Financiamento verde: quem paga pela adaptação climática das cidades?

FINANÇAS CLIMÁTICAS

Financiamento verde: quem paga pela adaptação climática das cidades?

Entre 2013 e 2024, enchentes, secas e deslizamentos custaram mais de R$ 732 bilhões às cidades brasileiras – R$ 92,6 bilhões apenas em 2024, segundo a Confederação Nacional dos Municípios. O número é...

Por Eugênio Svolinski Jr.

Saneamento Ambiental 206Páginas 39-44
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Artigo

Entre 2013 e 2024, enchentes, secas e deslizamentos custaram mais de R$ 732 bilhões às cidades brasileiras – R$ 92,6 bilhões apenas em 2024, segundo a Confederação Nacional dos Municípios. O número é subestimado: menos da metade dos municípios consegue registrar seus danos no sistema federal.

A conta continua chegando, e não para no perímetro urbano. Hoje, 2.801 dos 5.570 municípios estão em alta ou muito alta vulnerabilidade climática, segundo a plataforma AdaptaBrasil, e 15 das 27 capitais ainda não têm plano de adaptação. No campo, a mesma instabilidade aparece como quebra de safra: municípios atingidos por seca extrema registram queda superior a 7,5% no valor adicionado da agropecuária nos dois primeiros anos. O cálculo do Banco Mundial vale para os dois mundos: cada US$ 1 investido em prevenção evita até US$ 4 de prejuízo futuro.

A pergunta do título, portanto, não é retórica – é uma pergunta de estrutura de capital. E ganhou peso político depois da COP30, em Belém, onde 195 países aprovaram o compromisso de triplicar o financiamento de adaptação até 2035. Alguém precisa originar, estruturar e garantir essas operações.

A conta e o caixa

A leitura é desconfortável e útil ao mesmo tempo. Saneamento e agronegócio – setores com tarifa, contrato e recebível – captaram sozinhos cerca de R$ 90 bi no mercado de capitais em 2025. Já a adaptação que não gera receita própria (contenção de encostas, macrodrenagem, parque inundável) depende quase toda de crédito subsidiado e orçamento. A diferença não é falta de dinheiro: é falta de fluxo de caixa contratado para dar lastro ao financiamento.

O que é, afinal, um financiamento verde

É crédito ou título de dívida cujo uso dos recursos está contratualmente vinculado a um benefício ambiental verificável – ou, na variante sustainability-linked, cuja taxa varia conforme o tomador cumpra metas ambientais. Não é uma classe de risco à parte: a análise de crédito é a de sempre. O que muda é a camada de elegibilidade (o projeto se enquadra na finalidade?), verificação (parecer de segunda opinião, o SPO) e reporte de indicadores ao longo de toda a vida da operação. Aí mora o custo de estruturação – e também o desconto na taxa.

O mercado brasileiro já tem escala: até junho de 2025, a Climate Bonds Initiative registrava US$ 67,8 bi em títulos rotulados verdes, sociais e sustentáveis emitidos no país, com 152 emissores e preferência por moeda local. Somos o maior emissor de títulos verdes da América Latina.

Os instrumentos, na prática

Taxas praticadas hoje

Título e subtítulo do gráfico de barras mostrando prejuízos dos municípios em 2024 e volumes de financiamento em 2025
A conta e o caixa R$ bilhões – perdas declaradas (2024) e volumes do financiamento verde (2025)

% ao ano – juro nominal e juro real (acima do IPCA), agosto de 2026

Taxas de crédito rural e do Fundo Clima variam por linha, finalidade e porte do tomador; confirme as condições vigentes antes de modelar. Fontes: BNDES; Mapa (Plano Safra 2026/27); Tesouro Nacional; Banco Central (Copom de 5/8/2026); mercado secundário de debêntures.

Quem opera – e com quanto

O Fundo Clima, gerido pelo BNDES com recursos do Fundo Nacional sobre Mudança do Clima, virou o eixo do sistema. Em 2025 aprovou R$ 12,5 bi em novos projetos e contratou R$ 8,9 bi (+45%). As aprovações voltadas especificamente à adaptação saltaram de R$ 547 milhões em 2024 para R$ 2,4 bi em 2025, e o orçamento de 2026 é o maior da série: R$ 27,5 bi. A captação externa que lastreia o fundo custa 6,15% a.a. em dólar – é ela que limita o subsídio possível na ponta.

O Eco Invest Brasil, da Fazenda com o MMA, ataca o risco cambial que afasta o capital estrangeiro: fechou 2025 com R$ 75 bi mobilizados, R$ 46 bi captados no exterior, e alavancagem média de 4,3 reais privados por real público. Juntos, os dois mobilizaram R$ 179 bi desde 2023. Para o município que quer obra, porém, o caminho mais direto segue sendo o crédito externo com aval da União: só em agosto o Senado autorizou 16 operações somando cerca de US$ 1,8 bilhão – entre elas US$ 204 milhões do BID para Belo Horizonte conter inundações e US$ 496,6 milhões para eletrificar a frota de ônibus de São Paulo.

O agro entra pela mesma porta

A adaptação climática não é pauta só de prefeitura. O Plano Safra 2026/27 trouxe R$ 525,1 bilhões, e as menores taxas do plano foram reservadas justamente às linhas ambientais: 8,5% a.a. no RenovAgro Ambiental e na recuperação ou conversão de pastagens, contra 12,5% do custeio empresarial. Mais relevante como sinal de mercado: produtores com CAR regularizado ganham até 0,5 ponto percentual de desconto no custeio, e outros 0,5 ponto quem adota práticas sustentáveis ou certificações ambientais reconhecidas – até 1 ponto de redução para quem combina as duas condições. Conformidade socioambiental virou preço, não discurso.

No BNDES, a modalidade Florestas Nativas e Recursos Hídricos do Fundo Clima é a porta para restauração, manejo e segurança hídrica: as aprovações saíram de R$ 105 milhões em 2024 para R$ 726 mi até outubro de 2025. E o mercado de capitais faz o resto: os CRAs captaram R$ 46,2 bi em 2025, com isenção de IR para a pessoa física e prazos de 3 a 10 anos – hoje o instrumento mais líquido para levar dinheiro privado à irrigação, à armazenagem e à recuperação de solo.

As garantias: onde a operação passa ou trava

Tabela resumindo características dos principais instrumentos de financiamento climático
Tabela comparativa de instrumentos financeiros climáticos mostrando: Crédito externo multilateral (BID, BIRD, CAF, NDB) - Municípios, estados e bancos de desenvolvimento - Garantia da União + contragarantia do ente (FPM/ICMS) - Carência de 6 anos, amortização de até 18,5 anos - SOFR + captação + spread; Blended finance – Eco Invest Brasil - Bancos e gestoras que repassam a projetos - Capital catalítico em first loss + hedge cambial do Tesouro/BID - Definido em leilão - Abaixo do mercado, por desenho; Títulos soberanos sustentáveis - Tesouro Nacional (funding que abastece o Fundo Clima) - Risco soberano - 7 a 10 anos - 5,75% a.a. (2033) · 6,20% a.a. (2035)

É aqui que a maioria dos projetos morre. Para o ente público, a exigência é fiscal antes de técnica: CAPAG A ou B no Tesouro Nacional, espaço no limite de endividamento, deferimento do Pedido de Verificação de Limites e contragarantia vinculando FPM, ICMS ou receitas próprias – desde janeiro de 2026, entes com CAPAG "B" recebem garantia da União de 80% do contrato. Para o tomador privado, vale o pacote clássico: alienação fiduciária de ativos, cessão fiduciária de recebíveis, penhor da safra, hipoteca rural, fiança e aval – com o FGI do BNDES complementando garantias de empresas menores. O mecanismo mais novo é o capital catalítico: recurso público assumindo a primeira perda para viabilizar a tranche privada. A resposta curta: paga quem tem receita contratada. Onde ela não existe, paga o contribuinte – hoje via prejuízo, amanhã via prevenção.

Onde há tarifa, contraprestação de PPP ou recebível agrícola, o mercado de capitais entra com prazo longo e sem limite de funding – foram R$ 838,8 bilhões em ofertas em 2025. Onde não há, a saída é combinar crédito subsidiado, garantia soberana e instrumentos urbanísticos: outorga onerosa, CEPAC, IPTU verde.

ONDE ESTÃO AS OPORTUNIDADES EM 2026 • Estruturação de projeto. Sobra funding e falta portfólio bancável. Viabilidade, matriz de risco e modelagem financeira são o produto mais escasso da cadeia. • Enquadramento e verificação. Elegibilidade no Fundo Clima, SPO, taxonomia e reporte de indicadores viraram serviço recorrente, não custo de emissão.

• Regularidade ambiental no campo. CAR em dia e certificação reconhecida valem até 1 ponto percentual de desconto no custeio – retorno direto e mensurável. • Saúde fiscal municipal. Recuperar a CAPAG destrava crédito subsidiado com aval da União.

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