Durante a COP 30, foram protagonizadas as diversas alternativas para acelerar a descarbonização Como você avalia o posicionamento do Brasil nesse cenário e qual deveria ser o papel estratégico dos biocombustíveis na diplomacia climática brasileira?
O Brasil chegou à COP30 com uma posição muito clara: somos um país que não apenas discute a transição energética, mas que já a coloca em prática. Demonstramos ao mundo que é possível reduzir emissões agora, com soluções maduras, acessíveis e operando em escala nacional. O biodiesel é um exemplo emblemático dessa estratégia, um biocombustível renovável, produzido no país, com forte impacto social e com infraestrutura pronta para crescer.
Do ponto de vista diplomático, os biocombustíveis deveriam ocupar papel central na narrativa climática brasileira. Temos uma matriz majoritariamente renovável e uma cadeia produtiva que integra 300 mil agricultores familiares. São atributos únicos, que nos dão autoridade e legitimidade para influenciar as negociações internacionais. O Brasil tem a oportunidade de posicionar o biodiesel como um pilar da transição energética global.
O biodiesel poderia substituir de forma competitiva uma parcela relevante do diesel fóssil nas termelétricas? O que falta para essa transição ganhar escala?
Sem dúvida. O biodiesel já é tecnicamente capaz de substituir o diesel fóssil nas termelétricas e oferecer vantagens ambientais e de segurança energética. É uma solução que reduz emissões, diminui a dependência de importações e ainda movimenta a economia local. O potencial existe, o que falta é previsibilidade regulatória.
Para escalar, precisamos de sinalização clara, contratos mais estáveis e um marco regulatório que reconheça formalmente o papel dos biocombustíveis na matriz elétrica. A indústria já está pronta para atender.
O caminhão da Binatural que percorreu alguns estados abastecido 100% com biodiesel demonstrou viabilidade operacional. Que lições esse experimento traz para o transporte pesado no Brasil?
O caminhão próprio da Binatural mostrou, na prática, que a descarbonização do transporte pesado é possível hoje. Foram cerca de 2 mil km movidos exclusivamente a biodiesel (B100), com redução de 99,65% das emissões e desempenho equivalente ao diesel tradicional.
A principal lição é simples: não precisamos esperar novas tecnologias para descarbonizar a logística. O biodiesel brasileiro já está pronto, funciona em operações reais, é competitivo e pode atender desde rotas longas até operações industriais. Esse experimento reforça que o Brasil pode liderar a mobilidade de baixo carbono com soluções nacionais, acessíveis e imediatamente escaláveis.
Quais são os gargalos regulatórios e de infraestrutura que ainda limitam o avanço do biodiesel como solução para outros setores, como mineração e saneamento?
Os principais gargalos estão na previsibilidade regulatória, na ausência de políticas setoriais específicas e na falta de incentivos para adoção em aplicações industriais intensivas. Mas o maior obstáculo é a falta de compreensão, em alguns segmentos, de que o biodiesel já é viável tecnicamente e não é uma tecnologia "em desenvolvimento", e sim uma solução operacional madura.
A Binatural utiliza o coco de piaçava como biomassa como parte do combustível das caldeiras da indústria. Esse tipo de inovação pode escalar nacionalmente ou depende de características regionais específicas?

A inovação com coco de piaçava é um exemplo de como a biomassa pode ser diversificada de acordo com cada região. O modelo é plenamente escalável, mas sempre respeitando a biodiversidade local. Em outras palavras: não se trata de replicar a mesma biomassa em todo o país, e sim de adaptar o conceito, transformar resíduos oriundos de culturas regionais em energia renovável.
O Brasil tem enorme potencial nesse sentido: resíduos agrícolas, fibras, cascas, bagaços e subprodutos agroindustriais podem gerar energia com ótimo custo-benefício, adoção em aplicações industriais intensivas. Mas o maior obstáculo é a falta de compreensão, em alguns segmentos, de que o biodiesel já é viável tecnicamente e não é uma tecnologia "em desenvolvimento", e sim uma solução operacional madura.
Em termos de competitividade, como as inovações da Binatural em biomassa e logística impactam o custo final do biodiesel e sua atratividade no mercado?
Essas inovações reduzem custos operacionais, aumentam a eficiência energética e fortalecem a previsibilidade da cadeia. O uso diversificado de matérias-primas, de biomassa no processo produtivo, logística otimizada e rotas sustentáveis reduzem despesas com combustíveis fósseis, transporte e energia.
O resultado torna o biodiesel um produto mais competitivo, atributo cada vez mais valorizado pelo mercado, pelo setor público e por empresas comprometidas com as metas ESG.
O Brasil já evitou bilhões de reais em importações de diesel fóssil graças ao biodiesel. Você acredita que essa vantagem econômica está sendo devidamente comunicada ao governo e ao setor privado?
Desde 2005, o biodiesel evitou cerca de US$ 38 bilhões em importações de diesel fóssil, além de reduzir mais de 240 milhões de toneladas de CO². Esses números precisam ser amplamente reforçados para que o biodiesel seja visto não apenas como solução ambiental, mas também como uma política econômica estratégica para o país.
O governo e o setor privado já reconhecem parte desses benefícios, mas ainda há espaço para fortalecer essa comunicação e integrá-la às agendas de segurança energética, industrialização verde e desenvolvimento regional.
Com mais de 2 bilhões de litros produzidos desde 2006, qual foi o momento de virada que consolidou a Binatural como referência nacional em biocombustíveis?
O ponto de virada foi a combinação entre inovação, expansão estruturada e compromisso com a diversidade de matérias-primas e a economia circular. A Binatural nasceu com a proposta de transformar resíduos em energia renovável e, ao longo dos anos, consolidou um modelo que integra agricultores familiares, logística sustentável e tecnologia industrial avançada.
A COP30 destacou a necessidade global de investimentos em energias renováveis. Que tipo de política pública poderia acelerar a expansão da capacidade produtiva do biodiesel no país?
Três diretrizes são fundamentais:
- Previsibilidade regulatória, com metas claras e progressivas para misturas mais elevadas, como B20 e B25.
- Incentivos à inovação e infraestrutura, incluindo termelétricas, ferrovias, transporte marítimo e logística pesada.
- Valorização dos resíduos e da agricultura familiar, com programas que ampliem a coleta de óleo de cozinha usado e fortaleçam a produção de matérias-primas sustentáveis. Com essas condições, o Brasil pode dar saltos importantes e se consolidar como líder global em biocombustíveis.
Com essas condições, o Brasil pode dar saltos importantes e se consolidar como líder global em biocombustíveis.
Como você enxerga a pressão global por rastreabilidade ambiental e critérios ESG? O setor de biodiesel está preparado para esse nível de transparência?
Sim, o setor está preparado e, em muitos aspectos, já opera com alto grau de rastreabilidade. O biodiesel brasileiro nasce em um ambiente de forte controle de origem das matérias-primas, integração com agricultura familiar e métricas reconhecidas internacionalmente, como o Selo ISCC que atende a RED III na União Europeia.
Além disso, as demandas ESG reforçam um diferencial que já existe: o biodiesel reduz emissões comparado ao uso de diesel fóssil, promove inclusão social e utiliza resíduos que seriam descartados. Transparência não é uma ameaça, é uma oportunidade para mostrar a solidez da nossa cadeia.
Por fim, qual mensagem você leva da COP30 para o mercado brasileiro: estamos diante de uma oportunidade histórica para o biodiesel ou ainda corremos o risco de perder espaço para combustíveis importados e soluções concorrentes?
Estamos diante de uma oportunidade histórica, mas ela não é garantida. O biodiesel já provou que funciona, que reduz emissões e que gera valor econômico e social. A transição energética global está acelerando e o Brasil pode liderar esse movimento.
No entanto, sem políticas públicas consistentes, previsibilidade regulatória e reconhecimento do papel estratégico dos biocombustíveis, corremos o risco de abrir espaço para combustíveis importados e tecnologias que não valorizam nossa vocação energética.
A mensagem da COP30 é clara: o biodiesel é o combustível do futuro e do agora. A escolha que fizermos nos próximos anos definirá nosso protagonismo na transição energética.

* André Lavor é administrador de Empresas com especialização na Columbia University, Stanford University, FGV e Fundação Dom Cabral. Possui um histórico comprovado de 25 anos liderando empresas de agronegócio e energia no país, sendo considerado um dos mais jovens empresários e empreendedores nesta área de atuação. Liderou projetos ousados, apoiando a indústria brasileira de biodiesel em seus estágios iniciais, desenvolvendo ações de preservação do meio ambiente e fortalecimento da Agricultura Familiar no Brasil, apoiando a transformação da matriz energética brasileira.

