Escassez hídrica exige nova governança e ação integrada, apontam especialistas

SANEAMENTO

Escassez hídrica exige nova governança e ação integrada, apontam especialistas

Debate promovido, em São Paulo, reúne especialistas do setor para discutir desafios da gestão da água, impactos das mudanças climáticas e caminhos para garantir segurança hídrica no Brasil

Saneamento Ambiental 204Páginas 6-15Ver na versão PDF flip

Em um momento em que a água se consolida como um dos temas centrais da agenda ambiental, econômica e social do século XXI, especialistas de diferentes áreas se reuniram em São Paulo para discutir os desafios da escassez hídrica e os caminhos para fortalecer a segurança da água. O encontro, realizado na sede da Enfil e organizado pela Revista Saneamento Ambiental em conjunto com seus conselheiros, integrou as reflexões em torno do Dia Mundial da Água e promoveu um debate qualificado sobre gestão, impactos e soluções diante da crescente pressão sobre os recursos hídricos. 

Logo na abertura das discussões, o moderador Eugênio Singer apresentou um panorama atual da crise hídrica e urbana, ressaltando que o problema não é recente, mas tornou-se mais evidente, complexo e preocupante nas últimas décadas. Segundo ele, um dos aspectos mais marcantes desse cenário é o paradoxo da abundância e da escassez: enquanto algumas regiões enfrentam excesso de água e episódios recorrentes de enchentes, outras convivem com secas prolongadas e dificuldade de acesso à água potável. Esse contraste evidencia, segundo o especialista, a necessidade de repensar a forma como a água é gerida nas cidades e nos territórios.

Singer destacou ainda que a pressão sobre os mananciais urbanos cresce de forma contínua, impulsionada pela expansão desordenada das cidades, pela poluição e pela ausência de gestão integrada e eficiente. Regiões metropolitanas, como a de São Paulo, exemplificam esse desafio: reservatórios urbanos vêm sendo submetidos a pressões cada vez maiores, com impactos diretos na qualidade da água e na capacidade de armazenamento. A esse quadro soma-se o agravamento dos efeitos das mudanças climáticas, que têm tornado eventos extremos – como secas severas e chuvas intensas – mais frequentes, alterando o comportamento tradicional do ciclo hidrológico.

Diante desse cenário, Singer ressaltou que grande parte dos desafios enfrentados hoje não está necessariamente associada à disponibilidade física de água, mas à forma como o recurso é administrado. Para ele, a crise hídrica revela, sobretudo, fragilidades na governança e na gestão dos recursos, exigindo maior integração entre planejamento urbano, políticas ambientais e estratégias de desenvolvimento.

A abertura do evento também contou com a participação do editor da revista, Francisco Alves, que destacou o papel da publicação na difusão de conhecimento técnico e na promoção do diálogo entre especialistas e a sociedade. Segundo ele, o tema da escassez hídrica não é novo no debate promovido pela revista. "Há mais de dez anos realizamos um encontro semelhante com nossos conselheiros. Naquele momento, a conclusão predominante era de que o problema central não estava na falta de água, mas na gestão. A pergunta que se coloca hoje é: será que continuamos enfrentando o mesmo desafio?".

A mediação do debate ficou por Eugênio Singer, que iniciou o encontro apresentando os participantes da mesa e convidando o público a refletir a partir de um vídeo do fotógrafo Erico Hiller. O material sintetiza anos de trabalho do fotógrafo, que entre 2018 e 2025 percorreu diferentes regiões do planeta documentando histórias relacionadas à água – de florestas a desertos, de montanhas a bolsões de vulnerabilidade social. Nas imagens e relatos apresentados, a crise hídrica surge não como um fenômeno isolado, mas como uma realidade global marcada por desigualdades, má gestão e desafios políticos. Países como Brasil, Jordânia, Palestina e Índia aparecem como exemplos de territórios onde a água se tornou símbolo de disputas, fragilidades e, ao mesmo tempo, de esperança. Em uma das reflexões centrais do trabalho, Hiller afirma que "a água é um elo invisível que une a humanidade: não bebemos as mesmas bebidas, não comemos as mesmas comidas, mas todos compartilhamos da mesma água".

A partir dessa provocação inicial, o debate avançou para os desafios concretos enfrentados na gestão da água, especialmente nas grandes regiões metropolitanas. Silvio Leifert chamou atenção para os riscos estruturais relacionados à expansão urbana e à pressão sobre os mananciais. Segundo ele, a crise hídrica vivenciada em 2014 expôs fragilidades importantes na gestão dos recursos e evidenciou que os mananciais urbanos ainda carecem de ações consistentes para garantir sua preservação e capacidade de armazenamento. Ele lembrou que a legislação de proteção de mananciais, criada em 1997, estabeleceu importantes diretrizes, mas que, na prática, muitas delas não conseguiram produzir os efeitos esperados de preservação. Para o especialista, o grande desafio permanece relacionado à estocagem e à garantia de disponibilidade de água no longo prazo.

Legenda da foto mostrando uma reunião em uma sala de conferência
Encontro realizado pela revista Saneamento Ambiental

Samuel Barrêto ampliou a discussão ao destacar a necessidade de atualizar agendas e processos de gestão dos recursos hídricos. Segundo ele, muitos dos instrumentos e estudos que orientaram políticas públicas no passado foram importantes e funcionaram em seu contexto histórico, mas hoje já não respondem adequadamente às novas realidades climáticas, sociais e urbanas. Samuel também ressaltou a importância do trabalho coletivo e da participação feminina na agenda da água, destacando a necessidade de maior articulação entre ciência, sociedade e políticas públicas. Em sua análise, ainda há grandes perdas no sistema hídrico brasileiro, com rios encobertos, recursos subutilizados e ausência de planejamento integrado. Para enfrentar esse cenário, ele defendeu uma abordagem mais abrangente, baseada em comunicação efetiva com a sociedade, construção de agendas colaborativas e adoção de soluções complementares, como soluções baseadas na natureza, integração do ciclo da água e até a relação com geração de energia. O especialista destacou ainda cinco elementos fundamentais para orientar o planejamento hídrico: qualidade da água, população e dinâmica dos habitantes, composição biótica dos ecossistemas, fragmentação ambiental e regime hidrológico. Para ele, no centro desses desafios está uma crise de governança que precisa ser enfrentada.

Mara Ramos trouxe para o debate a perspectiva do setor de saneamento e os desafios associados à universalização dos serviços. Ela destacou que a Sabesp tem avançado em investimentos robustos para ampliar o acesso à água e ao saneamento, especialmente nas áreas mais vulneráveis. Segundo Mara, a empresa atualmente investe cerca de R$ 15 bilhões em infraestrutura e projeta alcançar R$ 79 bilhões em investimentos até 2029, com o objetivo de antecipar a universalização do saneamento. Para ela, a agenda da água não pode ser tratada de forma isolada, pois envolve interfaces diretas com educação, meio ambiente, recursos hídricos e planejamento urbano. Nesse sentido, reforçou que é necessário compreender os diferentes papéis dos stakeholders e estabelecer metas claras para garantir segurança hídrica à população. Entre os caminhos apontados estão a diversificação das fontes de abastecimento, o uso de novas tecnologias e a criação de incentivos regulatórios que permitam ampliar investimentos e fortalecer a resiliência dos sistemas de saneamento.

Franco Tarabin destacou que a indústria também tem papel fundamental nesse processo, especialmente no fortalecimento da gestão dos recursos e na ampliação do reuso da água. Segundo ele, é necessário investir na capacitação tanto de quem produz quanto de quem contrata soluções ambientais, de forma a promover práticas mais eficientes e sustentáveis no uso da água.

Sergio Roberto Rodrigues Ribeiro reforçou a necessidade de ampliar o suporte técnico e tecnológico para enfrentar os desafios do setor, além de investir fortemente em educação ambiental. Para ele, é fundamental ensinar de forma didática e acessível, sobretudo às novas gerações, o valor da água e a importância de sua preservação. Ao mesmo tempo, defendeu maior cobrança sobre setores produtivos e instrumentos econômicos que estimulem práticas responsáveis.

No campo da comunicação, Eduardo Prestes destacou que a gestão de crises hídricas passa necessariamente pelo aperfeiçoamento da comunicação com a sociedade. Segundo ele, é fundamental diferenciar comunicação de risco e comunicação de crise, além de ampliar o acesso à informação de qualidade. Eduardo lembrou que, enquanto o século XX foi marcado pelo petróleo como principal recurso estratégico, o século XXI tende a ser definido pela centralidade da água. Nesse contexto, a comunicação passa a desempenhar papel decisivo para conscientizar a população e fortalecer a cultura de prevenção.

Everton de Oliveira reforçou a importância da educação ambiental como ferramenta estruturante para a construção de uma nova cultura da água. Ele destacou que iniciativas educativas, eventos e ações voltadas às crianças podem contribuir significativamente para ampliar o entendimento da sociedade sobre o tema e estimular comportamentos mais responsáveis no uso dos recursos hídricos.

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Ao sintetizar as discussões iniciais, Eugênio Singer destacou que os desafios relacionados à água no Brasil passam simultaneamente por questões de escassez, abundância, gestão de recursos, educação e governança. Para ele, compreender a água no país exige uma mudança cultural e institucional que permita integrar conhecimento técnico, planejamento e participação social.

Durante o debate, também foram discutidas as dificuldades relacionadas ao reuso da água. Mara Ramos explicou que, embora o reuso seja uma alternativa importante, sua implementação ainda enfrenta desafios econômicos e regulatórios. Segundo ela, sistemas de reuso só se tornam viáveis quando há consumidores firmes e quando o custo da água tratada consegue competir com o da água potável. Além disso, destacou que ainda faltam incentivos regulatórios e políticas públicas mais consistentes para ampliar essa prática. Nesse contexto, mencionou iniciativas como a Estação de Tratamento de Esgoto de Suzano, que abriga o primeiro projeto de reuso direto da Sabesp.

Samuel Barrêto voltou a enfatizar que o fortalecimento da governança é essencial para avançar na gestão dos recursos hídricos. Segundo ele, é necessário aprimorar protocolos institucionais, fortalecer a capacidade do Estado e construir consensos entre diferentes atores. Também defendeu a recuperação do papel dos comitês de bacias hidrográficas como espaços estratégicos de articulação e planejamento, destacando inclusive desafios regionais relacionados à gestão compartilhada de recursos entre estados.

Silvio Leifert reforçou a necessidade de planejamento de longo prazo para garantir o equilíbrio entre preservação ambiental e abastecimento da população. Para ele, o saneamento não cria água, mas depende diretamente da gestão dos recursos hídricos, que envolve diferentes níveis de responsabilidade e institucional. No caso de São Paulo, citou o papel da SP Águas na gestão estadual e a complexidade adicional associada a rios de domínio federal. Segundo Silvio, o setor de saneamento precisa desenvolver uma visão estratégica clara sobre para onde avançar e como garantir segurança hídrica nas próximas décadas.

Everton de Oliveira destacou ainda as dificuldades operacionais relacionadas ao monitoramento hidrológico, incluindo a obtenção de dados confiáveis, problemas na certificação de coletas e até o roubo de sensores utilizados em sistemas de monitoramento. Esses desafios, segundo ele, dificultam a geração de informações consistentes para orientar decisões e políticas públicas.

No campo das soluções, os especialistas discutiram alternativas baseadas em infraestrutura verde e no fortalecimento da gestão integrada da água como caminhos para evitar crises de abastecimento. Mara Ramos ressaltou que o tratamento de reuso pode se beneficiar da capacidade de diluição e recuperação dos próprios rios quando bem gerenciados, reforçando a importância de uma visão integrada dos recursos hídricos. Segundo ela, a estratégia da Sabesp inclui diversificar a matriz hídrica, fortalecer o planejamento e estabelecer nos contratos de saneamento mecanismos que estimulem resiliência hídrica e ampliação do reuso.

Samuel Barrêto também destacou a necessidade de avançar na recuperação de rios degradados e superar classificações como a classe 4, que indica forte comprometimento ambiental. Para ele, investir em saneamento representa também investimento em saúde pública, já que a ausência de infraestrutura adequada acaba gerando custos sociais e hospitalares elevados.

Cabeçalho da seção em azul
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Eduardo Prestes retomou a importância da governança e da comunicação, sugerindo uma abordagem estruturada em três níveis: comunicação local, envolvendo prefeituras e comunidades; comunicação regional, articulada por meio dos comitês de bacia; e comunicação nacional, liderada por agências reguladoras e instituições federais, sempre com foco em segurança hídrica e adaptação às mudanças climáticas.

Ao projetar o futuro, Silvio Leifert alertou que os próximos dez anos serão decisivos para a gestão da água no Brasil. Segundo ele, a articulação entre políticas nacionais e estaduais precisará avançar rapidamente para evitar riscos mais graves de desabastecimento. Para isso, será essencial investir na preservação dos mananciais, na recuperação de áreas degradadas e na valorização da água como recurso econômico e ambiental estratégico para as próximas gerações.

Franco Tarabin destacou que a segurança hídrica também deve ser pensada a partir da disponibilidade de água por habitante e da capacidade das cidades de garantir abastecimento adequado à população. Já Sergio Ribeiro lembrou que o Brasil possui grande potencial de atrair investimentos internacionais na área de água e saneamento, mas que esse movimento depende de um esforço consistente em educação ambiental e na formação de profissionais qualificados para atuar no setor.

Ao final do encontro, ressaltaram que enfrentar a escassez hídrica exige uma abordagem integrada, que combine inovação tecnológica, políticas públicas consistentes, governança eficiente, comunicação transparente e participação ativa da sociedade. Em um cenário de mudanças climáticas e crescente pressão sobre os recursos naturais, garantir segurança hídrica deixa de ser apenas um desafio ambiental e passa a representar uma condição essencial para o desenvolvimento sustentável do país.

Debatedores

Silvio Leifert
Engenheiro civil e CEO da Sygha Consultoria e Engenharia Ltda. Possui ampla trajetória na SABESP, onde atuou por mais de quatro décadas em projetos estratégicos de água e esgoto, incluindo o Projeto Tietê, o Sistema Produtor São Lourenço e programas metropolitanos de abastecimento. Especialista em concessões e parcerias público-privadas, também atua como professor da Fundação Vanzolini e organizador de publicações sobre gestão e infraestrutura.

José Eduardo Prestes Alves
Engenheiro químico pela FEI e mestre em Comunicação pela Faculdade Cásper Líbero, é fundador da Crisis Solutions, consultoria especializada em gerenciamento e comunicação de crises. Possui certificações em governança corporativa e gestão de desastres naturais pelo Banco Mundial, além de atuar como professor convidado da FGV/IBRE e da ESPM.

Everton de Oliveira
Hidrogeólogo com doutorado pela University of Waterloo (Canadá), é fundador do Instituto Água Sustentável e reconhecido educador ambiental. Atua em governança hídrica, regeneração de ecossistemas e comunicação sobre escassez e segurança hídrica. Criador do personagem Professor Água e do evento WaterRegen Summit, dedica-se à educação e ao advocacy global em recursos hídricos.

Samuel Barrêto
Biólogo pela UNESP e mestre em Sustentabilidade pela FIA Business School, possui mais de duas décadas de atuação em segurança hídrica e governança ambiental. É pesquisador associado do Observatório das Águas e já ocupou posições estratégicas em organizações como WWF-Brasil, The Nature Conservancy e Fundação SOS Mata Atlântica.

Franco Tarabin
Engenheiro químico e CEO da Enfil, é sócio-fundador da empresa e lidera sua estratégia e governança desde 1994. Com mais de 40 anos de experiência em engenharia ambiental, destaca-se na implementação de soluções em saneamento, tratamento de água, efluentes e controle de poluição atmosférica.

Mara Ramos
Engenheira civil e mestre em gestão de recursos hídricos, possui mais de 30 anos de experiência no setor de saneamento. Atualmente é Gerente Executiva de Segurança e Resiliência Hídrica da SABESP e docente do MBA em Saneamento Ambiental da FESP-SP. Participa de diversos conselhos e iniciativas internacionais voltadas à governança da água.

Eugenio Singer
Engenheiro civil pela Unicamp, com doutorado em Engenharia Ambiental e de Recursos Hídricos pela Universidade de Vanderbilt (EUA). Com cinco décadas de atuação na área socioambiental, foi executivo em importantes empresas de consultoria ambiental e atualmente atua como consultor estratégico, além de presidir o Instituto Pharos e a Escola de Sustentabilidade da Mantiqueira.

Sergio Roberto Rodrigues Ribeiro
Engenheiro químico pela Unicamp e MBA pela Fundação Dom Cabral. Possui mais de 30 anos de experiência no mercado de tecnologias de membranas filtrantes e participou de projetos emblemáticos no Brasil, como a fábrica de água de reuso Aquapolo e a estação de tratamento de água da SABESP na Região Metropolitana de São Paulo. Atualmente é diretor comercial na empresa holandesa Haskoning.

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