Indústria cervejeira aposta em eficiência hídrica

Fábrica da Heineken se destaca ao reduzir consumo e adotar práticas de reuso, reforçando a importância da gestão sustentável da água
A crescente pressão sobre os recursos hídricos tem levado grandes indústrias a repensarem seus processos produtivos — e o setor cervejeiro, altamente dependente de água, tornou-se um dos principais campos de inovação. O Grupo Heineken inaugurou em novembro de 2025, na cidade de Passos (MG), sua primeira fábrica construída do zero no Brasil (greenfield), com investimento de R$ 2,5 bilhões e capacidade para 5 milhões de hectolitros por ano. A unidade foi projetada como referência global do grupo em eficiência hídrica e sustentabilidade, demonstrando que desempenho industrial e gestão responsável da água podem caminhar de forma integrada.
Em uma indústria na qual o consumo convencional pode chegar a 15 litros de água por litro de cerveja produzido, a planta de Passos opera com sistemas de reaproveitamento capazes de reduzir em até 30% o consumo hídrico por hectolitro, com a expectativa de atingir índices próximos a 2 litros por litro à medida que os processos amadureçam. Todo o efluente é tratado integralmente antes do descarte. A unidade opera com energia 100% renovável e utiliza caldeiras de biomassa para geração de energia térmica, eliminando combustíveis fósseis do processo. A escolha de Passos levou em conta a disponibilidade hídrica da Bacia do Rio Grande, reconhecida pela qualidade da água.
A estratégia da Heineken está ancorada em três pilares de governança hídrica: eficiência operacional, com meta de reduzir o consumo para 2,6 hectolitros de água por hectolitro produzido em áreas de estresse hídrico até 2030; balanço hídrico de bacia, que prevê devolver 1,5 vez o volume consumido por meio de projetos de restauração florestal e proteção de nascentes — como o Programa Produtor de Águas (Projeto Bocaina) e a parceria com a SOS Mata Atlântica para reflorestamento de espécies nativas; e circularidade, com reuso interno de água de processo e efluente tratado, além de parcerias com cooperativas locais para logística reversa de resíduos sólidos.
O caso não é isolado. Nos últimos três anos, a Heineken registrou redução de 30% no consumo hídrico em suas unidades brasileiras, resultado da combinação entre tecnologia de reuso e melhoria contínua de processos. A ampliação recente da fábrica de Igarassu (PE), com investimento de R$ 1,2 bilhão, também incorporou tecnologias avançadas de eficiência hídrica, especialmente relevantes em uma região com estresse hídrico reconhecido. Mais do que ganhos operacionais, essas iniciativas evidenciam uma tendência mais ampla: a transição da água de simples insumo para ativo estratégico. Para o saneamento ambiental, trata-se de um indicativo claro de que eficiência hídrica, reuso, tratamento de efluentes e governança de bacia serão pilares indispensáveis para o futuro da gestão da água no país.








