Durante décadas, os resíduos sólidos foram tratados apenas como um desafio operacional de limpeza urbana: recolher o lixo e afastá-lo dos centros urbanos. No entanto, diante das mudanças climáticas, da necessidade de preservação dos recursos naturais e da busca por modelos econômicos mais sustentáveis, esse cenário vem se transformando. Hoje, os resíduos ocupam uma posição estratégica na agenda do saneamento ambiental, da transição energética e do desenvolvimento sustentável.
Essa nova perspectiva foi o centro das discussões de um encontro que reuniu especialistas e conselheiros da Revista Saneamento Ambiental, promovendo uma reflexão aprofundada sobre os avanços, entraves e caminhos necessários para modernizar a gestão de resíduos no Brasil. Entre os principais consensos, está a compreensão de que os resíduos não podem mais ser vistos apenas como um problema ambiental, mas como um recurso capaz de gerar valor econômico, novos negócios, energia e benefícios sociais. O debate reuniu José Valverde Machado Filho, José Mateus Bichara, Hugo Marques Rosa, Fabricio Soler, Flávio Vasconcelos e Estela Testa, sob a moderação de Eugenio Singer.
"Precisamos deixar de enxergar o resíduo apenas como algo que deve ser retirado da nossa frente. Quando bem gerenciado, ele se transforma em matéria-prima, fonte de energia e instrumento de desenvolvimento econômico e social", diz Eugênio Singer.
Apesar de o Brasil possuir uma das legislações mais avançadas do mundo na área, a implementação da Política Nacional de Resíduos Sólidos (PNRS) ainda enfrenta desafios estruturais. Especialistas ressaltaram que a legislação avançou mais rapidamente do que sua aplicação prática, resultando em um cenário no qual milhares de municípios ainda não conseguem oferecer um sistema completo e sustentável de gestão dos resíduos.
Ao refletir sobre a trajetória da gestão de resíduos sólidos no Brasil, Valverde destacou que o país percorreu um caminho importante no campo regulatório, mas ainda enfrenta desafios significativos na transformação das políticas públicas em ações efetivas. Segundo ele, espaços de debate que reúnem especialistas, gestores, setor produtivo e sociedade são fundamentais para construir soluções mais eficientes e inovadoras.
"O resíduo sempre foi tratado como um problema, mas precisamos compreender que ele também é um ativo estratégico. Durante muito tempo, o Brasil manteve uma lógica herdada do século XIX: recolher os resíduos das cidades, afastá-los dos centros urbanos e simplesmente enterrá-los. Esse modelo criou um passivo ambiental que ainda enfrentamos atualmente", afirmou Valverde.
Ele ressaltou que, apesar de o país ainda conviver com práticas ultrapassadas de manejo, houve uma grande evolução na legislação. "O Brasil construiu uma das políticas de gestão e gerenciamento de resíduos sólidos mais avançadas do mundo, com instrumentos importantes e segurança jurídica para que possamos sair definitivamente de um modelo do século XIX e avançar para uma gestão alinhada ao século XXI."
Valverde alertou que o encerramento dos lixões, embora necessário, não representa por si só, a solução do problema. "Não basta apenas fechar os lixões; é preciso recuperar essas áreas, monitorar os impactos ambientais e garantir que novos modelos de tratamento e destinação adequada sejam implementados."
Como exemplo da complexidade do desafio brasileiro, ele citou o cenário de alguns estados, onde o número de áreas de disposição inadequada ainda preocupa. "O Ceará, por exemplo, passou de cerca de 150 para aproximadamente 300 lixões em poucos anos, o que demonstra que a existência de uma legislação robusta não é suficiente sem mecanismos efetivos de implementação e acompanhamento."

Para Valverde, o fortalecimento das políticas públicas passa pela criação de processos contínuos de monitoramento, avaliação e transparência. "Precisamos de um verdadeiro observatório da Política Nacional de Resíduos Sólidos, capaz de acompanhar avanços, identificar gargalos e apoiar estados e municípios na implementação das soluções necessárias."
O especialista também destacou que a inclusão dos catadores deve ser tratada não apenas como uma questão operacional, mas como uma transformação social e cultural. "Os catadores fazem parte da história da gestão de resíduos no Brasil. Valorizar sua atuação, promover sua organização e integrá-los aos novos modelos de economia circular são etapas fundamentais para uma transição justa e sustentável.
Entre os principais desafios está a permanência dos lixões, que ainda representam uma realidade em aproximadamente 2.500 municípios brasileiros. Além dos impactos ambientais e sanitários, a destinação inadequada compromete os recursos hídricos, contribui para a emissão de gases de efeito estufa e dificulta o avanço da economia circular.
Outro ponto crítico é a sustentabilidade econômica dos serviços. Atualmente, apenas uma parcela dos municípios realiza cobrança específica pela gestão dos resíduos, e poucos possuem sistemas financeiramente equilibrados, nos quais a arrecadação é suficiente para cobrir todas as etapas do processo, como coleta, transporte, tratamento e destinação final.
Segundo os especialistas, sem um modelo econômico estruturado, muitos municípios acabam realizando apenas o básico: retirar os resíduos das residências e destiná-los a algum local, muitas vezes sem o tratamento mais adequado.
O fortalecimento da governança foi apontado como uma das principais condições para o avanço do setor. Para os especialistas, tecnologia e investimentos são fundamentais, mas somente produzem resultados quando acompanhados de planejamento, segurança jurídica e modelos de gestão eficientes.
A regionalização dos sistemas de resíduos e a criação de soluções compartilhadas entre municípios surgem como alternativas importantes para viabilizar ganhos de escala, especialmente para cidades de pequeno porte.
"Não é possível imaginar mais de cinco mil soluções isoladas para os municípios brasileiros. A cooperação regional e os consórcios são caminhos essenciais para alcançar eficiência operacional e atrair investimentos", afirma Hugo Marques.
Além disso, os especialistas defenderam mecanismos de cobrança mais eficientes, garantindo que os recursos arrecadados sejam efetivamente direcionados para a melhoria dos serviços de manejo de resíduos, sem competir diretamente com outras áreas prioritárias dos orçamentos municipais, como saúde, educação e segurança pública.
Economia circular: transformar resíduos em oportunidades
Um dos temas de maior destaque foi o avanço da economia circular, conceito que propõe substituir o modelo tradicional de "extrair, produzir, consumir e descartar" por sistemas capazes de reinserir os materiais nos ciclos produtivos.
Na prática, isso significa ampliar a reciclagem, fortalecer a logística reversa, incentivar a compostagem, recuperar materiais e desenvolver novas rotas de aproveitamento energético dos resíduos.
"O resíduo precisa ser compreendido como um ativo estratégico dentro da nova economia de baixo carbono. A reciclagem, a recuperação de materiais e o aproveitamento energético têm potencial para reduzir pressão sobre os recursos naturais e contribuir para as metas climáticas", destaca Fabricio Soler.
O debate também reforçou a importância dos catadores e das cooperativas de reciclagem, considerados agentes essenciais para a consolidação de uma economia circular mais inclusiva e socialmente justa.
Ao abordar os desafios para tornar a gestão de resíduos mais eficiente no Brasil, Bichara destacou que um dos principais gargalos está na articulação entre os diferentes agentes envolvidos e na necessidade de profissionalizar mecanismos já previstos em lei, como a logística reversa.
"Precisamos superar a visão de que o lixo é apenas um problema. Ele também representa uma riqueza, um ativo com potencial econômico e ambiental. Mas, para isso, é necessário reconhecer responsabilidades e criar mecanismos eficientes de gestão. O resíduo urbano tem um responsável legal, que é o município, e é fundamental que a classe política compreenda a importância de tratar esse tema como prioridade", afirmou.
Segundo Bichara, a solução depende de uma atuação integrada entre poder público, setor privado, órgãos fiscalizadores e sociedade civil. "Não haverá avanço se cada agente atuar isoladamente. É preciso integrar comunicação, fiscalização, educação ambiental, sistemas de coleta e instrumentos de compartilhamento de recursos e responsabilidades. A gestão de resíduos exige uma atuação coordenada entre todos os envolvidos."

O especialista também chamou atenção para o potencial ainda pouco explorado dos consórcios intermunicipais, especialmente para municípios de menor porte, que enfrentam dificuldades técnicas e financeiras para estruturar soluções próprias.
"Os consórcios são ferramentas importantes, mas ainda são subutilizados. Falta liderança, planejamento de longo prazo e uma governança capaz de garantir estabilidade e continuidade das iniciativas, independentemente dos ciclos políticos", ressaltou.
Outro ponto destacado por Bichara foi a necessidade de se avançar na construção de modelos mais claros e equilibrados de financiamento dos serviços de manejo de resíduos.
"É difícil encontrar um modelo perfeito de cobrança, porque o desafio envolve não apenas arrecadação, mas também educação e mudança de comportamento da população. Precisamos criar critérios mais uniformes, transparentes e que permitam à sociedade compreender o valor dos serviços prestados", concluiu.
Construção civil, mineração e novos desafios da circularidade
A economia circular também avança em setores como construção civil e mineração. A construção, considerada uma grande geradora de resíduos, ainda enfrenta desafios relacionados ao desperdício de materiais, à baixa industrialização dos processos e à resistência ao uso de agregados reciclados, mesmo diante de avanços técnicos que comprovam sua qualidade e benefícios ambientais.
Na mineração, o reaproveitamento de rejeitos surge como uma oportunidade para reduzir impactos ambientais e criar novas cadeias de valor. Especialistas destacaram ainda a evolução das normas técnicas voltadas à classificação dos resíduos minerais, ampliando a segurança e a responsabilidade na gestão desses materiais.
Ao analisar o cenário da construção civil, Hugo ressaltou que a geração de resíduos é um desafio histórico do setor e que, apesar dos avanços tecnológicos, ainda existem barreiras relacionadas à concepção dos projetos, aos processos construtivos e à valorização dos materiais descartados.
"A construção civil convive há muitos anos com a questão dos resíduos e, por muito tempo, a solução esteve concentrada apenas no descarte. Hoje, o desafio é mudar o olhar e compreender que esses materiais podem ser reaproveitados e valorizados dentro de uma nova lógica de economia circular", afirmou.
Segundo Hugo, o Brasil possui uma engenharia capacitada e profissionais com competência técnica para desenvolver soluções inovadoras. No entanto, ainda é necessário fortalecer a fase de concepção dos empreendimentos, criar processos mais eficientes e consolidar uma massa crítica especializada capaz de acelerar o desenvolvimento de novas rotas tecnológicas para o reaproveitamento dos resíduos.
"A engenharia brasileira tem capacidade de execução reconhecida, mas precisamos evoluir na etapa do conceito, no planejamento e na criação de soluções adaptadas à nossa realidade. Operar no Brasil traz desafios específicos, e é justamente por isso que precisamos desenvolver conhecimento e tecnologia dentro do próprio país", destacou.
O especialista também chamou atenção para a complexidade dos resíduos da construção civil, que muitas vezes chegam misturados, dificultando sua separação e reutilização em novas aplicações. Para ele, é necessário estabelecer critérios técnicos, padrões de qualidade e ampliar a demanda por materiais reciclados.
"Temos uma grande quantidade de resíduos que ainda poderia retornar ao ciclo produtivo. Há aplicações importantes, como a estabilização de áreas em obras, a recuperação de pavimentos asfálticos e a utilização em vias de serviço. Porém, isso exige regras claras, padrões técnicos e confiança do mercado na qualidade dos materiais reciclados", explicou.
Para Hugo, o avanço da economia circular na construção civil depende de uma transformação cultural, da qualificação dos processos e do fortalecimento da engenharia como elemento central para transformar resíduos em novos recursos.
O futuro da gestão de resíduos exige ação integrada
Ao final do encontro, a principal mensagem foi clara: o futuro da gestão de resíduos sólidos dependerá menos da existência de novas leis e mais da capacidade de transformar diretrizes em ações concretas.
Planejamento de longo prazo, fortalecimento da regulação, incentivo à inovação, educação ambiental, participação da sociedade e integração entre governos, empresas e instituições serão fundamentais para que o país consiga superar seus gargalos históricos.
"A gestão adequada dos resíduos não é apenas uma obrigação ambiental. Ela representa uma oportunidade de gerar empregos, estimular a inovação, produzir energia, reduzir emissões de gases de efeito estufa e construir cidades mais resilientes e sustentáveis", concluiu Eugênio Singer.
O desafio brasileiro é transformar um passivo histórico em uma oportunidade de desenvolvimento. O caminho passa pela mudança de cultura, pelo investimento em infraestrutura e pela compreensão de que, na economia do futuro, aquilo que antes era considerado descarte pode se tornar um recurso estratégico para toda a sociedade.
Debatedores
HUGO MARQUES
CEO do Grupo Método. Engenheiro Civil e Arquiteto, com mais de 15 anos de experiência no mercado de engenharia e construção. Na frente da Método Engenharia, liderou mais de R$4 bilhões em projetos CAPEX de grande complexidade estratégica e operacional. Nos últimos anos, criou novos modelos de Negócio relacionados a transição energética. Com MBA Executivo Global em Negócios Internacionais
ESTELA TESTA
Engenheira e CEO da Pieralisi LATAM, com atuação destacada em soluções sustentáveis para o setor de saneamento. Preside o Sindesam e o Conselho de Saneamento da ABIMAQ, sendo também Vice-Presidente da ABIMAQ. E ainda, atua em pautas estratégicas de saneamento, sustentabilidade e inovação como Diretora Plenária do CIESP/FIESP e CONFEM.
JOSÉ MATHEUS BICHARA
Engenheiro Químico (1983) e Mestre em Engenharia Química pelo Departamento de Engenharia Química da Universidade Federal de São Carlos - UFSCar (1988). Responde atualmente pela Diretoria Técnica da Atmosplan Engenharia e Consultoria Ambiental. Dedica-se, atualmente, ao fornecimento de consultoria em questões ambientais para empresas de médio e grande porte, voltadas principalmente à geração de energia a partir de combustíveis alternativos e de resíduos sólidos urbanos e industriais, desenvolvendo estratégias e protocolos de gestão.
FLÁVIO VASCONCELOS
Ph.D. - Geoquímico ambiental Diretor na Hidrogeo - HIDROGEO Engenharia e Gestão de Projetos Gestão de efluente e passivos ambientais de Mineração e Metalurgia utilizando diversas técnicas de investigação ambiental (Site assessment) tais como: caracterização de resíduos sólidos, modelamento da futura qualidade de água do empreendimento e fluxo de lençol freático através de técnicas analíticas e numéricas, modelamento e estudo do destino e transporte de poluentes inorgânicos (metais pesados) e orgânicos (combustíveis, agrotóxicos, compostos organo clorados, etc.) no meio ambiente assim como avaliação da biodisponibilidade de metais pesados, etc. Avaliação de risco à saúde humana e ecológica e estudo de remediação ambiental e de geração de drenagens ácidas de mina em áreas contaminadas. Estudo de técnicas analíticas com o objetivo de determinar a especiação química de metais pesados no meio ambiente. Desenvolvimento de processos geoquímicos para limpeza de áreas contaminadas.
JOSÉ VALVERDE MACHADO FILHO
CEO & Founder da Ambiente Valverde Ltda – desde 2025. Mestre em Direito Ambiental pela Universidade Católica de Santos (UNISANTOS), especialista pós-graduado em: Direito Ambiental (PUC-SP), Segurança Alimentar e Nutricional (UNESP) e Gestão Ambiental (SENAC-SP). Diretor - Departamento de Meio Ambiente da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo – FIESP/DMA Diretor de Meio Ambiente e Sustentabilidade da Federação de Hotéis, Restaurantes e Bares do Estado de São Paulo – FHORESP.
EUGÊNIO SINGER
Consultor Estratégico para Desenvolvimento de Negócios na Tetra Tech - Engenharia Ambiental e de Recursos Hídricos. Com mais de três décadas de experiência profissional, permanece na integração da sustentabilidade às estratégias de negócios e no desenvolvimento de soluções impactantes em serviços ambientais e energéticos.
FABRÍCIO SOLER
Advogado | Doutor Direito Ambiental Internacional | Professor | Parecerista | Direito dos Resíduos | Ambiental | Economia Circular | Diretor Saneamento FIESP | Conselheiro Pacto Global ONU | S2F Partners | ONU Habitat ●

