Fundo do BNDES está redesenhando o financiamento climático brasileiro

CLIMA

Fundo do BNDES está redesenhando o financiamento climático brasileiro

Expansão bilionária do Fundo Clima fortalece projetos de adaptação, saneamento e proteção de recursos hídricos, aproximando política ambiental e infraestrutura urbana

Saneamento Ambiental 203Páginas 20-27Ver na versão PDF flip

O Fundo Nacional sobre Mudança do Clima, conhecido como Fundo Clima, consolidou-se nos últimos anos como um dos principais instrumentos de financiamento da transição ecológica no Brasil. Vinculado ao Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima e operado pelo BNDES na modalidade de recursos reembolsáveis, o fundo foi criado em 2009 com a missão de apoiar projetos, estudos, empreendimentos, aquisição de máquinas e equipamentos e inovações tecnológicas voltadas à mitigação das mudanças climáticas e à adaptação aos seus efeitos. O que se observa recentemente, no entanto, é uma mudança de escala que reposiciona o instrumento no centro da estratégia climática brasileira e amplia sua relevância para áreas diretamente relacionadas ao saneamento ambiental, à segurança hídrica e à resiliência das cidades.

Do ponto de vista institucional, o Fundo Clima passou por um processo de fortalecimento de sua governança. A partir de 2023, a sociedade civil voltou a integrar o Comitê Gestor, instância responsável por debater e aprovar as diretrizes de aplicação dos recursos. A recomposição ampliou a transparência e o diálogo na definição de prioridades. Esse movimento foi acompanhado por um maior detalhamento das finalidades apoiáveis no Plano Anual de Aplicação de Recursos, que desde 2024 organiza a atuação do fundo em seis eixos: desenvolvimento urbano resiliente e sustentável; indústria verde; logística de transporte, transporte coletivo e mobilidade verdes; transição energética; florestas nativas e recursos hídricos; e serviços e inovação verdes. A presença explícita de temas como resiliência urbana e recursos hídricos evidencia a aproximação entre a agenda climática e os desafios estruturais do saneamento e da gestão das águas no País.

Legenda identificando o fotógrafo da imagem do prédio do BNDES
Foto: Andre Telles

O fortalecimento institucional veio acompanhado de um reforço expressivo na base financeira do fundo. Em 2024 e 2025, o Fundo Clima recebeu recursos provenientes da emissão de títulos soberanos sustentáveis pelo governo brasileiro, totalizando R$ 10 bilhões. Essa nova fonte se somou às dotações orçamentárias tradicionais e permitiu uma ampliação sem precedentes da capacidade de financiamento. Se entre 2013 e 2023 o volume total de projetos apoiados girou em torno de R$ 2,5 bilhões, no período de 2024 até novembro de 2025 as aprovações superaram R$ 20 bilhões. Ao fim de novembro de 2025, a carteira acumulada de operações aprovadas alcançava R$ 24 bilhões, um salto que coloca o Fundo Clima entre os maiores mecanismos públicos de financiamento climático em operação.

A expansão dos recursos foi acompanhada por forte demanda de projetos, o que levou à alocação integral do orçamento disponível. O cenário reforça a percepção de que há um estoque significativo de iniciativas aptas a contribuir para a mitigação de emissões e para a adaptação do território brasileiro aos impactos das mudanças do clima, desde que haja instrumentos financeiros capazes de viabilizá-las. Nesse contexto, o Fundo Clima tem funcionado como catalisador de investimentos em áreas estratégicas.

Entre as finalidades que mais cresceram está a de Florestas Nativas e Recursos Hídricos, que conta com condições financeiras mais incentivadas, definidas pelo Conselho Monetário Nacional. O BNDES intensificou o fomento a projetos ligados à restauração florestal, à conservação de ecossistemas e à proteção de mananciais, reconhecendo o papel dessas iniciativas na mitigação de emissões, na adaptação climática e na preservação da biodiversidade. A ênfase nessa área dialoga diretamente com a necessidade de proteger bacias hidrográficas, reduzir a vulnerabilidade a secas e enchentes e garantir a disponibilidade de água em um contexto de maior variabilidade climática.

Foto ilustrativa relacionada ao tema climático/sustentabilidade

Os projetos de adaptação também passaram a ocupar espaço crescente na carteira do fundo. Iniciativas voltadas a ampliar a capacidade das cidades de lidar com eventos extremos, como chuvas intensas, inundações e deslizamentos, registraram forte aumento no volume de recursos. O montante destinado a esse tipo de projeto saiu de R$ 547 milhões em 2024 para mais de R$ 2,2 bilhões até novembro de 2025. Para o setor de saneamento ambiental, esse avanço sinaliza uma integração cada vez maior entre infraestrutura de drenagem, planejamento urbano, gestão de riscos e políticas climáticas.

Os resultados ambientais já começam a ser mensurados de forma mais precisa. As emissões de dióxido de carbono evitadas anualmente pelos projetos aprovados com recursos do Fundo Clima atingiram 4 milhões de toneladas em 2024 e subiram para 7,1 milhões de toneladas em 2025. Somados, esses valores equivalem a evitar, a cada ano, um volume de emissões comparável a nove meses de circulação de automóveis no estado de São Paulo. O banco também vem aprimorando suas metodologias de cálculo, com ferramentas que permitem estimar as emissões evitadas ou removidas ano a ano, projeto a projeto, o que fortalece o acompanhamento dos resultados ao longo do tempo.

A efetividade das operações é acompanhada por um sistema estruturado de monitoramento e avaliação do BNDES, que inclui análise prévia dos projetos, acompanhamento de indicadores durante a execução e consolidação de resultados com vistas ao aperfeiçoamento contínuo das políticas de apoio. Cada projeto financiado precisa apresentar metas e indicadores, como volume de emissões evitadas, ganhos de eficiência energética, áreas restauradas ou benefícios sociais associados. Esse conjunto de informações alimenta relatórios anuais de execução e um painel público com atualização mensal, que apresenta dados sobre distribuição regional dos recursos, setores atendidos, porte das empresas apoiadas e evolução dos principais indicadores ambientais.

Além da dimensão ambiental, o Fundo Clima também tem sido utilizado como instrumento de política industrial e de inovação. Linhas voltadas à indústria verde, à transição energética e à mobilidade sustentável apoiam cadeias produtivas ligadas a energias renováveis, biocombustíveis, baterias elétricas, eficiência energética e tecnologias de descarbonização. Máquinas e equipamentos financiados devem estar cadastrados no BNDES e atender critérios de produção nacional, o que busca estimular a inovação tecnológica no País e associar a agenda climática à geração de empregos qualificados e ao aumento da renda.

A ampliação do acesso para micro, pequenas e médias empresas ocorre por meio de uma rede de cerca de 80 instituições financeiras credenciadas, que operam recursos do Fundo Clima de forma descentralizada. Essa capilaridade favorece a chegada do financiamento a empreendedores de diferentes portes e regiões, inclusive em projetos de eficiência no uso de água e energia, gestão de resíduos, modernização de processos produtivos e soluções ambientais de menor escala, mas com impacto relevante quando somadas.

Ao tratar do papel estratégico do instrumento no cenário internacional, o BNDES é categórico ao afirmar que o Fundo Clima é peça essencial para que o Brasil cumpra as metas assumidas no Acordo de Paris por meio de sua Contribuição Nacionalmente Determinada (NDC). Segundo o banco, o acesso ao crédito em condições favoráveis, alinhado às políticas públicas climáticas, é condição fundamental para viabilizar projetos de mitigação e adaptação. Em um contexto global em que a principal barreira à transição climática ainda é a escassez de recursos em escala compatível com os desafios, o Fundo Clima coloca o Brasil como exemplo de mobilização financeira e de capacidade de direcionar investimentos para prioridades definidas de forma transparente e democrática.

Essa centralidade também se reflete no Plano Clima, que orienta como o País pretende alcançar sua NDC. O Fundo Clima é indicado como uma das fontes de financiamento das iniciativas previstas nos diferentes eixos do plano, com destaque para a Estratégia Transversal para Ação Climática voltada aos meios de implementação. Nesse documento, o instrumento é reconhecido como um dos principais mecanismos para financiar a transformação ecológica brasileira no curto e médio prazo. Ao articular governança participativa, monitoramento técnico e volumes crescentes de recursos, o Fundo Clima se firma como pilar da política climática nacional, com efeitos diretos sobre infraestrutura urbana, proteção de ecossistemas e fortalecimento da segurança hídrica – temas cada vez mais centrais para o saneamento ambiental.

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