CRISE HÍDRICA

Engenheiro ambiental aponta gestão integrada como solução

O engenheiro ambiental Ricardo da Silva Manca acaba de concluir doutorado junto à Faculdade de Engenharia Civil, Arquitetura e Urbanismo (FEC). A tese “Hierarquização de ações pré-avaliatórias para o gerenciamento dos sistemas de abastecimento de água” foi orientada pelo docente José Gilberto Dalfré Filho, que atua no Departamento de Recursos Hídricos, Energéticos e Ambientais da Unidade e contou com a coorientação do professor Antonio Carlos Zuffo, que atua no mesmo Departamento. A tese teve financiamento, na forma de bolsa ao pesquisador, do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq). 
 
O engenheiro propõe uma nova diretriz para a disponibilidade de água na Região metropolitana de São Paulo (RMSP) em tempos de crise hídrica. Ao invés de apenas centrar esforços e recursos na ampliação da oferta de água, o pesquisador da Unicamp aponta que o gerenciamento da demanda é fundamental; e num modelo que contemple ações de modo integrado. As principais ações nesse sentido, para Ricardo, são a redução de perdas e o reúso de água. “Se os setores de redução de perdas e de reúso de água tivessem avançado nas últimas décadas, os problemas relacionados à escassez de água seriam menores na atualidade. Estima-se que as perdas na RMSP girem entre 35% e 40% do volume ofertado à população. Reduzir perdas significa aumentar a quantidade de água que já é uma água tratada. No caso do reúso também, porque não depende de chuva. Hoje, há tratamentos que podem elevar a água numa qualidade muito boa”, defende.
 
Entretanto, Ricardo  afirma que apenas essas duas medidas não são capazes de solucionar uma possível falta de água para a sociedade neste momento. “O nosso conceito de gerenciamento integrado para a água é de que seja dada atenção para as oportunidades possíveis, tanto na demanda quanto na oferta, mas nós temos dado pouca prioridade para a demanda. Por isso insistimos na defesa deste tipo de gerenciamento. Devo parar obras de captação, obras exclusivamente na oferta de água? De maneira alguma! Seria um erro excluir qualquer benefício para a melhoria da gestão do recurso, porém, o que o estudo propõe é que a gestão seja feita de forma abrangente, visando todas as opções possíveis e disponíveis”, explica. “A pesquisa do Ricardo chegou a um benchmark, que é o gerenciamento integrado da demanda de água. Essa proposta trabalharia para além da ampliação da oferta de água, ou seja, na redução de perdas, no reúso e também na utilização da água da chuva, na redução do consumo e conscientização da população”, explica o orientador do trabalho. Ainda conforme José Gilberto Dalfré Filho, o estudo é relevante, pois pode municiar o corpo técnico do governo ou mesmo o governante na tomada de decisões que não vêm sendo estabelecidas como prioritárias. 
 
Como parte de seu estudo, Ricardo desenvolveu uma ferramenta de análise de sensibilidade que permite avaliar o gerenciamento da demanda de água com enfoque em medidas prioritárias do ponto de vista do gestor do sistema de abastecimento. A ferramenta aponta, na forma de um acelerador, para diversos tipos de situações possíveis, a partir das medidas que seriam tomadas pelo gestor: situação ruim, regular, boa e a considerada ideal, que é o gerenciamento integrado da demanda de água. “Hoje se busca muito ampliar a oferta. Na tentativa de atender a oferta, o governo ‘esquece’ a demanda. Perdas chegam a 40%. Desse modo, reduzir as perdas pela metade equivaleria à economia de praticamente um Cantareira. Só que o resultado não é rápido: é preciso investir muito em substituição de redes e isso leva tempo e custo. Ao diminuir a demanda, passa-se para uma situação de eficiência, na direção da sustentabilidade. Portanto, esse gerenciamento integrado, proposto pela pesquisa do Ricardo, vai neste caminho”, avalia o coorientador, Antonio Carlos Zuffo. 
 
O estudo da FEC foi baseado nos dados do Serviço Nacional de Informações em Saneamento (SNIS) e aponta que no Brasil as perdas totais (reais e aparentes) variam entre 45% e 50% do volume ofertado à população. Em algumas cidades, o índice pode chegar a 70%. “Isso representa 4,68 bilhões de m3 de água produzidos por ano. Os volumes perdidos levam à conclusão de que metade da água produzida é perdida. Cidades com índices de perdas nesses valores poderiam aumentar o volume disponibilizado para a população, adiando a necessidade de obtenção de novos pontos de captação e água importada de outras bacias. A melhoria nos sistemas de abastecimento público é uma tarefa emergente, necessária e com vantagens econômicas e ambientais”, considera o autor da pesquisa.
 
Para identificar e hierarquizar as principais ações de atuação na demanda, o pesquisador utilizou dois recursos metodológicos - obter informações por meio de um conjunto de especialistas da área e o recurso denominado Multicriteriais, que avalia as opções dadas pelos especialistas em multicritérios: econômicos, ambientais, sociais, estruturais e governamentais. No primeiro, recorreu a entrevistas e envio de questionários, onde questionava ‘Que nota você daria para a redução de perdas? E para reúso?. Este método, conforme o engenheiro ambiental, ocupa-se com médias e permite definir as prioridades com base no consenso dos especialistas. Trata-se do Método de Auxílio à Tomada de Decisão Delphi. No que se refere ao Método Multicriteriais, o pesquisador utilizou três métodos: Analytic Hierarchy Process (AHP), Compromise Programming (CP) e Cooperative Game Theory (CGT). Após a aplicação dos métodos multicriteriais foi possível a criação da ferramenta de análise de sensibilidade, que avaliou se uma das alternativas escolhidas pelos especialistas cumpriria as prioridades definidas nestes multicritérios. “O que isso significa? Por exemplo: os especialistas concordam que redução de perdas e reuso de água são duas medidas prioritárias. A partir disso, nós inserimos estas medidas na ferramenta. Se o meu resultado não é positivo, significa que eu estou caminhando no sentido contrário às melhores alternativas para o aumento da disponibilidade de água na Região Metropolitana de São Paulo”, ilustra.

Artigos Relacionados

Sistema Cantareira entra estação seca com nível mais baixo em 10 anos
ARTIGO
Sistema Cantareira entra estação seca com nível mais baixo em 10 anos

O Sistema Cantareira encerrar o verão no nível mais baixo em uma década não é um evento isolado, mas é mais um sinal consistente de um padrão que já se desenha há anos.

23 de março, 2026
Crise hídrica exige respostas estruturais e integradas
DIA MUNDIAL DA ÁGUA
Crise hídrica exige respostas estruturais e integradas

Encontro com especialistas destaca impactos socioeconômicos e aponta a governança como eixo central para a segurança da água

20 de março, 2026
Da lei à realidade: desafios do saneamento básico no Brasil
ARTIGO
Da lei à realidade: desafios do saneamento básico no Brasil

É possível constatar que equilibrar a universalização do saneamento básico com o crescimento populacional e a realidade brasileira segue sendo uma tarefa complexa.

19 de março, 2026
Acesso ao serviço pode reduzir em até 25% o atraso escolar de meninas
SANEAMENTO
Acesso ao serviço pode reduzir em até 25% o atraso escolar de meninas

As consequências também impactam o futuro profissional, já que jovens que crescem em locais sem acesso ao saneamento tendem a ingressar no mercado de trabalho com menor escolaridade média.

9 de março, 2026
Crise hídrica e agricultura em pauta no Alto Tietê
ÁGUA
Crise hídrica e agricultura em pauta no Alto Tietê

Encontro em Mogi das Cruzes reúne especialistas e produtores para discutir segurança hídrica, mudanças climáticas e caminhos para o uso inteligente da água no desenvolvimento rural.

25 de fevereiro, 2026
Restrição a poços no RJ ignora realidade da falta d'água
ARTIGO
Restrição a poços no RJ ignora realidade da falta d'água

No Estado de São Paulo, a perfuração de poços profundos já garantiu abastecimento para cerca de 1,5 milhão de pessoas em mais de 100 municípios.

19 de fevereiro, 2026
Municípios avançam rumo à universalização dos serviços
SANEAMENTO
Municípios avançam rumo à universalização dos serviços

O diagnóstico revela que o Marco Legal do Saneamento garantiu a contratualização de metas para atendimento de esgoto para 85% da população brasileira estimada para 2033.

9 de fevereiro, 2026
Estudo levanta preocupações quanto ao uso de biofertilizante
LODO BIOLÓGICO
Estudo levanta preocupações quanto ao uso de biofertilizante

O uso de FSBs levanta preocupações quanto à segurança sanitária, já que o contato com o líquido pode abrir vias de exposição a doenças transmitidas pela água.

28 de janeiro, 2026