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ABASTECIMENTO

Cagece autoriza início das obras da Dessal do Ceará, maior planta de dessalinização do Brasil

Cagece autoriza início das obras da Dessal do Ceará, maior planta de dessalinização do Brasil

Empreendimento estruturado em PPP de R$ 3,1 bilhões terá capacidade de mil litros por segundo e deve abastecer cerca de 720 mil pessoas na Região Metropolitana de Fortaleza. As obras começam após quase cinco anos de disputa em torno dos cabos submarinos de fibra óptica da Praia do Futuro.

A Companhia de Água e Esgoto do Ceará (Cagece) realizou, nesta quinta-feira (16), a cerimônia de assinatura do termo de autorização para o início das obras da Dessal do Ceará. O ato marca o começo da execução de um dos mais relevantes projetos de infraestrutura hídrica do país, conduzido pela SPE Águas de Fortaleza, formada por Marquise Infraestrutura, PB Construções S.A. e Abengoa Água S.A., em parceria com a Cagece. Ao longo da implantação, o empreendimento deverá gerar cerca de 600 empregos diretos.

Com capacidade projetada de 1 m³ por segundo, equivalente a mil litros de água dessalinizada por segundo, ou cerca de 86 milhões de litros por dia, a usina será a maior planta de dessalinização de água do mar já implantada no Brasil. A produção será suficiente para abastecer aproximadamente 720 mil habitantes da Região Metropolitana de Fortaleza, ampliando em torno de 12% a oferta de água da região e reforçando a segurança hídrica de um dos principais centros urbanos do Nordeste. A planta utiliza tecnologia de osmose reversa, e funcionará sob demanda: operará em capacidade total apenas nos períodos de escassez, com a Cagece pagando pela produção conforme os níveis dos açudes de abastecimento.

Com a autorização formalizada, as atividades começam imediatamente. A etapa inicial compreende os serviços de industrialização da tubulação, execução da adutora, execução de drenagem e construção de nova areninha. A execução da planta terá início após a conclusão dessas etapas, cujo conjunto deverá ser concluído em um prazo estimado de cinco meses.

Cinco anos de impasse com os cabos submarinos

A ordem para o início das obras encerra um dos capítulos mais longos do projeto. Concebida ainda em 2015, no auge de uma seca severa, como aposta de diversificação da matriz hídrica cearense, a Dessal enfrentou quase cinco anos de entraves ligados à sua localização. No desenho original, a planta seria erguida em um trecho da Praia do Futuro a poucos metros do conjunto de cabos submarinos de fibra óptica que faz de Fortaleza um dos maiores hubs de conectividade do mundo. São 16 a 17 cabos que ligam o Brasil às Américas Central e do Norte, à Europa e à África e que, segundo a Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel), respondem por mais de 90% do processamento de dados de toda a América do Sul.

A estrutura de captação, no projeto inicial, ficava a apenas 40 metros dos cabos. A Cagece chegou a ampliar essa distância para 500 metros, mas a Anatel considerou o afastamento insuficiente, apontando risco de erosão e de perturbação da sedimentação do fundo do mar durante a instalação das tubulações de captação e do emissário. Em dezembro de 2023, a agência recomendou formalmente a transferência da usina. Com parecer contrário da Anatel, apoio do Ministério das Comunicações às operadoras e risco de judicialização, o Governo do Ceará optou por deslocar todo o empreendimento.

O novo terreno, apresentado em reunião no Palácio do Planalto, em Brasília, ficou a cerca de 1 km do local inicialmente planejado, ainda na Praia do Futuro, com as distâncias das estruturas de captação e emissão alinhadas às diretrizes do ICPC (International Cable Protection Committee), comitê internacional de proteção de cabos submarinos. A realocação teve custo estimado, à época, em até R$ 201,5 milhões adicionais. Em contrapartida, o terreno originalmente destinado à usina será convertido em um Centro de Tecnologia, que pretende aproveitar a densidade de redes de dados e data centers da região para atrair empresas do setor, incubar startups e qualificar mão de obra. A solução foi celebrada pelo setor de telecomunicações, com manifestações favoráveis da Anatel e das entidades Conexis Brasil Digital e TelComp, e ainda motivou o estudo, no país, de zonas de proteção de cabos submarinos nos moldes de Austrália e Nova Zelândia.

No plano regulatório, o projeto obteve a Licença Prévia em 2023 e a Licença de Instalação (LI) em setembro de 2025, concedida pela Superintendência Estadual do Meio Ambiente (Semace). Em dezembro de 2025, a Superintendência do Patrimônio da União (SPU) formalizou a cessão do terreno, uma área de quase 90 mil metros quadrados avaliada em torno de R$ 31 milhões, um dos últimos trâmites legais antes do início das obras. Durante o licenciamento, a SPE Águas de Fortaleza promoveu os aprimoramentos técnicos que asseguraram plena compatibilidade com a infraestrutura de cabos submarinos existente na região.

Segundo a CEO do Grupo Marquise, Carla Pontes, o início das obras da Dessal do Ceará simboliza um avanço importante para a segurança hídrica do Estado e reforça a capacidade de articulação entre poder público e iniciativa privada em torno de projetos estruturantes. “Para o Grupo Marquise, é motivo de orgulho integrar esse empreendimento ao lado da Cagece e dos parceiros da SPE Águas de Fortaleza, contribuindo para uma infraestrutura que ampliará a oferta de água e apoiará o desenvolvimento sustentável do Ceará. Nosso compromisso é entregar um legado que beneficie a população por muitas décadas.”

PPP de R$ 3,1 bilhões

O empreendimento é estruturado como Parceria Público-Privada (PPP), com concessão de 30 anos. O contrato firmado com a concessionária Águas de Fortaleza tem valor total estimado em R$ 3,1 bilhões, que englobam investimento, operação, manutenção e o fornecimento de água potável aos reservatórios do Mucuripe e da Praça da Imprensa. A construção da planta, isoladamente, foi estimada em cerca de R$ 518,6 milhões. No modelo contratual, a Cagece custeia a produção e define o volume necessário, que varia conforme os níveis dos açudes, de forma que a usina reforça o abastecimento sobretudo nos períodos de estiagem.

De acordo com o diretor da Marquise Infraestrutura, Renan Carvalho, o empreendimento inaugura uma nova referência para a engenharia hídrica nacional. “Do ponto de vista da engenharia de grande porte, a Dessal do Ceará estabelece um novo paradigma para a infraestrutura hídrica do país. A usina foi concebida com elevada eficiência tecnológica e escala industrial, características que a tornam a maior planta atualmente em funcionamento no Brasil e a maior da América Latina destinada ao consumo humano. Estamos empregando as soluções mais modernas em dessalinização de água do mar para entregar uma obra com excelência técnica, rigor operacional e durabilidade para as próximas gerações.”

Renan Carvalho destaca ainda que o projeto possui significado especial para a trajetória da Marquise Infraestrutura. “Para nós, este é um momento histórico. Participamos de grandes projetos estruturantes, como a Transnordestina, o Porto do Pecém e o Eixão das Águas, mas a Dessal tem um significado singular por seu impacto direto na qualidade de vida da população. É motivo de grande orgulho sermos uma empresa cearense à frente de um empreendimento de vanguarda que contribuirá para a segurança hídrica do Estado pelas próximas décadas.”

Desafios e cronograma

Com previsão de entrada em operação entre 2027 e 2028, a Dessal do Ceará é apontada como possível referência para outras regiões do país que convivem com a escassez hídrica. O modelo, no entanto, carrega desafios reconhecidos internacionalmente para a dessalinização de água do mar, entre eles o alto consumo de energia, o custo elevado de operação e a destinação ambientalmente adequada da salmoura, o concentrado salino resultante do processo, devolvido ao oceano.

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