RESILIÊNCIA CLIMÁTICA

Cidades precisam integrar natureza, planejamento e governança

Cidades precisam integrar natureza, planejamento e governança

Especialistas discutem a necessidade de integrar natureza, planejamento e governança para tornar as cidades brasileiras mais resilientes às mudanças climáticas e suas consequências sociais.

Debate promovido pela Saneamento Ambiental reúne especialistas na UMAPAZ para discutir os desafios das cidades brasileiras diante das mudanças climáticas

As cidades brasileiras estão diante de um desafio que ultrapassa os limites das políticas ambientais: preparar seus territórios para eventos climáticos cada vez mais frequentes e intensos, sem perder de vista as desigualdades sociais, o planejamento urbano, a infraestrutura e a qualidade de vida da população. Foi a partir dessa perspectiva que, no dia 17 de agosto, a Revista Saneamento Ambiental promoveu o debate “Resiliência Climática Urbana e Soluções Baseadas na Natureza”, na unidade da UMAPAZ – Universidade Aberta do Meio Ambiente e Cultura de Paz, em São Paulo.

O encontro reuniu integrantes do Conselho Editorial e especialistas de diferentes áreas para uma discussão técnica e multidisciplinar sobre os desafios, as experiências e as oportunidades para tornar as cidades brasileiras mais resilientes. Participaram Raul dos Santos Azevedo, engenheiro agrônomo e educador da Divisão da Escola Municipal de Jardinagem da UMAPAZ; Carlos Eduardo Nakao Inouye, engenheiro ambiental e gerente de Recursos Hídricos da Tetra Tech; Rozely Ferreira dos Santos, bióloga, professora da USP e da Unicamp; Alejandra Maria Devecchi, doutora em Planejamento Urbano e Regional; Camila Guerreiro Reis, arquiteta e urbanista e sócia da Natureza Urbana; Adriana Blay Levisky, arquiteta e urbanista; e Alexandra Aguiar Pedro, arquiteta e urbanista, mestre em Geografia Física e integrante da Secretaria do Verde e do Meio Ambiente de São Paulo.

A proposta do debate, que contou com a moderação de Eugenio Singer, conselheiro da Saneamento Ambiental, foi discutir o atual estágio da resiliência climática nas cidades brasileiras e identificar caminhos capazes de aproximar conhecimento técnico, políticas públicas, participação social e soluções aplicáveis ao território. As reflexões servirão de base para uma reportagem especial da edição de setembro de 2026 da Revista Saneamento Ambiental, que aprofundará o tema e buscará traduzir conceitos técnicos para gestores públicos, empresas, pesquisadores e profissionais do setor.

Um dos principais pontos levantados durante o encontro foi que a resiliência climática não pode ser tratada de forma isolada por uma única secretaria, setor ou área do conhecimento. Para os especialistas, é necessário superar a fragmentação tradicional do planejamento urbano e compreender a cidade como um território integrado, no qual questões ambientais, sociais, econômicas, habitacionais, de mobilidade, infraestrutura e saneamento estão diretamente relacionadas.

A expansão urbana desordenada, a ocupação de áreas vulneráveis, a impermeabilização do solo e a distância entre moradia e emprego foram apontados como fatores que ampliam a vulnerabilidade. Nesse contexto, planejamento urbano e política habitacional precisam caminhar conjuntamente com as estratégias de adaptação climática.

Outro aspecto destacado foi a necessidade de mudar a escala de planejamento. Em vez de considerar apenas limites administrativos, os participantes defenderam uma visão territorial baseada nos processos naturais, especialmente nas bacias hidrográficas. A gestão das águas, da drenagem, da vegetação e dos espaços urbanos, portanto, exige articulação entre diferentes municípios, secretarias e níveis de governo.

Para os especialistas, o Brasil vive um momento de transição. As cidades já reconhecem os impactos das mudanças climáticas e algumas iniciativas de adaptação estão em andamento, mas a velocidade das ações ainda é inferior à dimensão dos desafios. Além disso, a percepção da sociedade sobre o valor das soluções ambientais e sua relação direta com a qualidade de vida ainda precisa avançar.

Soluções baseadas na natureza

As Soluções Baseadas na Natureza (SbN) apareceram como um dos principais caminhos discutidos durante o encontro. Mais do que iniciativas pontuais de paisagismo ou recuperação ambiental, as SbN podem contribuir para o funcionamento das cidades ao utilizar processos naturais para enfrentar problemas urbanos.

Entre os exemplos citados estão jardins de chuva, telhados verdes, recuperação de nascentes e matas ciliares, ampliação das áreas permeáveis, corredores ecológicos, recomposição de ambientes naturais e criação de espaços públicos associados à recuperação de cursos d’água.

A chamada “cidade-esponja” também foi mencionada como conceito capaz de orientar novas estratégias para retenção e infiltração das águas pluviais. A ideia é substituir, sempre que possível, a lógica de simplesmente afastar a água rapidamente por soluções que permitam absorver, armazenar e conduzir a água de maneira mais integrada ao território.

Experiências realizadas em diferentes regiões de São Paulo demonstram que a transformação pode envolver, simultaneamente, recuperação ambiental, lazer, educação e participação comunitária. Um dos exemplos discutidos foi a recuperação de áreas associadas a cursos d’água em regiões periféricas, mostrando que projetos ambientais podem também contribuir para fortalecer a identidade e o conhecimento da comunidade sobre o próprio território.


Tecnologia ajuda, mas não resolve

A tecnologia foi apontada como uma importante aliada da adaptação climática. O uso integrado de dados históricos, sensores, sistemas de monitoramento, inteligência artificial e ferramentas de geoprocessamento pode ampliar a capacidade de compreender riscos, antecipar eventos e apoiar decisões.

Durante o debate, os especialistas destacaram também o potencial dos gêmeos digitais, que permitem reproduzir virtualmente determinadas condições do território e acompanhar, em ambiente digital, alterações que ocorrem no mundo real. A tecnologia pode contribuir para simulações, planejamento, monitoramento de infraestrutura e avaliação de diferentes cenários.

Entretanto, ficou evidente que a tecnologia, por si só, não resolve os problemas. É necessário integrar dados, conhecimento técnico e capacidade de gestão. A inteligência artificial e as novas ferramentas digitais devem estar associadas a profissionais qualificados e a sistemas de governança capazes de transformar informação em decisão.

Se existe um elemento transversal às diferentes soluções discutidas, é a governança. A falta de integração entre órgãos públicos, setores e políticas foi apontada como uma das principais barreiras para a implementação de estratégias de resiliência.

A proposta é avançar de uma lógica predominantemente setorial para uma estrutura de trabalho integrada, na qual diferentes secretarias compartilhem responsabilidades e objetivos. Educação, infraestrutura, meio ambiente, habitação, mobilidade, saneamento e planejamento urbano precisam atuar de maneira articulada.

A participação da sociedade também foi considerada indispensável. Comunicação, educação ambiental e acesso à informação são instrumentos para ampliar a percepção sobre os riscos climáticos e fortalecer o envolvimento das comunidades nas decisões que impactam seus territórios.

Os caminhos a seguir

Ao final do encontro, os participantes foram convidados a apontar prioridades para tornar as cidades brasileiras mais resilientes até 2035. Entre os caminhos destacados estiveram a integração entre diferentes áreas do poder público e da sociedade, o planejamento a partir do território e das bacias hidrográficas, a formação de redes de conhecimento, a recuperação de rios, nascentes e matas ciliares, a gestão adequada dos resíduos sólidos, a ampliação de áreas verdes e a adoção de uma nova relação com a água.

Mais do que uma lista de soluções, o debate revelou a necessidade de uma mudança de perspectiva: a natureza precisa deixar de ser considerada apenas um elemento externo à cidade e passar a ser compreendida como parte de sua infraestrutura e de sua capacidade de adaptação.

A resiliência climática, nesse sentido, não depende apenas de grandes obras ou tecnologias sofisticadas. Ela também passa por decisões cotidianas de planejamento, pela recuperação de áreas naturais, pela qualificação dos espaços urbanos, pela participação da população e, sobretudo, pela capacidade de diferentes setores trabalharem conjuntamente.

Esse é apenas um recorte das discussões realizadas na UMAPAZ. Na edição de setembro de 2026 da Revista Saneamento Ambiental, uma reportagem especial apresentará os principais conceitos, experiências e propostas debatidos pelos especialistas, aprofundando a discussão sobre como transformar conhecimento em ações concretas para cidades mais preparadas para o futuro. (Por Luana Oliveira)

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