ARTIGO

Com tecnologias, Brasil poderia transformar mais lixo em energia

Por Francisco Oliveira *

A reciclagem energética, que consiste na transformação de resíduos sólidos (inclusive os não-recicláveis e orgânicos) em fontes de energias renováveis térmica e elétrica, tem sido cada vez mais utilizada em diversos países. Neste processo, os resíduos são queimados em um forno industrial em alta temperatura, fazendo com que os gases quentes sejam aspirados para uma caldeira de recuperação, onde é produzido vapor - que aciona o gerador. Em muitos casos, substitui a energia dos derivados do petróleo e gera menos gases do efeito estufa, associados ao aquecimento global. 

Porém, a queima do lixo no Brasil ainda não é vista como uma prática correta e limpa, pois, em tese, libera gases poluentes durante a operação - um equívoco muito grande porque tecnologias disponíveis, já há alguns anos, permitem o controle dessas emissões atmosféricas. E, diferentemente da incineração, garante uma ação extremamente segura para o meio ambiente, durante e depois da queima. 

Além dessa visão deturpada quanto à prática, a falta de investimentos, sejam eles de iniciativas privadas ou parcerias público-privadas (PPP), em tecnologias para a criação dessas usinas, é algo que preocupa e atrasa o sistema de reciclagem dos resíduos, impossibilitando a obtenção de grandes ganhos ambientais e sociais e a geração de riquezas por meio de um destino muito mais nobre, em vez do envio para os lixões - uma realidade triste e muito preocupante em nosso país. 

Segundo dados da Associação Nacional dos Consumidores de Energia (ANACE), o Brasil tem potencial de gerar cerca de 3% da demanda nacional por eletricidade por meio da reciclagem energética. Mas, infelizmente, essa prática é quase inexplorada no país, fazendo com que deixemos de aproveitar uma fonte ambientalmente sustentável e praticamente permanente. Já de acordo com a Associação Brasileira de Recuperação Energética de Resíduos (ABREN), a tecnologia tem potencial de atrair R$ 145 bilhões em investimentos nos próximos 10 anos. As informações ainda revelam que, se uma fatia de 35% de todo o lixo descartado no País fosse destinada à geração de energia, o Brasil poderia produzir 1.300 GWh/mês. 

Enquanto isso, quase 2.500 usinas do tipo operam no mundo, sendo a China a maior produtora de energia térmica a partir do lixo, com 339 usinas e a Europa, com 522 em operação - a Alemanha, por exemplo, aboliu os aterros sanitários em função da reciclagem energética. 

As pessoas precisam entender que queimar não é destruir e, muito menos, ir contra a reciclagem. O grande desafio que enfrentamos é o equilíbrio econômico da cadeia de produtos, e o Brasil precisar agir, implementar tecnologias, investir e dar a devida atenção quanto ao descarte e destinação de resíduos. Falta conhecimento, investimento, responsabilidade ambiental e social. 


* Francisco Oliveira é Engenheiro civil e mestre em Mecânica dos Solos, Fundações, Geotecnia e sócio diretor da EPAL Engenheiros Associados

Artigos Relacionados

Cotia instala duas usinas que devem economizar quase R$ 400 mil por ano
ENERGIA SOLAR
Cotia instala duas usinas que devem economizar quase R$ 400 mil por ano

Nas duas primeiras usinas da região foram instalados 428 módulos fotovoltaicos, com previsão de geração média anual de aproximadamente 420 mil kWh.

12 de fevereiro, 2026
Governo de São Paulo prepara leilões bilionários
SANEAMENTO
Governo de São Paulo prepara leilões bilionários

Governo estrutura blocos regionais, promove roadshow internacional e aposta em parcerias para acelerar metas de cobertura de água e esgoto.

3 de fevereiro, 2026
São Paulo prorroga prazo para receber propostas de consulta pública
LOGÍSTICA REVERSA
São Paulo prorroga prazo para receber propostas de consulta pública

A iniciativa quer ampliar o diálogo com a sociedade e aperfeiçoar as regras que orientam a responsabilidade pelo retorno e a destinação correta de produtos e resíduos no Estado.

2 de fevereiro, 2026
Comissão aprova diretriz para modernização sustentável
MOBILIDADE URBANA
Comissão aprova diretriz para modernização sustentável

Com a mudança, a medida deixa de criar um programa federal e passa a funcionar como uma orientação geral para que os municípios, dentro de sua autonomia, busquem soluções sustentáveis.

17 de janeiro, 2026
Unipar investe R$ 1 bilhão em Cubatão para uma transição de baixo carbono
EFICIÊNCIA ENERGÉTICA
Unipar investe R$ 1 bilhão em Cubatão para uma transição de baixo carbono

Investimento reposiciona a Unipar entre as mais avançadas do mundo na produção de cloro e soda a partir de células de membrana.

16 de dezembro, 2025
Brasil reaproveita 12% dos resíduos sólidos para gerar energia limpa
RESÍDUOS
Brasil reaproveita 12% dos resíduos sólidos para gerar energia limpa

Em 2024, do total de resíduos gerados no Brasil, 11,7% foram reaproveitados para geração de insumos energéticos, o que mostra que o Brasil tem potencial para expandir exponencialmente a geração de energia limpa e renovável.

10 de dezembro, 2025
Projeto da UFSCar transforma resíduos orgânicos em energia renovável
TRANSIÇÃO ENERGÉTICA
Projeto da UFSCar transforma resíduos orgânicos em energia renovável

Os pesquisadores testam diferentes combinações de substratos, pré-tratamentos e condições operacionais para otimizar o rendimento do sistema.

8 de dezembro, 2025
Hydro apresenta projetos rumo à transição energética
COP 30
Hydro apresenta projetos rumo à transição energética

Entre os destaques esteve a inauguração do Banco da Paz, que chegou a Belém como um presente do Centro Nobel da Paz e de empresas norueguesas

27 de novembro, 2025