DIA MUNDIAL DA ÁGUA

Do Vale da Morte ao Desafio de 1 Trilhão: O que ainda não nos contaram sobre a água no Brasil

Do Vale da Morte ao Desafio de 1 Trilhão: O que ainda não nos contaram sobre a água no Brasil

Entrevista do nosso editor Francisco Alves ao Instituto Água Sustentável, por ocasião do Dia Mundial da Água

O Dia Mundial da Água costuma ser inundado por uma torrente de clichês publicitários: imagens de rios cristalinos, dicas de escovação de dentes e apelos ao consumo consciente. No entanto, para quem observa o setor com olhar crítico, a celebração mascara uma "miopia regulatória" e um passivo invisível que corre, literalmente, por baixo dos nossos pés. Para entender como chegamos ao atual cenário de estagnação e promessas bilionárias, é preciso recorrer à memória técnica de quem viu o setor nascer.

Francisco (Chico) Alves, jornalista formado pela ECA-USP com passagens fundamentais pela Folha de S. Paulo e O Estado de S. Paulo, é uma dessas vozes. No final da década de 70, trocou as redações diárias pelo jornalismo especializado, fundando as revistas Brasil Mineral (1983) e Saneamento Ambiental (1990). Alves não apenas documentou a história; ele antecipou conceitos. Quando o termo "saneamento ambiental" ainda soava como um neologismo em 1990, ele já pregava que água e esgoto não poderiam ser discutidos sem uma visão abrangente de saúde ecossistêmica.

Lição 1: O Legado de Cubatão e o Laboratório do Retrocesso

Cubatão, nas décadas de 70 e 80, era a síntese da "herança maldita" do desenvolvimento a qualquer custo. O cenário era distópico: a siderúrgica Cosipa emitindo colunas de poluição ininterruptas, a contaminação severa de lençóis freáticos por escória e o brilho sinistro do flare da refinaria — o símbolo visual de uma cidade que o mundo apelidou de "Vale da Morte". A geografia da região, com a Serra do Mar "represando" os gases, tornava Cubatão um experimento trágico sobre os limites do planeta.

A virada de chave não foi espontânea, mas forçada por tragédias como o incêndio da Vila Socó e a pressão internacional que culminou na Rio 92. Antes da conferência, o meio ambiente era um tema periférico na imprensa brasileira. Cubatão serviu como o grande laboratório do que não fazer, obrigando o jornalismo e o Estado a admitirem que o progresso sem saneamento é, na verdade, um retrocesso humanitário.

"Cubatão era um símbolo... além de ser um símbolo, era de fato a cidade mais poluída do Brasil e uma das mais poluídas do mundo... era um exemplo do que não fazer."

Lição 2: O Crime Invisível de Cobrar pelo que Não se Trata

Talvez o ponto mais contraintuitivo e éticamente sensível da trajetória de Chico Alves seja o que ele chama de "impunidade seletiva". Vivemos sob um paradoxo jurídico: se um cidadão ou uma indústria despeja dejetos em um rio, o rigor da lei ambiental é implacável. No entanto, as concessionárias de saneamento operam em um regime de exceção moral.

Essas companhias cobram do usuário uma tarifa de esgoto equivalente ao volume de água consumido, mas, em grande parte do território nacional, o serviço termina na coleta. O esgoto é lançado in natura nos mananciais. Trata-se de uma dupla transgressão: financeira, por cobrar por um serviço não prestado, e ambiental, por transformar empresas públicas e privadas nos maiores poluidores do país. Alves cita o caso do Rio Doce: o desastre da Samarco em Mariana foi um crime drástico que apenas "revelou" e exacerbou um passivo de décadas de esgoto bruto que já havia assassinado silenciosamente a vida do rio.

Lição 3: O Mito do Trilhão e a Miopia da Gestão Autárquica

O novo Marco do Saneamento projeta a necessidade de R$ 900 bilhões em investimentos para a universalização até 2033. Mas Alves faz uma provocação necessária: a obsessão por números astronômicos oculta o debate sobre a eficiência. De que adianta injetar um trilhão de reais se o modelo de gestão permanece "autárquico"?

Muitas companhias estatais ainda operam sob uma lógica de feudo, onde as decisões servem para satisfazer "o chefe" ou interesses políticos imediatistas, ignorando o usuário final. Sem modernização tecnológica e sem a entrada de players internacionais que tragam inovação de ponta, corremos o risco de gastar fortunas para manter sistemas obsoletos e ineficientes. A discussão não deve ser apenas sobre quanto gastar, mas sobre como parar de desperdiçar recursos em modelos de gestão do século passado.

Lição 4: O Passivo Oculto e a Urgência de um "Superfund" Brasileiro

No calor dos debates sobre as privatizações da Sabesp ou da Cedae, a discussão costuma se perder em trincheiras ideológicas entre o "estatal" e o "privado". Alves eleva o debate para o que realmente importa: o passivo ambiental oculto. Universalizar a oferta de água é inútil se os mananciais que a fornecem estiverem mortos.

Ao transferir o controle dessas empresas, o Estado muitas vezes ignora os danos acumulados por décadas que não estão precificados nas ações. O jornalista sugere que o Brasil se inspire no modelo do Superfund americano: a criação de fundos específicos para a remediação de áreas contaminadas e recuperação de rios. Sem um plano científico de recuperação de mananciais, a privatização será apenas a transferência de um ativo lucrativo, deixando a conta da degradação ambiental para as futuras gerações.

Lição 5: Jornalismo na Era da Bolha: A Perda do Contraditório

Para um editor sênior, a evolução tecnológica do jornalismo é uma faca de dois gumes. Por um lado, houve a democratização: uma informação técnica que antes levava 15 dias para chegar fisicamente a Carajás, no Pará, hoje é acessível instantaneamente no interior da China. Por outro, perdemos a profundidade e a serendipidade.

Na era das revistas impressas, o leitor, ao folhear as páginas em busca de um tema, era "atropelado" por artigos contraditórios ou assuntos que não estava procurando, expandindo seu horizonte intelectual. No ambiente digital, o algoritmo nos encarcera em bolhas de interesse que ignoram a complexidade técnica. O desafio para a nova geração de jornalistas é ser direto sem ser superficial, mantendo a "exposição ao contraditório" em um mundo que prefere o conforto das certezas absolutas.

Consciência e o Futuro das Águas

O conselho final de Francisco Alves para quem deseja atuar nesta área é desarmadoramente simples: "trabalhe com a sua consciência acima de tudo". Em um setor onde a pressão política e econômica é esmagadora, a integridade técnica é a única bússola confiável.

O futuro das águas no Brasil não depende de ideologias, mas de uma "Política com P maiúsculo" — uma visão que extrapole governos e se funde na ciência e no interesse público. O Dia Mundial da Água deve ser, acima de tudo, um convite à vigilância. Afinal, se continuarmos tratando nossos rios como receptores silenciosos de esgoto e corrupção, chegará o dia em que nenhuma tecnologia ou montanha de dinheiro será capaz de devolver a vida às nossas torneiras.

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