Planta de biometano de R$ 450 milhões aproveita biogás do aterro da Orizon em Paulínia

Aproveitamento do biogás de aterros sanitários amplia as possibilidades de geração de combustível renovável, agrega valor à gestão de resíduos e contribui para a redução das emissões de gases de efeito estufa
O aproveitamento energético dos resíduos sólidos urbanos vem ampliando as possibilidades de produção de combustíveis renováveis no Brasil. A transformação do biogás gerado em aterros sanitários em biometano representa uma alternativa para agregar valor à destinação de resíduos e diversificar a oferta de energia, com potencial de contribuir para a descarbonização de atividades industriais e de transporte.
Um dos exemplos desse movimento está em Paulínia, no interior de São Paulo, onde a planta OneBio processa o biogás captado no Ecoparque da Orizon para produzir biometano. A instalação recebe o gás resultante da decomposição dos resíduos e realiza sua purificação para que possa ser injetado na rede de distribuição, ampliando seu aproveitamento como combustível renovável.
De acordo com informações divulgadas pela Associação Brasileira de Resíduos e Meio Ambiente (Abrema), o ecoparque recebe aproximadamente 4,5 mil toneladas de resíduos por dia, provenientes de mais de 26 municípios da região, que reúnem uma população superior a 3 milhões de habitantes.
A OneBio tem capacidade nominal de produção de até 225 mil metros cúbicos de biometano por dia. O empreendimento recebeu investimento de R$ 450 milhões, com financiamento do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), incluindo R$ 359,8 milhões provenientes do Fundo Clima.
Segundo os dados divulgados pela Abrema, a operação tem potencial para evitar a emissão de mais de 100 mil toneladas de dióxido de carbono equivalente (CO₂e) por ano.
O modelo de operação divide as responsabilidades entre as empresas envolvidas. A Orizon realiza a operação do aterro sanitário e a captação do biogás, enquanto a OneBio responde pelo processo de purificação, pela produção e pela comercialização do biometano.
O combustível resultante apresenta características que permitem sua utilização em aplicações semelhantes às do gás natural, desde que atendidas as especificações técnicas e regulatórias aplicáveis. Essa possibilidade favorece sua utilização como alternativa energética em diferentes segmentos econômicos.
Da destinação de resíduos à economia circular
A produção de biometano integra uma estratégia mais ampla de valorização dos resíduos sólidos. Nesse modelo, materiais e subprodutos que antes representavam principalmente custos operacionais passam a ser considerados recursos com potencial de aproveitamento econômico e energético.
No Ecoparque de Paulínia, essa abordagem também inclui a comercialização de créditos de carbono e o aproveitamento do lodo resultante do tratamento do chorume para a produção de biofertilizante orgânico. Segundo a Abrema, a atividade desenvolvida em parceria com a Tera Ambiental alcança cerca de 1,6 mil toneladas de biofertilizante por mês, destinadas ao mercado agrícola.
A integração dessas iniciativas demonstra como diferentes etapas da gestão de resíduos podem contribuir para a recuperação de recursos, a geração de novos produtos e a diversificação das fontes de receita.
A viabilidade econômica, entretanto, depende de condições operacionais específicas. Conforme informações divulgadas pela associação, um aterro pode precisar de dois a quatro anos de recebimento de resíduos para acumular biogás em volume suficiente para justificar a implantação de uma unidade de produção de biometano em escala comercial.
O volume de resíduos urbanos gerados no país indica oportunidades para ampliar o aproveitamento energético do biogás. Segundo dados do Panorama dos Resíduos Sólidos no Brasil 2024, citados pela Abrema, o Brasil gera aproximadamente 81 milhões de toneladas de resíduos sólidos urbanos por ano, dos quais 58,5% são destinados a aterros sanitários.
Estudos da entidade apontam que o encaminhamento dos resíduos de municípios com mais de 320 mil habitantes para aterros equipados com plantas de produção de biometano permitiria alcançar uma produção estimada de 2,86 milhões de metros cúbicos do combustível por dia.
O aproveitamento desse potencial, porém, exige infraestrutura adequada para captação e tratamento do biogás, investimentos em unidades de purificação, conexão com redes de distribuição ou soluções alternativas de transporte, além de segurança regulatória e contratos que sustentem a comercialização do combustível.
A Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP) estabelece requisitos de qualidade para o biometano e regulamenta aspectos de sua comercialização. O atendimento a essas exigências é fundamental para garantir que o combustível possa ser utilizado nas aplicações previstas.
Desafios para a transição energética
Embora a produção de biometano ofereça oportunidades para reduzir emissões e aproveitar recursos disponíveis nos aterros sanitários, sua expansão depende de planejamento de longo prazo e de avaliação das condições econômicas, ambientais e logísticas de cada empreendimento.
A recuperação energética do biogás não substitui a necessidade de reduzir a geração de resíduos, ampliar a coleta seletiva, promover a reciclagem e melhorar a gestão dos materiais descartados. Essas medidas permanecem essenciais para o avanço da economia circular e para a redução dos impactos ambientais associados aos resíduos sólidos urbanos.
Nesse contexto, o biometano pode desempenhar um papel complementar na transição energética brasileira, conectando a gestão de resíduos à produção de combustíveis renováveis. A expansão dessa cadeia dependerá da capacidade de transformar o potencial disponível em projetos economicamente viáveis, com controle ambiental e benefícios mensuráveis para a sociedade.












