RESIDUOS SÓLIDOS

CASAN passa a transformar lodo de ETA de Barra Velha em matéria-prima para tijolos e reduz custo de destinação em 11%

CASAN passa a transformar lodo de ETA de Barra Velha em matéria-prima para tijolos e reduz custo de destinação em 11%

CASAN transforma lodo de ETA de Barra Velha em matéria-prima para tijolos, reduzindo custo de destinação em 11% e gerando economia circular na produção cerâmica catarinense.

A Companhia Catarinense de Águas e Saneamento (CASAN) iniciou uma nova rota de destinação para o lodo gerado na Estação de Tratamento de Água (ETA) de Barra Velha, no litoral norte catarinense. Em vez de seguir integralmente para aterro sanitário, o resíduo passou a ser encaminhado a cerâmicas da região de Tijucas e Canelinha, onde é incorporado como aditivo na fabricação de tijolos. A fase inicial do projeto prevê o envio de 600 toneladas de lodo à indústria cerâmica, segundo a companhia.

A iniciativa se enquadra no conceito de economia circular: um resíduo do processo de potabilização da água deixa de ser passivo ambiental e vira insumo industrial, reduzindo simultaneamente a necessidade de extração de argila em jazidas naturais usadas na produção de tijolos. A CASAN opera atualmente 152 ETAs em Santa Catarina, o que dá dimensão ao potencial de replicação do modelo caso ele avance para outras unidades, como a própria companhia já sinaliza pretender fazer.

Economia na operação

Hoje a CASAN paga R$ 587,39 por tonelada para retirar o lodo da ETA de Barra Velha e destiná-lo a aterro sanitário. Com o novo contrato, que prevê remoção mecanizada por retroescavadeira e aproveitamento do material pelas cerâmicas, o custo cai para R$ 520,15 por tonelada — uma redução de aproximadamente 11%, conforme os valores informados pela companhia. A diferença entre os dois valores por tonelada, de R$ 67,24, é consistente com o percentual de economia divulgado.

Além do ganho financeiro direto, a CASAN aponta redução das emissões associadas ao transporte, já que o lodo passa a ser gerenciado em distâncias menores entre a ETA e as cerâmicas, em comparação com o trajeto até o aterro sanitário. A companhia não detalhou a vigência nem o valor total do contrato firmado para a operação, tampouco especificou outras ETAs já cotadas para receber a mesma rota de aproveitamento.

Registros públicos de licitação da CASAN mostram que a companhia abriu processo específico para "remoção, transporte e destinação final com valorização do lodo acondicionado em bags" na ETA de Barra Velha, o que indica que a mudança de rota resultou de uma contratação direcionada para esse fim, e não de um ajuste genérico nos contratos de transporte de resíduos já vigentes.

Uma solução com respaldo técnico-científico

A incorporação de lodo de ETA à massa cerâmica não é novidade no campo acadêmico brasileiro. Diversos estudos de universidades e institutos de pesquisa testam há pelo menos duas décadas diferentes proporções de lodo em misturas de argila para produção de tijolos e blocos cerâmicos. Pesquisas recentes apontam que tijolos produzidos com até 10% de lodo de ETA (LETA) incorporado atingem valores de resistência à compressão compatíveis com os parâmetros da norma técnica ABNT NBR 15270-1 para blocos cerâmicos de alvenaria, com absorção de água dentro dos limites estabelecidos mesmo em proporções maiores. Outros trabalhos acadêmicos também demonstraram que tijolos produzidos com adição de lodo apresentaram desempenho físico e mecânico semelhante ao do tijolo cerâmico convencional.

O interesse da literatura técnica no tema decorre do volume crescente de lodo gerado pelas estações de tratamento de água no país, cuja disposição final representa desafio ambiental, técnico e econômico para prestadores de serviço, à medida que áreas de aterro se tornam mais escassas e caras.

O que diz a regulação sobre o resíduo

O lodo de ETA é juridicamente tratado como resíduo sólido industrial. A norma ABNT NBR 10004, que classifica resíduos sólidos no Brasil, inclui os lodos provenientes de sistemas de tratamento de água entre os resíduos industriais, geralmente enquadrados como Classe II-A — não perigoso, mas não inerte —, o que exige destinação técnica documentada e rastreável, vedando descarte in natura em corpos d'água ou disposição sem controle.

A Política Nacional de Resíduos Sólidos (Lei 12.305/2010) estabelece a hierarquia que prioriza não geração, redução, reutilização e reciclagem antes da disposição final em aterro, lógica que fundamenta tecnicamente iniciativas como a adotada agora pela CASAN. Já o Marco Legal do Saneamento (Lei 14.026/2020) reforça a responsabilidade dos prestadores de serviços de água e esgoto por toda a cadeia de destinação ambientalmente adequada dos resíduos gerados em seus processos, o que inclui o lodo de estações de tratamento.

Um modelo já em operação em outro município catarinense

A rota adotada pela CASAN tem paralelo recente em Santa Catarina. Desde janeiro de 2025, a Companhia Águas de Joinville desenvolve projeto semelhante na ETA Cubatão, transformando o lodo gerado no tratamento de água em matéria-prima para a produção de tijolos e peças decorativas por empresas cerâmicas parceiras. Segundo a companhia joinvilense, a iniciativa já resultou na produção de cerca de cinco milhões de tijolos com lodo incorporado e no aproveitamento de mais de 3 mil toneladas do resíduo entre janeiro e dezembro de 2025, com redução de custo de produção de até 20% para as cerâmicas que recebem o material e economia mensal estimada em cerca de R$ 40 mil para a companhia com transporte. O caso de Joinville já prevê ainda a extensão da prática para a ETA Piraí, que atualmente destina seu lodo a aterro, após obras de modernização da unidade.

A proximidade geográfica e temporal entre as duas iniciativas catarinenses sugere uma tendência regional de companhias de saneamento buscando alternativas de valorização de resíduos de ETA, movimento que tende a se intensificar à medida que o custo de disposição em aterro sobe e a regulação ambiental cobra rastreabilidade mais rígida sobre esse tipo de resíduo.

Estrutura da CASAN e perspectivas de expansão

A CASAN presta serviços de água e esgoto em municípios catarinenses, operando 152 Estações de Tratamento de Água, mais de 15,6 mil quilômetros de redes e adutoras e cerca de 844 mil ligações de água, segundo dados mais recentes divulgados pela própria companhia. No esgotamento sanitário, a cobertura com coleta e tratamento no estado está em 34,6%, com a empresa operando 50 Estações de Tratamento de Esgoto distribuídas pelo território catarinense.

A companhia afirma que a rota de valorização do lodo testada em Barra Velha prioriza uma tecnologia que poderá ser ampliada para outras ETAs da companhia, embora não tenha indicado, até a publicação desta nota, quais unidades seriam as próximas candidatas nem em que prazo a expansão ocorreria. Também não foram detalhados o volume total de lodo gerado anualmente em todas as estações da companhia nem exigências específicas de licenciamento ambiental e controle de qualidade impostas às cerâmicas parceiras para receber o material, pontos que tendem a ganhar relevância caso o modelo avance para novas localidades.

Para o setor de saneamento, iniciativas como essa se inserem em uma pauta mais ampla de economia circular que começa a ganhar tração entre companhias estaduais, à medida que o aumento dos custos de disposição em aterro e a pressão regulatória por destinação ambientalmente adequada tornam a reciclagem de subprodutos do tratamento de água uma alternativa cada vez mais competitiva frente ao descarte tradicional.

Artigos Relacionados