Identidade Brasileira do Biometano

BIOGÁS

Identidade Brasileira do Biometano

Por Gustavo Paranhos (*)

Saneamento Ambiental 205Páginas 23-28Ver na versão PDF flip

Há algumas décadas, quem quisesse desbravar o mercado de biogás no Brasil precisava, antes de tudo, falar alemão. Era a época em que a tecnologia vinha em manuais estrangeiros e a parceria entre a agência alemã GIZ (Deutsche Gesellschaft für Internationale Zusammenarbeit) e o governo federal do Brasil começava a plantar as primeiras sementes do setor.

A Alemanha tecnificou o processo de digestão anaeróbia com reatores do tipo CSTR (Continuous Stirred Tank Reactor) – tanques circulares com alimentação controlada e agitação contínua. Empresas de biodigestão europeias modelaram projetos agropecuários para maximizar a produção de biogás, potencializando a eficiência das usinas com culturas vegetais de elevado rendimento energético, como o milho e o sorgo.

Na Europa, a estruturação de arcabouços regulatórios nacionais com tarifas subsidiadas para energias renováveis direcionou interesses e fluxos financeiros para a biodigestão. Propriedades rurais passaram a produzir eletricidade e calor a partir da combustão do biogás em unidades CHP (Combined Heat and Power). A renda da venda de energia amortizou os investimentos e democratizou o acesso à tecnologia. As plantas de biogás promoveram o avanço do saneamento rural europeu, o acesso aos benefícios da fertilização orgânica e a estabilização de custos e receitas, o que traz previsibilidade financeira para o campo.

Apesar das negáveis raízes europeias e do forte viés agropecuário original, o biogás no Brasil desenvolveu-se com identidade própria. A história do biogás brasileiro ocorreu em ondas de arranque e retração. O saneamento rural, a venda de créditos de carbono, a produção de eletricidade e a produção de biometano atuaram como propulsores da biodigestão brasileira. Por outro lado, os problemas de dimensionamento, a simplicidade construtiva dos reatores, o uso de materiais inadequados, a falta de assistência técnica e o desconhecimento operacional atuaram como retratores da biotecnologia.

Durante décadas, o Brasil travou uma batalha para viabilizar investimentos com componentes quase exclusivamente importados e de elevada intensidade de capital, em uma economia instável, com moeda desvalorizada e sem incentivos robustos às energias renováveis. Como consequência, equipamentos de alta performance e instrumentos de precisão foram excluídos de muitos projetos, deixando a eficiência ao acaso. A transição da biodigestão rudimentar para a biodigestão de alta performance tecnológica tem sido um processo moroso que ainda reverbera no País.

Por muito tempo, o biogás brasileiro esteve intensamente conectado ao saneamento da suinocultura. Entre 2005 e 2012, os produtores brasileiros de suínos foram incentivados a construir biodigestores de lagoa coberta (BLC) e a queimar o biogás para acessar os créditos de carbono do Mecanismo de Desenvolvimento Limpo (MDL) – instrumento financeiro e regulatório nascido do Protocolo de Quioto. Embora muitos projetos rurais tenham sucumbido ao desconhecimento operacional e à falta de manutenção, os remanescentes serviram de alicerce para o desenvolvimento de centros de pesquisas e de uma cadeia de valor nacional, fomentando fornecedores dos setores mecânico, elétrico e eletrônico.

Título do gráfico de barras mostrando a composição da produção de biogás de 2021 a 2025
Fonte: Panorama do Biogás 2025. CiBiogás, 2026.

Paralelamente, os aterros sanitários investiram na captação e queima do biogás. Essa expertise, desenvolvida na fase do MDL, persistiu mesmo quando o preço dos créditos de carbono deixou de justificar a operação, abrindo caminho para que a geração de energia elétrica com CHPs ganhasse força tanto nos aterros quanto no campo.

O mercado sucroenergético ascendeu com a promessa de gerar grandes volumes de biogás a partir da vinhaça, o resíduo líquido da produção de etanol. Nos bastidores dessa inovação estavam empresas alemãs construindo reatores-piloto para testar sistemas de agitação e bombeamento. No entanto, enquanto os reatores de lagoa coberta para vinhaça ainda passavam por validação tecnológica – um processo que se estende até hoje, com grandes players colhendo os primeiros resultados em escala –, os reatores CSTR alemães já estavam amplamente validados em todos os continentes.

O amadurecimento das tecnologias de purificação de biogás na Europa, aliado à elevação dos preços do gás natural e a uma malha de gasodutos bem desenvolvida, fez com que a produção do equivalente renovável do gás natural, o biometano, ganhasse forte sentido financeiro em contratos de injeção na rede. Entre 2015 e 2018, as grandes montadoras europeias de usinas de biogás identificaram nessa transição uma tendência irreversível.

Graças à forte atuação político-institucional de grupos de pesquisa dedicados ao tema, como o CiBiogás (Centro Internacional de Energias Renováveis), e da Associação Brasileira do Biogás (ABiogás), a ascensão do biometano no Brasil foi antecipada na regulação pela ANP (Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis) na Resolução ANP nº 8/2015, que estabeleceu sua equivalência ao gás natural. Posteriormente, a regulação expandiu-se para projetos em aterros sanitários e estações de tratamento de esgoto com a Resolução ANP nº 685/2017.

Legenda do gráfico de barras mostrando crescimento e projeção de volume de biometano de 2020 a 2028
Fonte: Panorama do Biogás 2025. CiBiogás, 2026.

O mercado galopante do biometano europeu estendeu olhares para o outro lado do Oceano Atlântico, visando a um continente com matéria-prima orgânica em abundância, imensas áreas agricultáveis e atividade agropecuária em crescimento organizado. Despontaram os países com estabilidade econômica, moeda valorizada, vias de financiamento consolidadas, arcabouço regulatório formado e incentivo financeiro. Faltava algo a mais ao Brasil.

O que faltava ao cenário nacional era um mecanismo que transformasse obrigações de descarbonização em receitas diretas para os produtores, capaz de destravar projetos pioneiros, desenvolver a cadeia de valor e estimular a competitividade. A Lei do Combustível do Futuro (Lei nº 14.993/2024), suplementada pelas Resoluções ANP nº 995/2026 e nº 996/2026, tirou o setor da inércia rumo à produção de biometano.

O biometano ganha tração no Brasil para assumir o seu papel protagonista na transição energética do país.

No Brasil, apenas 3% das 1.803 plantas de biogás cadastradas possuem tecnologia para purificação em biometano. Ainda assim, a produção deste gás renovável já consome 34% de todo o volume de biogás utilizado em território nacional, cuja capacidade instalada total passa dos 4,96 bilhões de Nm3 por ano.

Os aterros sanitários se tornaram os maiores produtores nacionais de biometano (76% do volume gerado no país), empregando as tecnologias de purificação Water Scrubbing (Lavagem com Água) e PSA (Pressure Swing Adsorption). Conforme o Brasil se ajusta à Política Nacional de Resíduos Sólidos, cresce a expectativa de novos aterros e novas plantas de biometano no setor de saneamento.

Legenda da imagem principal mostrando a instalação industrial
Sistema de membranas Envithan® para purificação do biogás em biometano.

A tecnologia de purificação de biogás por membranas solidificou-se em projetos industriais (20% do volume de biometano brasileiro gerado) e em projetos agropecuários (4% do volume gerado). O elevado controle de processo garantido pela alta densidade tecnológica empregada em projetos industriais, o custo de destinação do resíduo industrial (gate fee), o maior volume de biogás gerado por planta e a proximidade do consumidor final tornam os projetos industriais de biometano (waste-to-energy) ainda mais atrativos que os agropecuários.

A matriz de biometano no Brasil descola do modelo agropecuário europeu, ao se ancorar fortemente nos setores industrial e de saneamento, que injetam volumes massivos no mercado em curto prazo. Paralelamente, o ecossistema agropecuário brasileiro supera a fase de planejamento, consolidando modelos de negócios cooperativos que asseguram o suprimento contínuo de substratos orgânicos e em volume relevante para a composição de novos projetos. Para aumentar a capacidade de produção de biometano no campo, será que falta ao setor agropecuário brasileiro explorar culturas vegetais energéticas como a Europa explorou?

Para que a boa onda do biometano brasileiro perdure, com a garantia de que nenhum potencial energético será desperdiçado e de que o investimento realizado será amortizado no prazo estipulado em projeto, faz-se necessária a incorporação de expertise, a aplicação de tecnologia de ponta, uma modelagem inteligente de negócios e a excelência no gerenciamento de projetos.

A fim de atender às expectativas de projetos com segurança de processo e de entrega, a empresa brasileira Enfil S/A Controle Ambiental com mais de 390 projetos em meio ambiente e infraestrutura realizados no Brasil se uniu-se à empresa alemã EnviTec Biogas, com 24 anos de experiência e mais de 700 projetos de biogás realizados em 18 países, sendo 91 plantas próprias. Nasce a powerhouse do biometano brasileiro, com solução completa – desde o abastecimento de resíduos na planta, passando pela produção eficiente de biogás, até a purificação por meio do inovador sistema Envithan®, uma tecnologia com mais de 73 módulos em operação. O biometano ganha tração no Brasil para assumir o seu papel protagonista na transição energética do país.

Com um nível inédito de maturidade e prontidão, seguimos transformando processos, operações e passivos ambientais em ativos estratégicos. Construímos os novos capítulos do biometano brasileiro amparados pela história do biogás no país, pelos resultados comprovados da engenharia nacional em grandes projetos de infraestrutura e soluções ambientais, e pela experiência de quem lidera globalmente a produção de biometano, rumo à transição energética com segurança de investimento.

Atua no desenvolvimento de novos negócios para o setor de biogás e biometano através da prospecção de oportunidades, concepção técnica e modelagem econômico-financeira de projetos, venda consultiva, gestão de contratos e de garantias de operacionalização.

(*) Gustavo Paranhos é Gerente Comercial de Biogás e Biometano da Enfil, Mestre em Processos Industriais e especialista em Bioengenharia aplicada à valorização agronômica e energética de resíduos.

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