro, 2025
Elevadas temperaturas prejudicam sistemas de saneamento
MUDANÇAS CLIMÁTICAS
Elevadas temperaturas prejudicam sistemas de saneamento

Os efeitos das ondas de calor podem ser observados no aumento da demanda por água, pressionando sistemas que já operam no limite de sua capacidade.

19 de fevereiro, 2025
Proposta quer tornar municípios mais resilientes a desastres naturais
MUDANÇAS CLIMÁTICAS
Proposta quer tornar municípios mais resilientes a desastres naturais

o programa de fomento às cidades resilientes prevê o uso de instrumentos financeiros e econômicos prioritariamente nos locais mais vulneráveis das cidades.

23 de janeiro, 2025