O saneamento ambiental brasileiro atravessa um momento decisivo, marcado por uma convergência entre inovação tecnológica, avanços regulatórios e crescente demanda por soluções sustentáveis. Esse novo cenário tem impulsionado uma transformação estrutural no setor, na qual a tecnologia deixa de ocupar um papel periférico e passa a ser elemento central para a eficiência operacional, a segurança hídrica e a melhoria da qualidade de vida da população.
A engenheira ambiental e urbana e gerente de Projetos da IFAT Brasil, Marina Roque, avalia que o país avança de forma consistente rumo à modernização, ainda que em ritmos distintos entre regiões e segmentos.
A evolução tecnológica no setor se manifesta de maneira mais evidente em segmentos como o industrial, onde já se observa maior maturidade, sobretudo na adoção de sistemas de tratamento e reuso de água. Em um cenário de intensificação das crises hídricas e de maior pressão sobre os recursos naturais, a resiliência hídrica torna-se pauta central, impulsionando soluções que buscam garantir a continuidade das operações e reduzir riscos de desabastecimento. No âmbito urbano, especialmente nas grandes cidades, os investimentos têm se concentrado na melhoria dos sistemas de captação e, sobretudo, na redução de perdas de água, um dos principais gargalos do saneamento brasileiro. Tecnologias como sensores inteligentes, algoritmos preditivos e ferramentas de inteligência artificial vêm sendo incorporadas às redes de distribuição, permitindo identificar vazamentos com maior precisão, reduzir desperdícios e otimizar custos operacionais.
Essa transformação está diretamente associada à consolidação de um setor cada vez mais orientado por dados. O monitoramento em tempo real, que já é uma realidade, evoluiu rapidamente com o uso de sensores mais avançados e sistemas de análise capazes de processar grandes volumes de informação em alta velocidade. Como destaca Marina, "a máxima de que 'sem dados não há gestão' nunca foi tão evidente", sintetizando a centralidade que a inteligência de dados passou a ocupar na tomada de decisão. Ao mesmo tempo, ferramentas como drones e sensoriamento remoto ampliam a capacidade de monitoramento de mananciais, contribuindo para a proteção dos recursos hídricos e para a prevenção de riscos ambientais.
Entretanto, apesar dos avanços tecnológicos, a consolidação de uma cultura verdadeiramente orientada por dados ainda enfrenta desafios estruturais. A qualidade, a padronização e a confiabilidade das informações disponíveis são fatores críticos, especialmente em um contexto em que parte significativa dos dados ainda é autodeclarada pelas prestadoras de serviços. Embora sistemas como o SINISA representem um avanço importante na transparência e no planejamento do setor, ainda há lacunas relevantes, como a ausência de planos municipais de saneamento em parcela significativa dos municípios e a insuficiência de dados completos em áreas como o esgotamento sanitário.

A consolidação da economia circular no saneamento ambiental reflete uma mudança de paradigma diante dos limites de regeneração do planeta, exigindo uma visão integrada e contínua do uso dos recursos. Nesse contexto, o reuso de água se destaca como uma das soluções mais maduras e viáveis tecnicamente no Brasil, já amplamente adotada no setor industrial, tanto por meio de estações próprias quanto em polos de produção de água de reuso para fins específicos. Amparado por avanços normativos – como a regulamentação da ABNT para sistemas em edificações – e por um robusto conjunto de estudos e experiências práticas, o reuso ganha relevância estratégica na promoção da resiliência hídrica, reduzindo riscos operacionais em um cenário de crescente escassez. Paralelamente, tecnologias como Minimal Liquid Discharge (MLD) e Zero Liquid Discharge (ZLD) emergem como tendências para a redução ou eliminação de efluentes, ainda que com desafios de custo. No ambiente urbano, a adoção de sistemas de reuso para fins não potáveis avança em empreendimentos comerciais e logísticos, indicando uma tendência de expansão. Embora o reuso potável ainda enfrente resistência social, já existem soluções tecnológicas consolidadas em escala internacional, reforçando que, mais do que um custo adicional, a economia circular deve ser compreendida como um investimento em segurança operacional, sustentabilidade e continuidade das atividades econômicas.
A incorporação dessas tecnologias também se revela estratégica para o alcance das metas de universalização do saneamento, especialmente em um país marcado por desigualdades regionais. Nesse contexto, inovar não significa apenas adotar soluções de alta complexidade, mas compreender as especificidades locais e implementar alternativas adequadas a diferentes realidades, como sistemas descentralizados e soluções comunitárias.
Segundo Marina, do ponto de vista regulatório, o Brasil avançou ao estabelecer um ambiente mais estruturado e atrativo para investimentos, embora ainda enfrente desafios relacionados à harmonização entre diferentes entes reguladores. Esse cenário se conecta diretamente à crescente valorização de critérios ESG, que têm influenciado as decisões de investimento e ampliado a relevância de soluções tecnológicas capazes de aumentar a eficiência, reduzir riscos e garantir maior resiliência operacional.
"A tecnologia deixa de ser apenas um fator de redução de custos e passa a ser um elemento estratégico para a continuidade dos negócios".

Apesar de todos os avanços, ela reforça que a transformação do saneamento não se sustenta apenas na tecnologia. O capital humano permanece no centro desse processo, sendo responsável por interpretar dados, tomar decisões e garantir a segurança das operações. Nesse sentido, o setor enfrenta o desafio de atrair e reter profissionais qualificados, superando lacunas históricas e acompanhando o ritmo das mudanças.
A IFAT Brasil desempenha um papel estratégico ao posicionar o país no centro das discussões globais sobre tecnologias ambientais, conectando empresas, especialistas e gestores públicos às soluções mais avançadas já implementadas em outros mercados. Integrada à rede internacional IFAT worldwide, presente em diversos países, a iniciativa funciona como uma plataforma de intercâmbio técnico e antecipação de tendências, permitindo que o Brasil acelere a incorporação de modelos mais eficientes de gestão e inovação. Entre os principais movimentos que devem impactar o setor nos próximos anos, destaca-se a digitalização do saneamento, com a ampliação do uso de medidores inteligentes, sensores distribuídos e sistemas de análise de dados que, aliados à inteligência artificial, tornam possível monitorar redes em tempo real, identificar padrões de consumo e detectar vazamentos com maior precisão. Ao mesmo tempo, avança o interesse por soluções de valorização energética de resíduos, especialmente a partir do aproveitamento de biogás e metano gerados em aterros, contribuindo para a geração de energia e a redução de emissões.
"Tendências como waste-to-energy e hidrogênio verde também começam a ganhar espaço no debate nacional, indicando novas oportunidades alinhadas à transição energética e à economia circular. No campo da água, o reuso se consolida como uma prática cada vez mais relevante, reforçando seu potencial para ampliar a segurança hídrica e otimizar o uso dos recursos, mesmo diante de desafios culturais ainda presentes em algumas aplicações", ressalta Marina.
Por fim, os impactos dessa transformação extrapolam o campo operacional e alcançam diretamente a saúde pública, a qualidade ambiental e a resiliência das cidades frente às mudanças climáticas. A ampliação do acesso ao saneamento, aliada ao uso de tecnologias mais eficientes, contribui para reduzir doenças, prevenir contaminações e mitigar os efeitos de eventos extremos. Assim, a inovação tecnológica se consolida como uma aliada indispensável, desde que integrada a políticas públicas, planejamento urbano e gestão eficiente, para que seus benefícios se traduzam, de fato, em qualidade de vida e dignidade para a população brasileira.

