SAÚDE PÚBLICA

Mortes por água contaminada chegam a mais de 1,4 milhão por ano no mundo

Mortes por água contaminada chegam a mais de 1,4 milhão por ano no mundo

No Brasil, dados do Ministério da Saúde apontam mais de 340 mil internações anuais por doenças associadas à falta de saneamento básico, incluindo enfermidades de veiculação hídrica, como diarreias, hepatite A e infecções gastrointestinais.

Em um momento em que o acesso à água potável ainda representa um desafio global, a microbiologia desempenha um papel de grande importância na garantia da qualidade da água consumida diariamente. Mais do que aparência cristalina, a segurança da água depende de análises rigorosas capazes de identificar microrganismos invisíveis a olho nu, muitos deles responsáveis por doenças graves. De acordo com dados da Organização das Nações Unidas (ONU), mais de 1,4 milhão de pessoas morrem todos os anos no mundo em decorrência de infecções relacionadas à água contaminada. No Brasil, dados do Ministério da Saúde apontam mais de 340 mil internações anuais por doenças associadas à falta de saneamento básico, incluindo enfermidades de veiculação hídrica, como diarreias, hepatite A e infecções gastrointestinais.

Segundo a especialista Ana Paula Bohm, CEO da AquaVita - Laboratório de Análises, empresa que atua com análises ambientais e controle de qualidade em efluentes, solo, alimentos e cosméticos, a microbiologia é a ciência dedicada ao estudo de organismos microscópicos como bactérias, vírus, fungos, protozoários e algas, e é utilizada para identificar possíveis contaminações. “Muitas das doenças vêm da água imprópria”, afirmou durante live sobre o tema, transmitida no canal do YouTube Micromeio.

A presença de microrganismos como coliformes totais e Escherichia coli é um dos principais indicadores de contaminação. Esses organismos podem indicar falhas no tratamento ou na armazenagem da água. “Os coliformes totais são comuns. Às vezes, de fato, coletamos amostras de água tratada com presença de coliformes totais. Muitas vezes, essa água não possui cloro suficiente para eliminá-los”, comenta Ana Paula.

A contaminação da água pode ocorrer por diversos fatores, como falta de limpeza de reservatórios, infiltrações, tubulações comprometidas ou até poluição do lençol freático. “Às vezes, a gente olha para uma água límpida, bonita, aparentemente cristalina. Mas a microbiologia não se revela pela aparência, a água pode estar contaminada mesmo quando parece própria para consumo”, alerta.

Casos mais graves de contaminação da água podem envolver doenças como hepatite, infecções intestinais e até câncer, especialmente em situações de exposição prolongada a contaminantes químicos. “Pode pegar hepatite na água contaminada”, afirma a especialista, ao alertar para os riscos associados à ingestão de água sem o devido controle de qualidade. Ela também reforça a necessidade de monitoramento constante, sobretudo em fontes alternativas. “Água de poço precisa ser monitorada mensalmente, com alta frequência, porque não sabemos os vizinhos podem estar fazendo ao lado. Há risco de descarte de resíduos que podem atingir o lençol freático”, afirma.

A análise microbiológica da água é baseada em indicadores específicos capazes de identificar a presença de contaminantes, com destaque para os meios de cultura, substâncias que favorecem o crescimento de microrganismos em laboratório. “Existem três tipos de meio de cultura: seletivos (selecionam bactérias), diferenciais (distinguem os tipos de bactérias) e enriquecidos (para microrganismos exigentes). A microbiologia é muito sensível. Tudo que a gente faz é estéril. Se respirar em cima pode causar algum tipo de contaminação”, explica Ana Paula, da AquaVita. O processo inclui coleta adequada, transporte sob condições controladas e início das análises em até 24 horas, etapas essenciais para garantir a confiabilidade dos resultados.

Paralelamente ao controle laboratorial, práticas cotidianas também são determinantes para a qualidade da água, incluindo a limpeza periódica de caixas d’água e cisternas, a higienização de reservatórios e o uso correto de agentes desinfetantes. “Hoje o que realmente mata as bactérias de forma eficiente é o cloro”, diz a especialista, que complementa que a precisão das análises está diretamente relacionada à qualidade dos insumos e equipamentos utilizados nos laboratórios.

Empresas como a Kasvi, empresa brasileira dedicada a oferecer as melhores soluções para pesquisa, ciência, diagnósticos, estudos e novas descobertas, atuam no fornecimento desses materiais, assegurando a padronização e a confiabilidade dos testes microbiológicos. Os meios de cultura, por exemplo, passam por rigoroso controle de qualidade e são importantes para o desenvolvimento de bactérias, fungos e leveduras em condições controladas, permitindo a identificação e quantificação dos microrganismos presentes nas amostras. Além disso, itens como alças de inoculação, frascos e sacos estéreis para coleta, bem como equipamentos como medidores de pH, integram o conjunto de soluções utilizadas nas análises.

“Se a pessoa está em casa e quer fazer uma análise da água (levar até algum laboratório), é importante saber quanto coletar e como transportar essa amostra. Em caso de dúvida em relação à qualidade da água, uma alternativa segura é optar por água mineral com gás, já que o CO₂ ajuda a impedir a proliferação de bactérias, reduzindo o risco de contaminação”, orienta a especialista. A legislação brasileira estabelece critérios rigorosos para garantir a potabilidade da água. A Portaria nº 888/2021, do Ministério da Saúde, é o principal marco regulatório sobre o tema e determina que toda água destinada ao consumo humano deve passar por análises microbiológicas e físico-químicas, além de parâmetros relacionados à presença de pesticidas e outros contaminantes. A norma consolidou a obrigatoriedade do monitoramento contínuo por parte de empresas, indústrias e demais responsáveis pelo fornecimento de água. “Hoje as pessoas têm uma legislação federal que fala que todos os locais que fazem distribuição de água devem comprovar que a água está própria para consumo. E a gente não sabe disso”, explica Ana Paula.

A exigência se estende a diferentes ambientes, como condomínios, hotéis, escolas e indústrias. Mesmo em locais abastecidos por concessionárias, é necessário assegurar a qualidade da água nos sistemas internos de armazenamento e distribuição. “Mesmo utilizando água de concessionária, em um condomínio, por exemplo, precisa-se fazer uma análise e comprovar que a água está própria para consumo. Ali para dentro pode ocasionar a contaminação microbiológica, uma caixa d’água, uma cisterna não bem limpa, até os canos”, complementa a especialista.

Além da Portaria nº 888, outras normas complementam o controle da qualidade da água no país, como as resoluções CONAMA 357, que trata da classificação e qualidade de águas superficiais, e CONAMA 274, voltada à balneabilidade. No caso específico das águas minerais, também se aplicam legislações federais como a RDC 275, que estabelece critérios microbiológicos, e a RDC 274, que aborda parâmetros físico-químicos. Essas normas determinam o monitoramento de microrganismos como coliformes, clostrídios e pseudomonas, entre outros, reforçando a necessidade de controle rigoroso para garantir a segurança do consumo.

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