Ranking do Saneamento 2026 mostra contraste entre eficiência e atraso no país

SANEAMENTO

Ranking do Saneamento 2026 mostra contraste entre eficiência e atraso no país

Estudo aponta avanços em municípios mais estruturados e reforça a urgência de ampliar investimentos para universalização até 2033

Saneamento Ambiental 204Páginas 16-19Ver na versão PDF flip

A 18ª edição do Ranking do Saneamento, publicada pelo Instituto Trata Brasil em parceria com a GO Associados, lança sobre um dos maiores desafios estruturais do país: a universalização do acesso à água e ao esgotamento sanitário. Com base nos dados mais recentes do Sistema Nacional de In- formações em Saneamento Básico (SINISA), ano-base 2024, divulgados pelo Ministério das Cidades, o estudo analisa os 100 municípios mais populosos do Brasil e revela um cenário de avanços relevantes, porém ainda marcado por profundas disparidades regionais e insuficiência de investimentos.

Apesar da evolução em determinados indicadores, o déficit de saneamento permanece expressivo. Mais de 30 milhões de brasileiros ainda não têm acesso à água potável, enquanto cerca de 90 milhões – o equivalente a 43,3% da população – vivem sem coleta de esgoto. Esse quadro impacta diretamente a saúde pública, a produtividade econômica, a valorização imobiliária e o desenvolvimento social, reforçando o caráter estratégico do saneamento para o país.

Liderança paulista

No topo do Ranking de 2026, quatro municípios paulistas – Franca, São José do Rio Preto, Campinas e Santos – alcançaram, pela primeira vez na série histórica, a pontuação máxima. O resultado reflete não apenas a universalização dos serviços de abastecimento de água e esgotamento sanitário, conforme as metas do Marco Legal do Saneamento Básico, mas também elevados níveis de eficiência operacional, com índices de perdas dentro dos parâmetros estabelecidos pela Portaria nº 490/2021.

Entre os 20 municípios mais bem colocados, há predominância das regiões Sudeste e Sul, com destaque para São Paulo e Paraná, evidenciando a relação entre capacidade de investimento, qualidade da gestão e desempenho nos indicadores.

Desigualdades regionais

Na outra ponta do Ranking, os 20 municípios com pior desempenho concentram-se majoritariamente nas regiões Norte e Nordeste. Capitais como Maceió, Manaus, São Luís, Belém, Rio Branco, Macapá e Porto Velho figuram entre as últimas posições, revelando déficits críticos, sobretudo em coleta e tratamento de esgoto.

Os dados mostram que a universalização do abastecimento de água ainda é mais avançada que os serviços de esgotamento sanitário. Enquanto 28 municípios já atingiram níveis considerados universalizados no acesso à água, apenas três alcançaram 100% de cobertura na coleta de esgoto. Em casos extremos, como Santarém (PA), o índice de coleta é de apenas 3,28%.

O tratamento de esgoto também segue como um dos principais gargalos: a média entre os 100 maiores municípios é de 64,42%, ainda distante das metas de universalização. Em algumas cidades, menos de 10% do esgoto gerado é tratado.

Investimentos insuficientes

A análise do Ranking evidencia uma correlação direta entre o volume de investimentos e a qualidade dos serviços. O investimento médio nos municípios analisados foi de R$ 135,89 por habitante em 2024, valor significativamente inferior aos R$ 225 por habitante estimados pelo Plano Nacional de Saneamento Básico (PLANSAB) como necessários para a universalização até 2033.

Mais da metade dos municípios investe menos de R$ 100 por habitante, enquanto apenas uma pequena parcela supera o patamar considerado ideal. A disparidade é evidente: enquanto cidades mais bem posicionadas já apresentam indicadores próximos da universalização, municípios com menor investimento permanecem estagnados ou evoluem lentamente.

Essa diferença se reflete diretamente nos resultados. Nos 20 melhores municípios, o atendimento de água chega a 99,05%, contra 83,01% nos 20 piores. Na coleta de esgoto, a discrepância é ainda mais acentuada: 98,08% contra 28,06%. Já no tratamento, os índices são de 77,97% e 28,36%, respectivamente.

Ilustração conceitual sobre investimentos em saneamento

Movimentações no Ranking

O levantamento também destaca municípios que apresentaram evolução significativa. Teresina (PI) foi o destaque positivo, com avanço de 14 posições, impulsionado pela ampliação do atendimento de esgoto e redução de perdas. Guarulhos (SP), Juiz de Fora (MG) e Betim (MG) também registraram melhorias expressivas.

Por outro lado, algumas cidades apresentaram quedas relevantes. Porto Alegre (RS) e João Pessoa (PB) recuaram 14 posições, refletindo piora nos indicadores de atendimento e aumento das perdas. Santo André (SP) e Piracicaba (SP) também registraram desempenho inferior, especialmente em função da redução de investimentos.

Entre as capitais brasileiras, o cenário é heterogêneo. Apenas cinco possuem cobertura de água próxima da universalização, enquanto em cidades da região Norte os índices ainda são inferiores a 50%. No esgotamento sanitário, apenas sete capitais superam 90% de cobertura, e os desafios se intensificam no tratamento de esgoto, com poucas cidades atingindo níveis satisfatórios.

Saneamento como vetor de desenvolvimento

O Ranking do Saneamento 2026 reforça que o avanço do setor depende, fundamentalmente, da ampliação dos investimentos, do fortalecimento institucional e da melhoria da regulação. Mais do que infraestrutura, o saneamento básico é um vetor essencial para a promoção da saúde pública, da educação e da produtividade econômica.

Diante das metas estabelecidas pelo Marco Legal do Saneamento Básico, que prevê a universalização até 2033, o país enfrenta o desafio de acelerar o ritmo de investimentos e reduzir desigualdades históricas. O diagnóstico é claro: onde há investimento consistente e gestão eficiente, os resultados aparecem. Onde faltam recursos e planejamento, persistem os déficits – e, com eles, os impactos sociais e econômicos que limitam o desenvolvimento do Brasil.

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