AMAZÔNIA

Christiane Taubira diz que comunidades precisam ser ouvidas

Christiane Taubira diz que comunidades precisam ser ouvidas

Taubira criticou as instituições multilaterais que, segundo ela, tratam a floresta como um espaço vazio durante a 8ª Conferência FAPESP, realizada dia 20 de outubro, com o tema “A Amazônia Contemporânea e os Desafios da Justiça Social.

A economista e ex-ministra da Justiça da França Christiane Taubira propõe uma abordagem centrada na justiça social para pensar a Amazônia no atual cenário mundial marcado por tensões crescentes e pelo enfraquecimento de instituições multilaterais como a Organização das Nações Unidas (ONU). Taubira criticou as instituições multilaterais que, segundo ela, tratam a floresta como um espaço vazio durante a 8ª Conferência FAPESP, realizada dia 20 de outubro, com o tema “A Amazônia Contemporânea e os Desafios da Justiça Social”. “A Amazônia é plural. É uma grande entidade geográfica, fragmentada em nove histórias nacionais diferentes. A floresta não é apenas uma paisagem natural, mas um espaço de vida, cultura e história. Existem vidas nas Amazônias, cidades muito modernas, que ainda preservam tradições”, afirmou Taubira.

“Fala-se em proteger ‘o pulmão do mundo’, mas as Nações Unidas pensam em proteger a Amazônia como se fosse um lugar deserto, ignorando que há vidas e modos de existência enraizados ali”, completou. Taubira, que é amazônida, destacou uma frase atribuída a Nelson Mandela: "O que vocês fazem por nós sem nós, vocês fazem contra nós". E relembrou uma de suas primeiras lutas, ainda como militante em Caiena, na Guiana Francesa. Ela participava da Rio 92, quando ficou sabendo da intenção de o governo francês criar um parque que abrangeria 40% do território da Guiana Francesa. “Lutei para que não fosse chamado de parque nacional, como são chamados os parques da França, onde não há ninguém vivendo dentro deles. Eu estava preocupada com a preservação ao mesmo tempo que se respeitassem os modos de vida das pessoas que viviam naquele ambiente”, contou.

Anos mais tarde, quando já era deputada e morava na França, o parque foi criado com o nome de Parque Amazônico da Guiana. Com uma trajetória política de 19 anos no parlamento francês e cinco no europeu, Taubira se destacou pela aprovação de leis que reconhecem a escravidão como crime contra a humanidade, proíbem minas terrestres e responsabilizam os testes nucleares franceses. Entre 2012 e 2016, ela atuou como ministra da Justiça no governo de François Hollande e liderou reformas importantes, como a legalização do casamento entre pessoas do mesmo sexo e o fortalecimento do combate à corrupção.

A conexão de Taubira com o Brasil se aprofundou neste ano, ao ocupar a 12ª Cátedra José Bonifácio da Universidade de São Paulo (USP). Na cátedra, ela está desenvolvendo a pesquisa “Sociedades amazônicas: Realidades plurais, um destino comum?”, que deu origem ao livro “Amazônias: Espaço Vivo, Social, Político”, lançado nesta semana. A obra é coordenada por Taubira, organizada por Camila Perruso e Djamila Delannon e conta com contribuições da antropóloga Manuela Carneiro da Cunha, do advogado Pedro Dallari, do ex-primeiro ministro da França Laurent Fabius, da historiadora franco-tunisiana Sophie Bessis e do antropologo indígena Almires Martins Machado. O livro será apresentado na COP30, com a intenção de contribuir para dar visibilidade aos povos da região durante a reunião multilateral.

Para Taubira, as estruturas de poder globais parecem estar desconectadas da realidade atual. “A governança multilateral que temos hoje é um reflexo do mundo pós-Segunda Guerra, um clube de aproximadamente 60 países em um cenário de impérios. O mundo de hoje, com suas 195 nações, tornou essa arquitetura impotente e incapaz de assegurar uma ordem mundial", disse. A ex-deputada, que também é poeta, defende a poesia como uma forma de ouvir o outro, ouvir a todos. “Quando o debate político se torna áspero, é a poesia que nos permite compreender o outro e fazer a justiça social. A poesia nos convida a ir constantemente em direção ao outro e a reconhecer que o outro carrega um pouco de nós”. Nessa inconsistência do multilateralismo, ela também defende a importância da língua, “que é mais do que meras palavras, é o imaginário, uma forma de dizer o mundo”. A palestra “A Amazônia Contemporânea e os Desafios da Justiça Social” pode ser vista em https://youtu.be/fVwsTBQYH6U.

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