Com formação em engenharia civil e experiência na gestão de serviços públicos de saneamento, Luana Siewert Pretto analisa o cenário brasileiro a partir de dados e evidências que revelam um contraste persistente: a disponibilidade hídrica não se traduz, necessariamente, em acesso universal à água tratada. À frente do Instituto Trata Brasil, ela aponta que entraves históricos, como a baixa priorização do setor, as perdas nos sistemas de distribuição e as desigualdades regionais, ainda limitam avanços mais consistentes. Na avaliação da especialista, a ampliação do acesso ao saneamento está diretamente relacionada a ganhos em saúde pública, produtividade e desenvolvimento econômico, além de exigir maior integração entre gestão de recursos hídricos e planejamento urbano. Nesse contexto, destaca também a importância de dados qualificados e de um ambiente regulatório eficaz para orientar decisões e viabilizar a universalização dos serviços no país.
Revista Saneamento Ambiental: O Brasil convive simultaneamente com abundância hídrica e insegurança no acesso à água tratada. Quais são os principais entraves institucionais e estruturais que explicam esse paradoxo?
Luana Pretto: Historicamente, o saneamento ficou em segundo plano na agenda pública, sem receber a priorização que merece. São mais de 30 milhões de brasileiros sem acesso à água potável e 39,5% da água tratada é perdida nos sistemas de distribuição antes de chegar às residências da população. Superar esse paradoxo exige reconhecer que o acesso pleno ao saneamento significa ter mais água disponível e com qualidade para a população. Sem enfrentar as perdas e a precariedade estrutural nos sistemas de distribuição continuaremos desperdiçando um recurso que é, ao mesmo tempo, abundante e escasso para quem mais precisa.
Revista Saneamento Ambiental: De que forma a ausência de saneamento básico compromete o valor econômico da água e impacta indicadores como saúde pública, produtividade e desenvolvimento regional?
Luana Pretto: A água é um bem essencial à vida, mas seu valor só se realiza quando acompanhada pelo acesso pleno ao saneamento. Sem coleta e tratamento de esgoto, vemos o aumento de doenças de veiculação hídrica (como diarreias, hepatite A e leptospirose), sobrecarregando o sistema de saúde e reduzindo a qualidade de vida da população. Um estudo do Instituto Trata Brasil mostra que cada R$ 1 investido em saneamento gera até R$ 4 em retorno econômico e social. Estamos falando de mais saúde, mais produtividade no trabalho, valorização de imóveis, melhor desempenho educacional e crescimento econômico nas cidades.
Revista Saneamento Ambiental: Em sua avaliação, o atual ambiente regulatório brasileiro oferece segurança suficiente para atrair investimentos capazes de garantir a universalização do acesso à água e ao esgotamento sanitário?

Luana Pretto: O Marco Legal do Saneamento, aprovado em 2020, representou um avanço importante para o setor, ao estabelecer metas de universalização até 2033 e criar um ambiente mais atrativo para investimentos. Um estudo do Instituto Trata Brasil, lançado em 2025, aponta que 1.557 municípios foram mobilizados e R$ 370 bilhões em investimentos já foram contratados. No entanto, ainda há desafios: municípios menores e regiões mais vulneráveis seguem com maiores dificuldades no acesso aos serviços básicos, muitos deles localizados no Norte e no Nordeste do país, regiões que historicamente mais sofrem com a ausência de saneamento. No cenário da universalização, o fortalecimento das agências reguladoras infranacionais é essencial para que possam atuar de forma técnica e independente, garantindo que os avanços do Marco se traduzam em serviços de qualidade para a população. O Marco foi fundamental, mas sua implementação plena exige continuidade no planejamento, regulação eficiente e aumento no volume de investimentos.
Revista Saneamento Ambiental: Como integrar gestão de recursos hídricos e planejamento do saneamento de maneira mais eficiente, considerando os desafios climáticos e o crescimento urbano desordenado?
Luana Pretto: A integração entre gestão hídrica e saneamento precisa ser tratada como prioridade na agenda pública. As mudanças climáticas, com eventos extremos cada vez mais frequentes (como ondas de calor, secas e enchentes), e o crescimento urbano desordenado tornam esse desafio ainda mais urgente. A redução de perdas de água e a universalização do saneamento são fundamentais para construir um país mais resiliente e preparado para o futuro.
Revista Saneamento Ambiental: O protagonismo feminino no setor de saneamento tem avançado nos últimos anos. Quais barreiras ainda persistem para que mulheres ocupem espaços estratégicos de decisão na gestão da água?
Luana Pretto: Falar de saneamento também é falar sobre o impacto direto na vida das mulheres. Temos atuado em estudos e projetos e acompanhado de perto o crescimento da presença feminina na área. Precisamos de mais mulheres ocupando espaços de liderança para fortalecer a representatividade e ampliar perspectivas em um campo fundamental para o desenvolvimento do país. A universalização do saneamento ultrapassa o campo técnico e se conecta diretamente com justiça social, dignidade e igualdade de oportunidades. Por isso, é fundamental seguir avançando com compromisso coletivo, valorizando a diversidade e mobilizando toda a sociedade em torno dessa causa.
Revista Saneamento Ambiental: O Trata Brasil tem papel relevante na produção de dados e no monitoramento de indicadores. Qual a importância da informação qualificada para transformar a água em prioridade permanente na agenda pública?
Luana Pretto: Dados qualificados são a base para a elaboração e condução de uma política pública eficaz. O Instituto Trata Brasil tem cumprido um papel importante ao produzir rankings, relatórios e estudos que traduzem a realidade do saneamento brasileiro em linguagem acessível para a sociedade e para os tomadores de decisão. Ao mostrar, de forma concreta, o quanto avançamos e o quanto ainda falta avançar, conseguimos mobilizar gestores, agentes do setor e a população em torno do tema. A partir da informação, mantemos o tema vivo, urgente e orientado para resultados.
Revista Saneamento Ambiental: Considerando os desafios econômicos, ambientais e sociais do Brasil, qual é a mensagem central que você defende sobre a água como ativo estratégico indispensável ao futuro do Brasil?
Luana Pretto: Água é vida, e saneamento é saúde, é educação, é desenvolvimento. Não existe futuro sustentável para o Brasil sem que cada cidadão tenha acesso garantido à água tratada e ao esgotamento sanitário. A água precisa ser reconhecida como o ativo estratégico que é: não apenas um recurso natural, mas um elemento central para a dignidade, a saúde pública e para o desenvolvimento econômico e social do país. Precisamos de investimentos consistentes, políticas de longo prazo e, sobretudo, da convicção coletiva de que saneamento universal não é um luxo: é um direito.

