Há algumas décadas, quem quisesse desbravar o mercado de biogás no Brasil precisava, antes de tudo, falar alemão. Era a época em que a tecnologia vinha em manuais estrangeiros e a parceria entre a agência alemã GIZ (Deutsche Gesellschaft für Internationale Zusammenarbeit) e o governo federal do Brasil começava a plantar as primeiras sementes do setor.
A Alemanha tecnificou o processo de digestão anaeróbia com reatores do tipo CSTR (Continuous Stirred Tank Reactor) – tanques circulares com alimentação controlada e agitação contínua. Empresas de biodigestão europeias modelaram projetos agropecuários para maximizar a produção de biogás, potencializando a eficiência das usinas com culturas vegetais de elevado rendimento energético, como o milho e o sorgo.
Na Europa, a estruturação de arcabouços regulatórios nacionais com tarifas subsidiadas para energias renováveis direcionou interesses e fluxos financeiros para a biodigestão. Propriedades rurais passaram a produzir eletricidade e calor a partir da combustão do biogás em unidades CHP (Combined Heat and Power). A renda da venda de energia amortizou os investimentos e democratizou o acesso à tecnologia. As plantas de biogás promoveram o avanço do saneamento rural europeu, o acesso aos benefícios da fertilização orgânica e a estabilização de custos e receitas, o que traz previsibilidade financeira para o campo.
Apesar das inegáveis raízes europeias e do forte viés agropecuário original, o biogás no Brasil desenvolveu-se com identidade própria. A história do biogás brasileiro ocorreu em ondas de arranque e retração. O saneamento rural, a venda de créditos de carbono, a produção de eletricidade e a produção de biometano atuaram como propulsores da biodigestão brasileira. Por outro lado, os problemas de dimensionamento, a simplicidade construtiva dos reatores, o uso de materiais inadequados, a falta de assistência técnica e o desconhecimento operacional atuaram como retratores da biotecnologia.
Durante décadas, o Brasil travou uma batalha para viabilizar investimentos com componentes quase exclusivamente importados e de elevada intensidade de capital, em uma economia instável, com moeda desvalorizada e sem incentivos robustos às energias renováveis. Como consequência, equipamentos de alta performance e instrumentos de precisão foram excluídos de muitos projetos, deixando a eficiência ao acaso. A transição da biodigestão rudimentar para a biodigestão de alta performance tecnológica tem sido um processo moroso que ainda reverbera no País.
Por muito tempo, o biogás brasileiro esteve intensamente conectado ao saneamento da suinocultura. Entre 2005 e 2012, os produtores brasileiros de suínos foram incentivados a construir biodigestores de lagoa coberta (BLC) e a queimar o biogás para acessar os créditos de carbono do Mecanismo de Desenvolvimento Limpo (MDL) – instrumento financeiro e regulatório nascido do Protocolo de Quioto. Embora muitos projetos rurais tenham sucumbido ao desconhecimento operacional e à falta de manutenção, os remanescentes serviram de alicerce para o desenvolvimento de centros de pesquisas e de uma cadeia de valor nacional, fomentando fornecedores dos setores mecânico, elétrico e eletrônico.
Paralelamente, os aterros sanitários investiram na captação e queima do biogás. Essa expertise, desenvolvida na fase do MDL, persistiu mesmo quando o preço dos créditos de carbono deixou de justificar a operação, abrindo caminho para que a geração de energia elétrica com CHPs ganhasse força tanto nos aterros quanto no campo.
O mercado sucroenergético ascendeu com a promessa de gerar grandes volumes de biogás a partir da vinhaça, o resíduo líquido da produção de etanol. Nos bastidores dessa inovação estavam empresas alemãs construindo reatores-piloto para testar sistemas de agitação e bombeamento. No entanto, enquanto os reatores de lagoa coberta para vinhaça ainda passavam por validação tecnológica – um processo que se estende até hoje, com grandes players colhendo os primeiros resultados em escala –, os reatores CSTR alemães já estavam amplamente validados em todos os continentes.
O amadurecimento das tecnologias de purificação de biogás na Europa, aliado à elevação dos preços do gás natural e a uma malha de gasodutos bem desenvolvida, fez com que a produção do equivalente renovável do gás natural, o biometano, ganhasse forte sentido financeiro em contratos de injeção na rede. Entre 2015 e 2018, as grandes montadoras europeias de usinas de biogás identificaram nessa transição uma tendência irreversível.
Graças à forte atuação político-institucional de grupos de pesquisa dedicados ao tema, como o CiBiogás (Centro Internacional de Energias Renováveis), e da Associação Brasileira do Biogás (ABiogás), a ascensão do biometano no Brasil foi antecipada na regulação pela ANP (Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis) na Resolução ANP nº 8/2015, que estabeleceu sua equivalência ao gás natural. Posteriormente, a regulação expandiu-se para projetos em aterros sanitários e estações de tratamento de esgoto com a Resolução ANP nº 685/2017.

O mercado galopante do biometano europeu estendeu olhares para o outro lado do Oceano Atlântico, visando a um continente com matéria-prima orgânica em abundância, imensas áreas agricultáveis e atividade agropecuária em crescimento organizado. Despontaram os países com estabilidade econômica, moeda valorizada, vias de financiamento consolidadas, arcabouço regulatório formado e incentivo financeiro. Faltava algo a mais ao Brasil.

O que faltava ao cenário nacional era um mecanismo que transformasse obrigações de descarbonização em receitas diretas para os produtores, capaz de destravar projetos pioneiros, desenvolver a cadeia de valor e estimular a competitividade. A Lei do Combustível do Futuro (Lei nº 14.993/2024), suplementada pelas Resoluções ANP nº 995/2026 e nº 996/2026, tirou o setor da inércia rumo à produção de biometano.
No Brasil, apenas 3% das 1.803 plantas de biogás cadastradas possuem tecnologia para purificação em biometano. Ainda assim, a produção deste gás renovável já consome 34% de todo o volume de biogás utilizado em território nacional, cuja capacidade instalada total passa dos 4,96 bilhões de Nm3 por ano.
O biometano ganha tração no Brasil para assumir o seu papel protagonista na transição energética do país.
Os aterros sanitários se tornaram os maiores produtores nacionais de biometano (76% do volume gerado no país), empregando as tecnologias de purificação Water Scrubbing (Lavagem com Água) e PSA (Pressure Swing Adsorption). Conforme o Brasil se ajusta à Política Nacional de Resíduos Sólidos, cresce a expectativa de novos aterros e novas plantas de biometano no setor de saneamento.
A tecnologia de purificação de biogás por membranas solidificou-se em projetos industriais (20% do volume de biometano brasileiro gerado) e em projetos agropecuários (4% do volume gerado). O elevado controle de processo garantido pela alta densidade tecnológica empregada em projetos industriais, o custo de destinação do resíduo industrial (gate fee), o maior volume de biogás gerado por planta e a proximidade do consumidor final tornam os projetos industriais de biometano (waste-to-energy) ainda mais atrativos que os agropecuários.
A matriz de biometano no Brasil descola do modelo agropecuário europeu, ao se ancorar fortemente nos setores industrial e de saneamento, que injetam volumes massivos no mercado em curto prazo. Paralelamente, o ecossistema agropecuário brasileiro supera a fase de planejamento, consolidando modelos de negócios cooperativos que asseguram o suprimento contínuo de substratos orgânicos e em volume relevante para a composição de novos projetos. Para aumentar a capacidade de produção de biometano no campo, será que falta ao setor agropecuário brasileiro explorar culturas vegetais energéticas como a Europa explorou?
Para que a boa onda do biometano brasileiro perdure, com a garantia de que nenhum potencial energético será desperdiçado e de que o investimento realizado será amortizado no prazo estipulado em projeto, faz-se necessária a incorporação de expertise, a aplicação de tecnologia de ponta, uma modelagem inteligente de negócios e a excelência no gerenciamento de projetos.
A fim de atender às expectativas de projetos com segurança de processo e de entrega, a empresa brasileira Enfil S/A Controle Ambiental com mais de 390 projetos em meio ambiente e infraestrutura realizados no Brasil se uniu-se à empresa alemã EnviTec Biogas, com 24 anos de experiência e mais de 700 projetos de biogás realizados em 18 países, sendo 91 plantas próprias. Nasce a powerhouse do biometano brasileiro, com solução completa – desde o abastecimento de resíduos na planta, passando pela produção eficiente de biogás, até a purificação por meio do inovador sistema Envithan®, uma tecnologia com mais de 73 módulos em operação. O biometano ganha tração no Brasil para assumir o seu papel protagonista na transição energética do país.

Com um nível inédito de maturidade e prontidão, seguimos transformando processos, operações e passivos ambientais em ativos estratégicos. Construímos os novos capítulos do biometano brasileiro amparados pela história do biogás no país, pelos resultados comprovados da engenharia nacional em grandes projetos de infraestrutura e soluções ambientais, e pela experiência de quem lidera globalmente a produção de biometano, rumo à transição energética com segurança de investimento.

