Risco climático no Brasil: por que desastres vão além do clima

SANEAMENTO

Risco climático no Brasil: por que desastres vão além do clima

A interação entre eventos extremos, ocupação urbana e desigualdade social amplia impactos e desafia políticas públicas

Saneamento Ambiental 204Páginas 26-29Ver na versão PDF flip

A intensificação dos eventos climáticos extremos tem imposto novos desafios à gestão de recursos hídricos no Brasil, exigindo respostas cada vez mais técnicas, integradas e orientadas por dados. Secas prolongadas, chuvas intensas e eventos hidrológicos severos vêm se tornando mais frequentes, pressionando sistemas de abastecimento e ampliando os riscos em áreas urbanas densamente ocupadas.

Nesse contexto, a produção e a interpretação de informações hidrometeorológicas passam a desempenhar papel estratégico na antecipação de cenários críticos. De acordo com o tecnologista e diretor substituto do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais, Pedro Camarinha, a avaliação da intensificação e recorrência dos eventos extremos no país está diretamente associada à consolidação de bases de dados consistentes e ao avanço das pesquisas climáticas.

"O Cemaden é um dos atores que contribuem para a geração de evidências sobre as mudanças climáticas no Brasil. Operamos uma ampla rede observacional de chuvas em tempo real, com séries históricas que, em algumas localidades, já ultrapassam 15 anos, o que permite identificar mudanças de tendência e o aumento da frequência e intensidade desses eventos", afirma.

Esses dados, somados a outras bases nacionais e estudos científicos, permitem analisar o comportamento climático ao longo do tempo e alimentar projeções futuras. Segundo Camarinha, esse processo envolve tanto a análise de cenários prospectivos quanto a validação posterior com dados observados. "Nós olhamos para projeções do clima futuro, com base em diferentes cenários de aquecimento global, e, com o passar do tempo, avaliamos se essas previsões se confirmam, aprimorando a compreensão sobre a dinâmica climática e sua relação com os desastres", explica.

A análise dos riscos, no entanto, não se limita aos fatores climáticos. Eventos naturais, como chuvas intensas ou períodos de estiagem, tornam-se desastres a partir da interação com condições socioambientais específicas. "O clima funciona como um gatilho. Mas o risco é resultado da combinação entre esse gatilho, a exposição da população, a vulnerabilidade social e a capacidade de resposta dos municípios", destaca.

Essa combinação varia significativamente entre as regiões brasileiras. No Sul, a elevada variabilidade climática, com alternância entre períodos muito úmidos e secos, intensifica os riscos, ainda que a vulnerabilidade social seja relativamente menor. No Sudeste, a alta densidade populacional e a ocupação de áreas suscetíveis ampliam a exposição, especialmente em regiões próximas à Serra do Mar. Já no Nordeste, a realidade é distinta entre o semiárido – marcado historicamente pela escassez hídrica – e a faixa litorânea, onde eventos de chuvas intensas têm se tornado mais frequentes. No Centro-Oeste, observa-se tendência de aumento de temperatura e redução de chuvas, com impactos mais acentuados em populações vulneráveis, enquanto, no Norte, desafios logísticos e de acesso a serviços influenciam a forma como cheias e secas afetam as comunidades.

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No campo da gestão, sistemas de monitoramento e alerta têm sido utilizados para apoiar a tomada de decisão. A partir da integração de dados meteorológicos, geográficos e socioeconômicos, são elaboradas análises que indicam a probabilidade dos eventos extremos e seus possíveis impactos. Essas informações são classificadas em níveis de risco e orientam a atuação de órgãos de defesa civil e outros gestores públicos.

"Os alertas traduzem uma combinação de cenários. Quando o risco é mais elevado, há mais evidências de que medidas mais drásticas devem ser adotadas para mitigar impactos", afirma Camarinha. Segundo ele, mesmo quando não são direcionados especificamente ao setor de saneamento, esses dados podem ser incorporados por operadores como suporte à gestão, especialmente em situações de escassez hídrica.

No caso das secas, o uso de previsões climáticas sazonais e o monitoramento contínuo de variáveis como precipitação, umidade do solo, vazão e nível dos rios permitem identificar, com antecedência, sinais de agravamento. Isso possibilita a adoção de medidas preventivas, como a gestão mais eficiente de reservatórios e o planejamento de contingências, contribuindo para a segurança hídrica, sobretudo em regiões metropolitanas.

Apesar dos avanços na produção de dados, a integração entre informações climáticas, planejamento urbano e políticas de saneamento ainda é um desafio. "O principal gargalo não é a falta de informação, mas a dificuldade de articulação entre diferentes setores e níveis de governo. As políticas ainda são conduzidas de forma fragmentada", observa o especialista.

Outro aspecto relevante diz respeito à forma como os fenômenos naturais são compreendidos no contexto urbano. Conforme explica Pedro Camarinha, "enchentes são, em sua essência, processos naturais de elevação do nível dos rios dentro de sua dinâmica". O problema surge quando a ocupação urbana avança sobre essas áreas, convertendo um fenômeno natural em situação de risco e, muitas vezes, em desastre.

Nesse sentido, fatores como a impermeabilização do solo, a ausência de infraestrutura verde e a ocupação irregular de áreas suscetíveis agravam significativamente os impactos. Ao limitar a capacidade de drenagem e aumentar o escoamento superficial, esses elementos intensificam alagamentos, enxurradas e inundações, evidenciando a relação direta entre o modelo de urbanização e a amplificação dos riscos climáticos.

A gestão de riscos hídricos exige uma abordagem que combine informação qualificada, planejamento territorial e políticas públicas integradas. A antecipação de eventos extremos, baseada em evidências, surge como um elemento central para reduzir vulnerabilidades e ampliar a resiliência das cidades frente às mudanças climáticas.

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