Brasil precisa investir R$ 223 bilhões para atingir universalização

O Brasil necessita de um investimento de R$ 223,3 bilhões até 2033 para universalizar a drenagem urbana, o que representa o dobro do valor atualmente investido anualmente.
Segundo dados do Instituto Trata Brasil, elaborado com base em estimativas do Ministério do Desenvolvimento Regional (MDR), o Brasil precisa investir R$ 223,3 bilhões em drenagem urbana até 2033 para alcançar a universalização do serviço, O montante equivale a uma necessidade média de R$ 22,3 bilhões anuais, mais que o dobro dos cerca de R$ 10 bilhões anuais investidos, em média, entre 2017 e 2023.
O tema ganhou destaque em entrevista com Paulo Ziulkoski, presidente da Confederação Nacional de Municípios (CNM), publicada pelo Boletim do Saneamento, iniciativa que reúne a Associação Paulista de Empresas de Consultoria e Serviços em Saneamento e Meio Ambiente (APECS), a Associação Brasileira de Consultores de Engenharia (ABCE) e o Sindicato Nacional das Empresas de Arquitetura e Engenharia Consultiva (Sinaenco), com o objetivo de contribuir para a implantação do Novo Marco Legal do Saneamento. O executivo abordou os principais obstáculos enfrentados pelas cidades brasileiras para cumprir as metas de universalização e destacou a necessidade de tratar a drenagem urbana como uma política estruturante. Na avaliação apresentada ao Boletim, o segmento permanece em posição secundária em relação aos demais componentes do saneamento, apesar dos impactos cada vez mais evidentes de alagamentos, enxurradas e outros eventos extremos sobre a população e a infraestrutura urbana.
“Drenagem urbana precisa deixar de ser tratada apenas como uma resposta emergencial aos períodos de chuva e passar a integrar uma estratégia permanente de planejamento e resiliência. Isso envolve recursos para obras, mas também capacidade técnica, manutenção dos sistemas, ordenamento territorial e soluções que considerem as características de cada município”, afirma Ricardo Lazzari Mendes, presidente da APECS Brasil. O planejamento precisa considerar não apenas a expansão física dos sistemas, mas também a manutenção, a capacidade técnica dos municípios e a adaptação das estruturas diante de eventos climáticos cada vez mais severos. Os eventos climáticos extremos evidenciam as consequências da infraestrutura insuficiente. As enchentes que atingiram o Rio Grande do Sul em 2024, por exemplo, deixaram 183 mortos, afetando cerca de 2,4 milhões de pessoas e provocando prejuízos econômicos estimados na casa dos bilhões de reais, segundo a Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico (ANA). Isso mostra como sistemas de drenagem, planejamento urbano, defesa civil e saneamento precisam ser considerados de forma integrada na preparação das cidades para situações de emergência.
Para a APECS, a incorporação da resiliência climática ao saneamento também exige uma mudança na forma como os projetos são planejados e financiados. Além da ampliação de galerias, canais e estruturas convencionais, medidas como parques lineares, bacias de amortecimento, pavimentos permeáveis e jardins de chuva podem contribuir para retenção e infiltração da água. A combinação entre infraestrutura convencional e soluções baseadas na natureza pode reduzir a pressão sobre os sistemas de drenagem e ampliar a capacidade de resposta das cidades. Outro ponto é o fortalecimento da capacidade técnica dos municípios, especialmente os de menor porte, que muitas vezes enfrentam limitações para estruturar projetos, acompanhar indicadores, fiscalizar contratos e planejar investimentos de longo prazo. “A universalização do saneamento não pode ser dissociada da capacidade das cidades de manter seus serviços funcionando diante de secas, chuvas intensas e outros eventos extremos. Para isso, precisamos combinar planejamento, investimentos, qualificação técnica e integração entre saneamento, recursos hídricos, defesa civil e desenvolvimento urbano”, conclui Lazzari Mendes.
