Amapá: dependência estrutural, vazio produtivo e a oportunidade histórica da Margem Equatorial

POLÍTICAS PÚBLICAS

Amapá: dependência estrutural, vazio produtivo e a oportunidade histórica da Margem Equatorial

Por Antônio Furtado Damasceno

Saneamento Ambiental 203Páginas 37-47Ver na versão PDF flip

Estado do Amapá, situado na Região Norte, é hoje um dos exemplos inegáveis do desequilíbrio federativo do Brasil. O Amapá sobrevive, em sua essência, por transferências majoritariamente constitucionais e voluntárias, ao passo que sua arrecadação própria mantém-se limitada e insuficiente para suportar políticas públicas estruturantes. Nesse cenário, os maiores empregadores são os próprios entes federativos (Governo Estadual, Prefeituras e a União, com seus órgãos federais), evidenciando uma economia exaustivamente submissa do setor público e com inexpressiva capacidade de geração autônoma de riqueza.

A vulnerabilidade produtiva é grave e alarmante, uma vez que o estado praticamente não produz o que se consome – gêneros alimentícios, confecções, bens de consumo duráveis, equipamentos, insumos industriais - e até itens básicos do cotidiano originam-se, na sua quase totalidade, de outros centros produtores do País. Essa extrema dependência externa onera excessivamente o custo de vida, drena recursos financeiros para fora do Estado e impossibilita a geração de cadeias produtivas locais, configurando-se em um modelo econômico obsoleto e estagnado, cunhado na circulação de verbas públicas e não na geração de valor agregado.

O isolamento logístico reforça ainda mais esse panorama. Pela razão de ser o único Estado brasileiro sem conexão terrestre com o restante do País, o Amapá opera sob custos excessivos de transporte, o que reduz competitividade e afasta investimentos. Sua economia local tem participação residual no PIB Nacional, não por ausência de potencial, mas por privação de oportunidades reais de desenvolvimento. Mais de 60% da população concentra-se em Macapá, onde se acumulam infraestrutura, serviços e empregos públicos, enquanto o interior permanece esvaziado economicamente. Mesmo assim, a capital convive com déficits históricos de saneamento básico, acesso à água tratada e coleta e tratamento de esgoto, evidenciando o esgotamento de um modelo incapaz de garantir dignidade social a sua população.

Este Estado representa hoje uma das maiores contradições do Brasil, com profundas distorções em seu desenvolvimento. O Amapá tem localização privilegiada e estratégica, sendo o único Estado brasileiro cuja capital, Macapá, é cortada pela linha do Equador e o mais próximo, em termos de navegação, dos grandes blocos econômicos da América do Norte, Europa e África Ocidental. Isto que representaria redução do tempo de trânsito marítimo, com rotas mais curtas e eficientes para exportação de commodities e produtos industrializados, custos de frete e emissões com maior previsibilidade logística para cadeias globais de suprimentos, aspectos estes preponderantes no atual comércio global, o que poderia consolidar o Amapá como um hub logístico internacional.

O Amapá se projeta com os melhores indicadores ambientais, com 97% de sua floresta primária preservada e uma rica biodiversidade, além de sua importância geográfica e geopolítica. Entretanto, permanece entre os piores indicadores sociais e econômicos, com índices alarmantes e uma economia praticamente desconectada do restante do País. Com apenas 16 municípios e uma população estimada em pouco mais de 800 mil habitantes, o Amapá carrega uma das mais altas taxas de dependência de programas de transferência de renda do Brasil: mais de 70% da população vive direta ou indiretamente do Bolsa Família e do BPC, reflexo de uma base produtiva frágil e de décadas de ausência de políticas estruturantes.

É nessa conjuntura de dependência fiscal, vazio produtivo e desigualdade estrutural que a Margem Equatorial se manifesta como uma oportunidade histórica de inflexão econômica. Apontada como uma das mais promissoras fronteiras petrolíferas do mundo, a Margem Equatorial compartilha similaridades geológicas com a área que transformou drasticamente a economia da Guiana, com produção atual de 900 mil barris de petróleo por dia e forte expansão fiscal e social.

No caso amapaense, projeções técnicas indicam que a produção pode atingir, nos primeiros cinco anos, patamares entre 300 mil e 500 mil barris por dia. Esse estágio teria impacto direto e imediato na capacidade financeira do Estado. Somente em royalties e participações governamentais, o Amapá seria capaz de receber entre R$ 3 bilhões e R$ 6 bilhões por ano, ao passo que os municípios diretamente afetados arrecadariam entre R$ 800 milhões e R$ 1,2 bilhão anuais. Em cinco anos, o montante acumulado pode suplantar R$ 20 bilhões, superando com folga a atual capacidade de investimento estadual.

A arrecadação tributária também suportaria um salto estrutural. ICMS sobre combustíveis, serviços, logística, energia e construção civil, além do ISS municipal, originariam uma base fiscal inédita. As estimativas assinalam crescimento de 40% a 60% na arrecadação própria do Estado, com municípios diretamente envolvidos podendo dobrar ou triplicar suas receitas, reduzindo radicalmente a dependência de transferências federais.

No que tange ao mercado de trabalho, os efeitos seriam revolucionários. A implantação e operação da indústria do petróleo tem potencial de gerar entre 25 mil e 35 mil empregos diretos e 80 mil a 120 mil empregos indiretos e induzidos, em setores como logística portuária, transporte, estaleiros, hotelaria, construção civil, gastronomia, tecnologia, inovação, serviços especializados e comércio e serviços básicos. Para um estado de pouco mais de 800 mil habitantes, esse efeito representaria uma ruptura com o modelo de emprego público como principal fonte de renda.

Mais relevante ainda é o papel do petróleo como indústria âncora e indutora, capaz de destravar e integrar outros setores estratégicos do Amapá. Os investimentos em infraestrutura logística, energética, portuária e tecnológica exigida pelo setor petrolífero estabelece as condições necessárias para o desenvolvimento da mineração, da exploração sustentável de recursos florestais, da agricultura, da pecuária, da pesca, da biodiversidade aplicada, da indústria de fitoterápicos, da biotecnologia, da bioeconomia e do turismo estruturado. Setores hoje latentes, bloqueados pela ausência de escala, logística, crédito e ambiente de negócios, passariam a operar em um novo patamar de viabilidade econômica.

A Margem Equatorial, portanto, não deve ser compreendida como um fim em si mesma, mas como o motor capaz de iniciar um ciclo virtuoso de diversificação produtiva, interiorização do desenvolvimento e geração de valor agregado. Negar essa possibilidade ao Amapá, sob pressões externas que ignoram sua realidade social e econômica, é perpetuar um modelo de dependência, pobreza estrutural e subdesenvolvimento regional.

Para o Amapá, explorar de forma responsável a Margem Equatorial é exercer soberania, reduzir desigualdades regionais, ter autonomia econômica, promover a justiça intergeracional e transformar riqueza natural em dignidade social. É a chance concreta de deixar de ser um estado sustentado por repasses e empregos públicos para se tornar um território produtivo, competitivo e integrado ao desenvolvimento nacional, deixando de ocupar as margens do desenvolvimento brasileiro para assumir, finalmente, o protagonismo que sua posição estratégica lhe confere.

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Antônio Furtado Damasceno é Advogado e Engenheiro de Produção. Especialista em Docência do Ensino Superior; Práticas Trabalhistas, Tributárias e Previdenciárias; Gestão e Governança Corporativa com foco em ESG; Projetos e Licenciamento Ambiental; QSMS Qualidade, Saúde, Meio Ambiente e Segurança do Trabalho na Indústria do Petróleo; MBA em Petróleo e Gás e MBA em Energias Renováveis. Conselheiro da Ordem dos Advogados do Brasil Seccional Amapá, Presidente da Comissão de Meio Ambiente da OAB/AP, Membro da Comissão de Petróleo, Gás e Biocombustíveis da OAB/AP e da Comissão Nacional de Óleo e Gás do Conselho Federal da OAB. Presidente do Instituto Amazônico de Petróleo e Energias Renováveis (IAMPER) e Conselheiro do Conselho de Meio Ambiente do Amapá (COEMA).

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