Universalização do saneamento e impactos sociais

SANEAMENTO

ESG no Saneamento: tendência ou obrigação?

Por Simone Fernandes Colnago (*) e Cássia Yoko Gomi (**)

Saneamento Ambiental 204Páginas 34-38Ver na versão PDF flip

O saneamento básico é amplamente reconhecido por gerar um ciclo virtuoso na vida das pessoas e no desenvolvimento das cidades. Quanto maiores os investimentos em abastecimento de água, coleta de resíduos e tratamento de esgoto, maiores serão os benefícios sociais, ambientais e econômicos para a sociedade.

A ampliação desses serviços contribui diretamente para a melhoria da saúde pública, reduzindo a incidência de doenças de veiculação hídrica e, consequentemente, a pressão sobre os sistemas de saúde. Além disso, promove a valorização imobiliária, fortalece o desenvolvimento urbano e contribui para a preservação ambiental, ao reduzir a poluição de rios, lagos e solos.

Quanto à gestão eficiente de resíduos sólidos, as ações de sanea- mento devem focar na chamada economia circular, na qual os resíduos deixam de ser vistos como lixo descartável e passam a ser considerados recursos que podem retornar ao ciclo produtivo. É necessária uma ação coordenada das empresas do setor com a sociedade. Investir em mudanças de hábitos de consumo: consumir de forma consciente, utilizar apenas o necessário, combater o desperdício, prolongar a vida útil e reduzir a obsolescência dos produtos são atitudes fundamentais para reduzir a geração de resíduos e tornar as cidades mais sustentáveis.

As ações do setor estão intrinsecamente ligadas aos pilares ESG, porque suas atividades impactam diretamente:

Ambiental (E)

• tratamento de água e esgoto

• redução da poluição hídrica

• eficiência energética e redução de perdas de água

• Gestão e destinação adequada de lodo de estações de tratamento

• Redução de emissões de gases de efeito estufa nas operações

• Proteção de mananciais e áreas de recarga hídrica

• Adaptação às mudanças climáticas e gestão de riscos hídricos

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Social (S)

• Universalização acesso à água potável

• saúde pública

• melhoria de qualidade de vida das comunidades

• Programas de educação ambiental e uso consciente da água

• Inclusão social e atendimento a comunidades vulneráveis

• Segurança e saúde ocupacional dos trabalhadores

• Programas de relacionamento com comunidades locais

• Tarifas sociais e políticas de acesso para populações de baixa renda

• Participação social em projetos de saneamento

Governança (G)

• regulação forte

• transparência em contratos e concessões

• compliance e integridade em empresas públicas e privadas

• Gestão de riscos operacionais e

• Políticas anticorrupção e código de ética

• Planejamento estratégico de longo prazo para universalização do saneamento

• Indicadores de desempenho e relatórios de sustentabilidade

• Participação do conselho e diversidade na liderança

Pesquisas acadêmicas e institucionais mostram que as empresas de saneamento estão cada vez mais incorporando métricas ESG em sua gestão e relatórios. No setor de saneamento, os três pilares ESG estão fortemente conectados ao cumprimento das metas estabelecidas pelo Novo Marco Legal do Saneamento, que prevê a ampliação do acesso à água e esgoto até 2033.

Um estudo que analisou empresas do setor de saneamento listadas na bolsa brasileira aponta que o avanço da agenda ESG tem sido fortemente impulsionado pela pressão de investidores e do mercado financeiro, que passaram a incorporar indicadores ambientais, sociais e de governança na avaliação de desempenho e na tomada de decisão de investimento. Esse movimento tem levado as empresas a ampliar a transparência, a divulgação de relatórios de sustentabilidade e a adoção de métricas alinhadas a padrões internacionais, como os indicadores da Global Reporting Initiative - GRI, visando aumentar a atratividade para investidores e fortalecer sua reputação no mercado.

Um dos pontos fortes relacionados ao setor é a crise climática que se configura como um dos temas materiais mais relevantes para o setor de saneamento, uma vez que eventos climáticos extremos, como chuvas intensas, enchentes e períodos prolongados de estiagem, podem impactar diretamente a disponibilidade de recursos hídricos, a integridade das infraestruturas e a continuidade dos serviços de abastecimento de água e tratamento de esgoto.

Diante desse cenário, torna-se essencial que as empresas incorporem em sua gestão uma estratégia climática estruturada, com diretrizes e planos de ação voltados à adaptação e à resiliência operacional. Essas estratégias devem considerar a gestão sustentável dos recursos hídricos, o fortalecimento das infraestruturas, o monitoramento de riscos climáticos e o desenvolvimento de soluções que permitam mitigar os impactos decorrentes das mudanças climáticas.

Ao integrar a variável climática ao planejamento estratégico e à gestão de riscos, as companhias de saneamento contribuem não apenas para a continuidade e segurança dos serviços prestados, mas também para a construção de sistemas urbanos mais resilientes e sustentáveis.

Várias empresas do setor possuem os Relatórios de Sustentabilidade e estruturaram programas robustos voltados para os temas centrais. Esses casos mostram que o tema já está integrado à estratégia corporativa e à captação de investimentos, mas o nível de maturidade ainda é desigual.

Estudos indicam que:

• Grandes empresas e concessionárias privadas costumam ter estratégias ESG estruturadas e relatórios públicos;

• Empresas regionais ou menores ainda apresentam baixo nível de divulgação e gestão formal de ESG. Ou seja, o setor apresenta estágios distintos de evolução, com empresas que já incorporaram práticas ESG de forma estruturada e outras que ainda avançam na implementação dessas diretrizes.

Diante do exposto, observa-se que a agenda ESG tem se consolidado como um elemento estratégico para empresas do setor de saneamento. A crescente pressão de investidores, instituições financeiras e demais stakeholders por maior transparência, gestão de riscos e avaliação dos impactos materiais; especialmente aqueles capazes de afetar o desempenho econômico e financeiro das organizações; tem impulsionado a adoção de práticas mais estruturadas de sustentabilidade corporativa.

Nesse contexto, a incorporação de diretrizes e métricas alinhadas a padrões internacionais, como os propostos pela Global Reporting Initiative - GRI, pela Task Force on Climate-related Financial Disclosures - TCFD e pelo Sustainability Accounting Standards Board - SASB, torna-se cada vez mais relevante para orientar a gestão de riscos, ampliar a transparência e fortalecer a confiança dos investidores.

Dessa forma, o setor tende a avançar continuamente na integração dos princípios ambientais, sociais e de governança às suas estratégias e operações. A tendência é que as exigências relacionadas à divulgação de informações, gestão de impactos e monitoramento de desempenho ESG se tornem progressivamente mais rigorosas, consolidando essas práticas não apenas como um diferencial competitivo, mas como um requisito fundamental para a sustentabilidade financeira e a perenidade das empresas no longo prazo.

A incorporação dos princípios ESG se consolidar como uma condição inerente à própria atividade. As organizações são chamadas a adotar práticas responsáveis que envolvam a gestão eficiente dos recursos hídricos, a redução de perdas, o tratamento adequado de efluentes, a proteção de mananciais, a transparência na divulgação de dados e indicadores, além do fortalecimento de estruturas de governança, integridade e gestão de riscos. Nesse contexto, o alinhamento às diretrizes estabelecidas pelo Novo Marco Legal do Saneamento reforça a necessidade de planejamento de longo prazo, investimentos responsáveis e compromisso efetivo com a universalização dos serviços, consolidando o ESG como um elemento indispensável para a credibilidade institucional e a sustentabilidade das operações no setor.

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Simone Fernandes Colnago (*) 
Profissional especializada em ESG pela PUC Campinas. Especialista em geoprocessamento. Gestora Ambiental. Possui certificação GRI. Multiplicadora Sistema B. Consultora de Sustentabilidade da empresa CORE.S

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Cássia Yoko Gomi (**)
Qualificada em sustentabilidade pela CBRR. Especialista em ESG pela PUC Campinas. Consultora especialista em ESG pela Mão Ambiental. Geóloga graduada pela UNESP e Mestra pela UNICAMP. Membro da Comissão ESG do WIM Brasil e SINDAREIA. Consultora de Sustentabilidade da empresa CORE.S

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