Economia Circular no Saneamento

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Economia Circular no Saneamento

Quando água, resíduos e energia passam a fazer parte da mesma solução

Saneamento Ambiental 205Páginas 29-35Ver na versão PDF flip

A transformação das concessionárias em plataformas de recuperação de recursos redefine o papel do saneamento no Brasil e abre caminho para uma nova agenda de sustentabilidade, inovação e segurança hídrica. Durante décadas, o saneamento básico foi compreendido principalmente como uma infraestrutura essencial para garantir abastecimento de água, coleta e tratamento de esgoto. Hoje, porém, uma nova visão vem ganhando força no setor: a de que sistemas de saneamento podem ser muito mais do que prestadores de serviços públicos. Eles podem se tornar verdadeiros polos de recuperação de recursos, geração de energia limpa, produção de insumos agrícolas e promoção da economia circular.

Essa mudança de paradigma ocorre em um momento estratégico para o Brasil. O avanço do Novo Marco Legal do Saneamento, a crescente pressão sobre os recursos hídricos, os desafios impostos pelas mudanças climáticas e a busca por maior eficiência operacional estão impulsionando empresas e gestores públicos a repensarem a forma como água, resíduos e energia se relacionam dentro das operações.

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Para Rafael Rossi, diretor de Engenharia da Aegea, a economia circular será um dos principais motores da transformação do saneamento brasileiro nos próximos anos. "O saneamento é, por natureza, uma atividade de ciclos. Nossa visão é ir além da gestão de resíduos, buscando fechar ciclos, transformar subprodutos em recursos e devolver ao ambiente e à sociedade mais valor do que foi retirado", destaca.

Na economia linear tradicional, os recursos são extraídos, utilizados e descartados. Já na economia circular, resíduos e efluentes passam a ser vistos como matérias-primas capazes de retornar ao sistema produtivo. Essa lógica já vem sendo aplicada em diversas frentes operacionais da Aegea, desde a redução de perdas de água até projetos de reaproveitamento de resíduos, produção de biofertilizantes, reúso hídrico e geração de energia renovável.

Segundo Rossi, três fatores devem acelerar esse movimento no país: a crescente escassez hídrica, a necessidade de sistemas mais resilientes e a consolidação de mecanismos regulatórios e comerciais voltados ao reúso da água.

Na prática, isso significa transformar estações de tratamento em estruturas multifuncionais, capazes de produzir benefícios ambientais, econômicos e sociais simultaneamente. 

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Água: um recurso cada vez mais valioso

Entre os pilares da economia circular aplicada ao saneamento está a gestão eficiente dos recursos hídricos.

A redução de perdas de água, por exemplo, representa um dos maiores desafios do setor no Brasil. Para enfrentá-lo, a Aegea mantém programas permanentes em suas concessões, utilizando tecnologias como sensores em tempo real, modelagem hidráulica e monitoramento por imagens de satélite.

Os resultados são expressivos. Em 2025, a companhia registrou índice de perdas de 44,8% e conseguiu preservar cerca de 29 bilhões de litros de água, volume suficiente para abastecer aproximadamente 725 mil pessoas durante um ano. Além de melhorar a eficiência operacional, a redução de perdas diminui a necessidade de novas captações e contribui diretamente para a preservação dos mananciais.

Reúso de água: uma solução estratégica para a segurança hídrica 

Rafael Rossi
Rafael Rossi

Em um cenário de crescente demanda por água e eventos climáticos extremos cada vez mais frequen- tes, o reúso de água vem deixando de ser uma alternativa para se tornar uma necessidade.

No entanto, a adoção dessa prática ainda enfrenta desafios culturais, regulatórios e estruturais no Brasil. "A ampliação do reúso hídrico depende tanto da infraestrutura quanto da construção de uma cultura que reconheça a água como um recurso finito", explica Rossi.

Com essa visão, a Aegea criou a Apura, unidade de negócios voltada ao desenvolvimento de soluções sustentáveis para a indústria. Entre os principais projetos está a parceria com a Petrobras no Complexo de Energias Boaventura, em Itaboraí (RJ), considerado o maior projeto de reúso de água do país. A iniciativa utilizará efluentes tratados para abastecimento industrial, preservando recursos hídricos convencionais para o consumo humano.

A expectativa é que o volume de água economizado seja equivalen- te ao abastecimento de cerca de 300 mil pessoas. Outro exemplo é a parceria com a Braskem, em Duque de Caxias (RJ), reforçando o potencial do reúso como ferramenta de segurança hídrica para regiões industriais.

Quando o lodo deixa de ser resíduo

Um dos exemplos mais emblemáticos da economia circular aplicada ao saneamento está na valorização do lodo gerado pelas Estações de Tratamento de Esgoto (ETEs). Tradicionalmente tratado como um passivo ambiental, esse material vem ganhando nova destinação graças aos avanços tecnológicos e às parcerias estratégicas.

Em 2025, a Aegea estruturou um projeto pioneiro na unidade MS Pantanal, no Mato Grosso do Sul, em parceria com a Organics Biofertilizantes e o Governo Estadual. A iniciativa permitiu a recirculação de 1.257 toneladas de lodo para a produção de fertilizante orgânico.

Parte desse biofertilizante foi destinada à agricultura familiar por meio da Secretaria de Estado de Meio Ambiente, Desenvolvimento Econômico, Produção e Agricultura Familiar (Semadesc). A ação demonstra como resíduos provenientes do saneamento podem retornar à cadeia produtiva, gerando benefícios ambientais, econômicos e sociais.

Energia renovável: a nova fronteira do saneamento

Segundo a Aegea, 99% de toda a energia consumida pela companhia já é proveniente de fontes renováveis. Esse resultado é fruto de investimentos em autoprodução, geração distribuída e aquisição de energia limpa.

No Rio Grande do Sul, por exemplo, a Corsan implementou uma matriz energética totalmente renovável, composta por usinas fotovoltaicas, pequenas centrais hidrelétricas e bioenergia produzida a partir da casca de arroz.

Além disso, 15 unidades do grupo utilizam energia proveniente de parques eólicos, enquanto outras operações contam com energia gerada por usinas solares. Atualmente, a empresa possui 46 projetos de geração distribuída espalhados por 14 estados brasileiros.

Para Rossi, a eficiência operacional do futuro estará diretamente associada à integração com fontes renováveis e ao aproveitamento energético de resíduos.

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O potencial do biogás

No Centro de Tratamento de Resíduos (CTR-Rio), em Seropédica (RJ), operado pela Regenera Rio, são captados aproximadamente 24 mil metros cúbicos de biogás por hora. Esse biogás segue três rotas principais: geração de energia elétrica, produção de biometano em parceria com a Gás Verde e queima controlada em sistemas de segurança.

Somente em 2025, as operações do complexo evitaram a emissão de cerca de 1,3 milhão de toneladas de CO₂ equivalente, além de possibilitarem a geração de créditos de carbono. O caso evidencia como a integração entre saneamento, resíduos e energia pode contribuir simultaneamente para a descarbonização, a segurança energética e a sustentabilidade financeira das operações.

Atualmente, a empresa possui 46 projetos de geração distribuída espalhados por 14 estados brasileiros

Desafios para consolidar a circularidade

Apesar dos avanços, a consolidação da economia circular no saneamento ainda enfrenta obstáculos importantes. Entre eles estão as diferenças regionais de infraestrutura, a necessidade de escalabilidade dos projetos, o amadurecimento regulatório e a busca por modelos economicamente viáveis.

Segundo Rossi, a segurança regulatória será fundamental para acelerar investimentos e ampliar soluções ligadas ao reúso de água, à recuperação de resíduos e à geração de energia. Nesse contexto, o fortalecimento do Novo Marco Legal do Saneamento surge como um importante catalisador para a inovação e para a adoção de modelos mais eficientes e sustentáveis.

O papel das parcerias

Na avaliação da Aegea, municípios, indústrias, universidades e startups possuem funções complementares na aceleração da economia circular. Enquanto os municípios contribuem para a integração territorial e regulatória, as indústrias criam demanda para o reúso e para novos insumos. Já startups e centros de pesquisa ampliam o acesso a tecnologias inovadoras e modelos operacionais mais eficientes. Essa conexão entre diferentes atores tem sido essencial para transformar conceitos em soluções aplicáveis e escaláveis.

Uma agenda estratégica para o futuro do Brasil

Ao redor do mundo, o saneamento vem sendo reconhecido como um dos setores mais relevantes para enfrentar desafios ligados às mudanças climáticas, à segurança hídrica e à transição energética.

Referências internacionais acompanhadas pela Aegea, como o MIT Industrial Liaison Program, a Isle Utilities e o Technology Approval Group, reforçam essa tendência global de transformar estações de tratamento em centros de recuperação de recursos.

Para Rafael Rossi, o Brasil possui condições únicas para avançar nessa direção. "O saneamento não deve ser visto apenas como infraestrutura básica, mas como um vetor estratégico de saúde pública, inclusão sanitária, recuperação ambiental e desenvolvimento econômico."

A mensagem sintetiza uma mudança que já está em curso: a de um setor que deixa de atuar apenas na gestão da água e dos resíduos para assumir papel central na construção de cidades mais resilientes, sustentáveis e preparadas para os desafios do futuro.

Mais do que tratar água e esgoto, o saneamento passa a produzir valor. E, nesse novo cenário, a economia circular se apresenta não apenas como uma tendência, mas como um caminho inevitável para a sustentabilidade das próximas décadas.

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