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ENERGIA

Tensões no Oriente Médio pressionam custos globais e acendem alerta para empresas brasileiras

Tensões no Oriente Médio pressionam custos globais e acendem alerta para empresas brasileiras

Com previsão de alta de até 12% no mercado livre e implementação da tarifa horária pela ANEEL em 2026, sistemas híbridos com armazenamento ganham espaço como estratégia de resiliência energética

Em meio a instabilidades geopolíticas, eventos climáticos extremos e aumento da demanda, empresas brasileiras têm buscado soluções para garantir previsibilidade e continuidade no fornecimento de energia. O cenário se soma a pressões internas: projeções indicam alta de até 8% nas tarifas residenciais e de 12% no mercado livre em 2026, impulsionadas principalmente por encargos setoriais (CDE) e pela necessidade de expansão da rede de transmissão. A ANEEL implementa neste ano a tarifa horária, que diferencia o custo da energia conforme o período do dia, exigindo das empresas uma gestão de consumo mais inteligente.

Nesse contexto, os sistemas híbridos — que combinam geração renovável (solar e eólica) com armazenamento em baterias — ganham destaque ao transformar a energia em ativo estratégico. Globalmente, a capacidade de armazenamento em baterias (BESS) deve ultrapassar 130 GW/350 GWh em 2026, segundo a Rystad Energy. No Brasil, o Marco Legal da Micro e Minigeração Distribuída (Lei 14.300/2022) acelera essa tendência: com a cobrança progressiva da TUSD Fio B sobre a energia injetada na rede — que atinge 60% em 2026 —, a utilização de baterias para maximizar o autoconsumo torna-se economicamente mais atrativa.

O setor elétrico brasileiro vive um momento paradoxal. A matriz é predominantemente renovável — 84,6% da potência instalada provém de fontes limpas, com solar e eólica respondendo por 23,7% da geração, segundo o Balanço Energético Nacional 2025 (EPE). Contudo, o fenômeno do curtailment (restrição de geração) cresceu expressivamente: em 2025, 20,6% da energia solar e eólica gerada não pôde ser aproveitada, ante 9,3% em 2024 e 3,6% em 2023. Esse cenário reforça a necessidade de sistemas de armazenamento que permitam absorver excessos de geração e manter a estabilidade da rede.

Para empresas mais expostas a oscilações de custo e interrupções — especialmente no agronegócio, na indústria e no saneamento —, a adoção de soluções híbridas deve crescer nos próximos anos. A combinação de geração distribuída com armazenamento permite reduzir a dependência da rede, evitar picos tarifários e garantir continuidade operacional em cenários de instabilidade. Em países como Austrália e Índia, mais de 50% dos novos projetos renováveis já nascem integrados a baterias, segundo a Wood Mackenzie — modelo que tende a ganhar tração também no Brasil, consolidando o armazenamento como pilar da transição energética e da segurança operacional.

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FONTES RENOVÁVEIS
As vantagens da integração de energias

O Brasil conta com uma das matrizes elétricas mais limpas do mundo, com 83% de sua fonte advinda de energias renováveis. A hidrelétrica tem maior participação, com 63,8%, seguida pela eólica (9,3%), biomassa e biogás (8,9%) e solar centralizada (1,4%). Os dados são do Ministério de Minas e Energia. Segundo o relatório do SEEG (Sistema de Estimativas de Emissões de Gases de Efeito Estufa), os três últimos tipos de geração de energia, somados, ultrapassam a geração de energia térmica a combustíveis fósseis. Como resultado, o Brasil tem alcançado uma diminuição da emissão de gases de efeito estufa (GEE) oriundos da geração de energia elétrica. Em 2019, o segmento reduziu em 5% essa emissão, com o avanço, principalmente, das energias eólicas e solar na matriz. Isso significa que existe uma oportunidade de crescimento para essas duas fontes. “As tecnologias solar e eólica se desenvolveram muito na última década, apresentando reduções de custos continuadas e tornando-se, naturalmente, competitivas em relação às fontes convencionais, como o gás natural e o carvão mineral”, avalia o engenheiro, físico e doutor em energia, Demóstenes Barbosa da Silva, presidente da BASE Energia Sustentável. A projeção é que a eólica pode responder por 11% da matriz elétrica em 2024, enquanto que a solar pode chegar a 2,4%. “Esses crescimentos podem se tornar vertiginosos assim que a economia brasileira voltar a crescer, pois os planos de expansão da oferta de energia no Brasil consideram essas duas fontes de energia como as mais vantajosas, tanto sob o ponto de vista econômico como no ambiental”, acrescentou. Contudo existem desafios, como a intermitência e a sazonalidade dessas duas fontes energéticas. Por outro lado, o mercado tem trazido tecnologias de armazenamento de energia por longo período. Um desses casos, por exemplo, é converter a energia em hidrogênio por meio da eletrólise de água, para ser armazenado e produzir eletricidade posteriormente. Pelo fato de o hidrogênio ser uma fonte limpa, não haveria emissões de GEE. O presidente da BASE Energia Sustentável recorda que a Agência Nacional de Energia Elétrica lançou, em 2016, a Chamada Pública 21 para projetos de Pesquisa & Desenvolvimento sobre a possibilidade de armazenamento no Brasil. “Os projetos aprovados para implantação estão próximos de suas conclusões e a expectativa é que, em 2021, sejam apresentadas várias respostas sobre como fazer armazenamento de energia em escala comercial no Brasil”, destaca. Uma estratégia para ampliar essa participação é a integração entre as energias renováveis, com o objetivo de ganhar eficiência e trazer benefícios ao meio ambiente, à economia e à vida das pessoas. “A diversidade de fontes energéticas renováveis abundantes e a evidente complementaridade entre suas características de sazonalidade e intermitência indicam um enorme potencial de aproveitamento sinérgico entre algumas delas, como a hidreletricidade e a solar”, explica Silva. Nesse sentido, seria possível operar duas plantas, uma hidrelétrica e outra solar, de forma conjugada, aumentando a energia garantida do conjunto, comparativamente ao modelo atual de operação, cuja otimização é feita no conjunto de todas as fontes conectadas no Sistema Interligado Nacional (SIN). Segundo o engenheiro, essa integração é perfeitamente viável, técnica e economicamente, e esses arranjos têm sido demonstrados em alguns projetos de empresas do setor. A integração pode ser feita aproveitando-se, por exemplo, áreas remanescentes da construção de barragens e reservatórios das usinas hidrelétricas, bem como áreas sobre as próprias superfícies dos reservatórios, para instalar-se plantas solares, sobre o solo e flutuantes. “A energia solar, que está invariavelmente disponível durante as horas de incidência solar durante o dia, pode ser priorizada para o atendimento da geração do conjunto formado com a hidrelétrica, enquanto se preserva água em seu reservatório, invertendo-se a prioridade nos períodos noturnos”, detalha o presidente da BASE Energia Sustentável. Desse modo, o armazenamento de energia resguarda o sistema ante a intermitência e, até mesmo, pode disponibilizar volumes maiores de energia a custos menores, uma vez que sob a forma de hidrogênio, essa energia pode ser armazenada a longos prazos. Por fim, Silva espera que, em futuro próximo, arranjos entre duas ou mais fontes de energia se tornem comuns no Brasil. Porém, será preciso, antes, vencer o desafio de se ter fabricantes aptos a fornecer equipamentos para implantar essa sinergia em larga escala.

13 de julho, 2020