PERDA DE ÁGUA

Brasil desperdiça 39,5% de água tratada

Brasil desperdiça 39,5% de água tratada

Enquanto a rede depende de concessionárias, o projeto do edifício também pesa: estudo da UDESC estimou queda de 31,55% no consumo de água potável com aproveitamento da chuva em prédio de Joinville.

Segundo dados do Estudo de Perdas de Água 2026: Desafios na Eficiência do Saneamento Básico no Brasil, elaborado pelo Instituto Trata Brasil em parceria com a GO Associados, o Brasil perdeu 39,53% da água tratada na distribuição antes que ela chegasse às torneiras em 2024. Somente as perdas físicas, provocadas principalmente por vazamentos, somaram cerca de 4,4 bilhões de m³, volume equivalente a 4,8 mil piscinas olímpicas desperdiçadas por dia. Divulgado em junho de 2026, o levantamento utiliza informações do Sistema Nacional de Informações em Saneamento Básico, o SINISA, com ano-base 2024. O volume desperdiçado seria suficiente para abastecer aproximadamente 77 milhões de brasileiros durante um ano.

Como a operação da rede pública não está sob o controle do setor imobiliário, construtoras e incorporadoras concentram sua capacidade de atuação no outro lado da torneira: o consumo dos próprios edifícios, que pode começar a ser definida antes mesmo do início da obra, por meio das soluções, dos equipamentos e dos sistemas previstos em projeto. A Portaria MCID nº 788/2024, do Ministério das Cidades, estabelece que os indicadores de perdas na distribuição deverão chegar a 30% entre 2026 e 2032 e a 25% a partir de 2033, para os municípios beneficiados por recursos públicos federais ou por financiamentos com recursos da União. Atualmente, apenas 12 dos 100 municípios mais populosos do país atendem simultaneamente aos parâmetros de até 25% de perdas na distribuição e até 216 litros por ligação ao dia. A redução do índice nacional de 39,53% para 25% permitiria economizar 2,8 bilhões de m³ anuais de água, segundo o estudo. A modernização da rede, a identificação de vazamentos e o controle das perdas dependem de investimentos das concessionárias e do poder público. No ambiente construído, porém, parte da resposta pode ser incorporada ao projeto arquitetônico e aos sistemas prediais.

Um estudo de caso da Universidade do Estado de Santa Catarina, a UDESC, apresentado no Simpósio Nacional de Sistemas Prediais de 2023, estimou que o aproveitamento de água pluvial em um edifício residencial multifamiliar de Joinville poderia reduzir em 31,55% o consumo de água potável. Para o reúso de águas cinzas, a redução estimada foi de 21,71%. Os autores destacam que se trata de uma análise simplificada e que a viabilidade de cada sistema deve considerar aspectos como a sazonalidade das chuvas, a demanda do edifício e os custos de implantação. Ainda assim, o estudo mostra o potencial das decisões de projeto para reduzir o consumo de água potável em edificações residenciais.

Empresa brasileira do setor da construção civil, a Vanguard considera a eficiência hídrica durante a especificação dos empreendimentos, quando são definidos os equipamentos e os sistemas que terão influência sobre o consumo de água ao longo da vida útil do edifício. “São escolhas de engenharia que reduzem o consumo de água do edifício como um todo e não exigem uma mudança de hábito dos moradores. A eficiência já está incorporada à operação do empreendimento”, afirma Fernando Fabian, diretor corporativo da Plaenge. Na prática, isso significa definir, desde a fase de projeto, os equipamentos e sistemas que serão incorporados ao edifício. Fabian cita caixas acopladas de alto desempenho, torneiras com redutores de vazão, torneiras temporizadas nos espaços comuns e o aproveitamento da água da chuva para a limpeza dessas áreas.

O controle das perdas na rede e a redução do consumo nas edificações atuam em etapas diferentes do abastecimento, mas respondem ao mesmo desafio: utilizar a água disponível com maior eficiência. Enquanto o primeiro depende principalmente de políticas públicas, concessionárias e investimentos em infraestrutura, o segundo começa nas decisões tomadas por projetistas, engenheiros, construtoras e incorporadoras. Projetar edifícios mais eficientes não substitui os investimentos necessários na rede pública, mas amplia a contribuição do ambiente construído para a preservação dos recursos hídricos e ajuda a reduzir, desde a origem, a demanda de água durante a operação dos empreendimentos.