Educação que vira ciência, ciência que vira futuro

SANEAMENTO

Educação que vira ciência, ciência que vira futuro

Da formação de jovens pesquisadores nas escolas públicas às medições climáticas no coração da Antártica, a jornada de Gabriel Estevam Domingos revela porque investir em educação científica é estratégico para o País.

Saneamento Ambiental 203Páginas 6-13Ver na versão PDF flip

O Brasil vive um momento singular de afirmação científica. Ao mesmo tempo em que pesquisadores nacionais conquistam espaço em missões de relevância global, como a Missão Científica Criosfera-1, na Antártica, escolas públicas brasileiras se destacam na promoção da cultura científica desde o ensino fundamental e médio – evidenciando que educação e ciência caminham juntas na transformação de realidades.

No epicentro dessa narrativa está Gabriel Estevam Domingos, engenheiro ambiental, pesquisador e inovador tecnológico que construiu uma trajetória de destaque na ciência brasileira. Reconhecido internacionalmente, Gabriel acumula mais de 25 registros de propriedade intelectual (INPI) e mais de 50 prêmios internacionais por soluções tecnológicas voltadas à inovação socioambiental. Esse conjunto de conquistas o projetou no cenário científico global e o levou a integrar a equipe da Missão Criosfera-1, uma das mais importantes frentes da pesquisa climática brasileira na Antártica.

A Missão Científica Criosfera-1 representa um marco na participação brasileira em pesquisas polares. Instalado no interior do continente antártico, o módulo opera de forma autônoma, coletando e transmitindo dados ambientais essenciais para a compreensão das mudanças climáticas que impactam o planeta – e que repercutem diretamente no Brasil.

A edição de 2025/2026 da missão, da qual Gabriel fez parte, é a primeira missão científica brasileira carbono neutro na Antártica, planejada para quantificar, compensar e neutralizar todas as emissões de gases de efeito estufa associadas à expedição, em conformidade com normas técnicas auditadas. Sensores meteorológicos, equipamentos para análise de gases atmosféricos e instrumentos de medição de aerossóis fornecem dados contínuos que subsidiam pesquisas estratégicas para a comunidade científica e para a formulação de políticas públicas ambientais.

Ao refletir sobre sua trajetória, Gabriel destaca que os prêmios científicos vão muito além do reconhecimento individual. Para ele, essas conquistas funcionam como pontes entre a pesquisa e a sociedade, ampliando a visibilidade de tecnologias brasileiras e aproximando cientistas de investidores, instituições e centros internacionais de inovação.

Ele relembra o apoio decisivo de educadores como o professor Ozires Silva, reitor da Universidade São Judas Tadeu (USJT), que incentivou a aplicação prática do conhecimento científico em projetos reais, aproximando a academia do setor produtivo. Segundo Gabriel, prêmios de relevância passam por rigorosas etapas de avaliação e entrevistas, o que gera visibilidade orgânica positiva para a ciência nacional e fortalece a reputação das tecnologias desenvolvidas no País.

Inspirado por essa trajetória, Gabriel também contribuiu para a criação de iniciativas voltadas à estruturação de laboratórios em escolas públicas e ao incentivo para que estudantes desenvolvam e publiquem pesquisas, fortalecendo a conexão entre educação, mercado e impacto social. Para ele, a ciência também é vetor de geração de emprego, renda e desenvolvimento sustentável.

Gabriel observa, ainda, que o Brasil possui fundações de amparo à pesquisa com recursos significativos, mas que a taxa de conversão de estudos em soluções aplicadas ainda é limitada. Ele defende, portanto, a criação de mais hubs de inovação, ambientes de startups e programas de acompanhamento capazes de transformar conhecimento científico em impacto concreto para a sociedade.

Imagem mostra mão segurando recipiente com mudas e o logo azul da Criosfera I ao fundo
Logo da Criosfera I com pequenas plantas crescendo em recipiente

Ciência em condições extremas

A participação de Gabriel na Criosfera-1 envolveu desafios logísticos expressivos. Missões polares exigem deslocamentos por aviões e navios, tradicionalmente associados a altas emissões de carbono – um paradoxo para pesquisas ambientais. Por isso, a neutralização das emissões foi tratada como prioridade. Em parceria com a ABNT, foram elaborados inventários completos de emissões, auditados segundo padrões técnicos reconhecidos.

A equipe da missão – formada por Gabriel, o físico Prof. Heitor Evangelista da Silva e o técnico eletrônico sênior Heber Reis Passos – realizou a manutenção do módulo científico instalado desde 2012, assegurando seu funcionamento autônomo em condições extremas. Entre as iniciativas, destaca-se um experimento inédito: uma microestufa adaptada a temperaturas de até -50°C, capaz de cultivar micro verdes e produzir alimento fresco em um ambiente considerado um verdadeiro "deserto de gelo". A proposta reduz a dependência de alimentos industrializados em futuras expedições e demonstra o potencial da biotecnologia brasileira em cenários extremos.

Os dados gerados pelo Criosfera-1 têm sido relevantes, inclusive para estudos climáticos relacionados a eventos extremos no Brasil, como as enchentes no Rio Grande do Sul, reforçando a conexão entre pesquisa polar e realidade nacional. A missão contou ainda com parcerias logísticas internacionais, incluindo apoio do exército chileno e de bases estrangeiras na Antártica.

Para Gabriel, pesquisas como as desenvolvidas na Antártica têm impacto direto nas políticas públicas brasileiras. O continente antártico exerce influência decisiva na regulação climática global, afetando regimes de chuva, temperatura e produtividade agrícola – áreas estratégicas para o Brasil. Investir em ciência, portanto, significa fortalecer a capacidade do País de planejar seu futuro ambiental e econômico.

A neutralização das emissões da missão considerou os três escopos do GHG Protocol, abrangendo transporte, alimentação, resíduos e logística. Parte das emissões foi compensada por meio do plantio de mudas e da aquisição de créditos de carbono certificados.

Para garantir operação contínua ao longo do ano, o módulo Criosfera-1 utiliza sistemas híbridos de energia solar e eólica, mantendo balanço energético positivo mesmo sob condições extremas. Os resíduos gerados seguem rigorosamente o Protocolo de Madri, sendo integralmente removidos do continente e destinados de forma adequada no Chile, sem deixar vestígios ambientais.

Os dados coletados ao longo de mais de uma década alimentam redes científicas internacionais e bancos de dados abertos, contribuindo para estudos sobre camada de ozônio, aerossóis atmosféricos e mudanças climáticas globais.

Educação científica que nasce nas escolas

A ligação entre o protagonismo científico de Gabriel e a educação em base nacional se fortalece com iniciativas que promovem a pesquisa desde a educação básica. É nesse contexto que se destaca o Prêmio de Incentivo ao Empreendedorismo Científico (PIEC).

O PIEC estimula escolas brasileiras a desenvolver projetos científicos e tecnológicos voltados à solução de desafios locais e globais, valorizando o pensamento crítico, a inovação e a responsabilidade socioambiental. O prêmio contempla categorias como Instituição de Ensino Público do Ano e Pomar Científico, reconhecendo projetos com impacto educacional e social relevante.

Na mais recente edição, escolas públicas de diferentes regiões do país se destacaram:

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Colégio Estadual Dom Juvencio de Britto – Canindé de São Francisco (SE)

Orientada pelos professores Lark Soany Santos e Alex Alves Cordeiro, a escola inscreveu sete projetos que dialogam com a cultura e os insumos regionais para solucionar problemas locais. Pelo desempenho consistente, foi reconhecida como Instituição de Ensino Público do Ano, demonstrando que ciência e realidade comunitária podem caminhar lado a lado.

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Clube de Ciências do Colégio Estadual Jardim Porto Alegre – Toledo (PR)

Com orientação da professora Dionéia Schauren, o clube apresentou dez projetos, dos quais sete chegaram à fase final e três alcançaram o TOP 10 na classificação geral do PIEC. A escola conquistou as categorias Pomar Científico e Instituição de Ensino Público do Ano, celebrando a excelência investigativa de seus estudantes.

Para Gabriel, em um país tão diverso e repleto de desafios socioambientais, fortalecer a educação científica não é apenas uma necessidade pedagógica – é um investimento estratégico no futuro sustentável do Brasil.

(Entrevista concedida a Luana Oliveira e Eugenio Singer)

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