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Faça chover - Repensando o valor da água

Por Frans-Jan van Rongen * O dinheiro não cresce nas árvores, mas cairá do céu (em 2040). "Que tipo de água você tem?" não soará como uma pergunta tão estranha daqui a vinte anos. A água caminha na mesma direção que a energia, que nem sempre foi fornecida de todas as formas que temos hoje: eólica, verde, cinza, solar, carvão. A água é a próxima matéria-prima a se tornar um grande negócio. Em dezembro passado, o icônico sino de Wall Street soou quando a água se tornou uma commodity no mercado futuro, uma oportunidade para investir dinheiro. Globalmente, nosso suprimento de água está acabando e, onde há disponibilidade limitada e alta demanda, as coisas ficam interessantes. Não se surpreenda se, em um futuro próximo, uma boa chuva fizer o mercado de ações disparar. As próximas duas décadas devem trazer soluções inovadoras para as questões mundiais da água. Aqui estão alguns exemplos inspiradores para impulsionar sua reconsideração sobre a água. Esforço conjunto para fazer a inovação da água fluir Em dez anos, 60% da população mundial viverá nas metrópoles. O problema que essas grandes cidades enfrentam é a falta de solo não cimentado para absorver as fortes chuvas causadas pelas mudanças climáticas. A pressão que as águas residuais exercem sobre a infraestrutura é cada vez mais alta. Assim como os danos, o custo é imenso. O abastecimento de água geralmente é administrado pelos governos locais e, assim como os sistemas de esgoto ultrapassados da cidade, eles estão sobrecarregados com essa tarefa gigantesca. Pablo Bereciartua , ex-secretário de Infraestrutura e Política Hídrica da Argentina, percebeu a necessidade de uma abordagem diferente e decidiu desafiar as empresas a se associarem ao governo para encontrar soluções conjuntas. Ele acabou com quatro vezes mais fundos do que os inicialmente orçados com a implementação de um sistema de títulos. Com sua mentalidade inovadora, ele construiu uma ponte entre o governo e as empresas que resultou em uma nova infraestrutura e acesso à água para 4 milhões de argentinos. A antiga arte de captar água da chuva Vale a pena dar uma boa olhada em como administramos a água. Por muito tempo, as pessoas pensaram que captar água da chuva usando telhados em áreas urbanas como local para coleta não poderia ser lucrativo. Até que pesquisas recentes provaram o contrário: coletar chuva por meio de parcerias público-privadas pode suprir de 17% a 29% da necessidade de água não potável de uma cidade, reduzindo os gastos do governo com abastecimento de água em até 85%. Isso é muito dinheiro economizado e muita água sem causar mais desgaste aos sistemas de esgoto sobrecarregados. Imagine todos os telhados da cidade trabalhando juntos como um escudo protetor, mantendo-nos secos e, ao mesmo tempo, fornecendo uma necessidade vital. Da garoa à água potável Mas a água da chuva ainda não é água para uso doméstico, que é atualmente o epicentro de soluções inovadoras para os consumidores. É por isso que a UE cofinanciou o Aqualoop , um sistema para coletar e purificar a água da chuva para uso doméstico. A água realmente está ganhando uma nova forma, tanto na maneira como a utilizamos quanto em valor. E já era hora porque, se não agirmos agora, em 2050 a ONU estima que 6 bilhões de pessoas sofram com a falta de recursos de água potável. Gíria urbana "Fazer chover" é uma gíria para ganhar muito dinheiro ou fazer algo muito bem-sucedido. Em toda a cadeia, existe a oportunidade de começar a repensar a captação de água. Uma boa gestão da água pode tornar as cidades melhores e locais mais saudáveis para se viver, tornando-as à prova de futuro e resistentes às alterações climáticas e à sustentabilidade. Chegou a hora de sermos criativos. * Frans-Jan van Rongen é vice-presidente global de Marketing e Branding da Wavin.

Por Frans-Jan van Rongen *

O dinheiro não cresce nas árvores, mas cairá do céu (em 2040).

"Que tipo de água você tem?" não soará como uma pergunta tão estranha daqui a vinte anos. A água caminha na mesma direção que a energia, que nem sempre foi fornecida de todas as formas que temos hoje: eólica, verde, cinza, solar, carvão. A água é a próxima matéria-prima a se tornar um grande negócio. Em dezembro passado, o icônico sino de Wall Street soou quando a água se tornou uma commodity no mercado futuro, uma oportunidade para investir dinheiro. Globalmente, nosso suprimento de água está acabando e, onde há disponibilidade limitada e alta demanda, as coisas ficam interessantes. Não se surpreenda se, em um futuro próximo, uma boa chuva fizer o mercado de ações disparar. As próximas duas décadas devem trazer soluções inovadoras para as questões mundiais da água. Aqui estão alguns exemplos inspiradores para impulsionar sua reconsideração sobre a água.

Esforço conjunto para fazer a inovação da água fluir

Em dez anos, 60% da população mundial viverá nas metrópoles. O problema que essas grandes cidades enfrentam é a falta de solo não cimentado para absorver as fortes chuvas causadas pelas mudanças climáticas. A pressão que as águas residuais exercem sobre a infraestrutura é cada vez mais alta. Assim como os danos, o custo é imenso. O abastecimento de água geralmente é administrado pelos governos locais e, assim como os sistemas de esgoto ultrapassados da cidade, eles estão sobrecarregados com essa tarefa gigantesca.

Pablo Bereciartua , ex-secretário de Infraestrutura e Política Hídrica da Argentina, percebeu a necessidade de uma abordagem diferente e decidiu desafiar as empresas a se associarem ao governo para encontrar soluções conjuntas. Ele acabou com quatro vezes mais fundos do que os inicialmente orçados com a implementação de um sistema de títulos. Com sua mentalidade inovadora, ele construiu uma ponte entre o governo e as empresas que resultou em uma nova infraestrutura e acesso à água para 4 milhões de argentinos.

A antiga arte de captar água da chuva

Vale a pena dar uma boa olhada em como administramos a água. Por muito tempo, as pessoas pensaram que captar água da chuva usando telhados em áreas urbanas como local para coleta não poderia ser lucrativo. Até que pesquisas recentes provaram o contrário: coletar chuva por meio de parcerias público-privadas pode suprir de 17% a 29% da necessidade de água não potável de uma cidade, reduzindo os gastos do governo com abastecimento de água em até 85%. Isso é muito dinheiro economizado e muita água sem causar mais desgaste aos sistemas de esgoto sobrecarregados. Imagine todos os telhados da cidade trabalhando juntos como um escudo protetor, mantendo-nos secos e, ao mesmo tempo, fornecendo uma necessidade vital.

Da garoa à água potável

Mas a água da chuva ainda não é água para uso doméstico, que é atualmente o epicentro de soluções inovadoras para os consumidores. É por isso que a UE cofinanciou o Aqualoop , um sistema para coletar e purificar a água da chuva para uso doméstico. A água realmente está ganhando uma nova forma, tanto na maneira como a utilizamos quanto em valor. E já era hora porque, se não agirmos agora, em 2050 a ONU estima que 6 bilhões de pessoas sofram com a falta de recursos de água potável.

Gíria urbana

"Fazer chover" é uma gíria para ganhar muito dinheiro ou fazer algo muito bem-sucedido. Em toda a cadeia, existe a oportunidade de começar a repensar a captação de água. Uma boa gestão da água pode tornar as cidades melhores e locais mais saudáveis para se viver, tornando-as à prova de futuro e resistentes às alterações climáticas e à sustentabilidade. Chegou a hora de sermos criativos.


* Frans-Jan van Rongen é vice-presidente global de Marketing e Branding da Wavin.

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O papel da tecnologia dentro dos novos projetos de saneamento
ARTIGO
O papel da tecnologia dentro dos novos projetos de saneamento

Artigo por Márcio Martin * Atualmente, cerca de 35 milhões de brasileiros não têm acesso algum à água tratada, e mais de 100 milhões vivem sem coleta de esgoto – de acordo com dados do Instituto Trata Brasil. A situação é obviamente preocupante, mas a aprovação do Novo Marco Legal de Saneamento, de 2020, trouxe novas oportunidades tanto para as pessoas que dependem de saneamento básico quanto para companhias dispostas a inovar e utilizar suas ferramentas digitais para mudar esse panorama. A meta é ousada: até 2033, mais de 90% da população precisa ser atendida com esses serviços que são fundamentais para a qualidade de vida das pessoas. Não se trata de um desafio simples, mas a tendência é que ele atraia a atenção do mercado para a realização de novos projetos onde as tecnologias e ferramentas digitais serão essenciais para elevar a eficiência dos sistemas de água e esgoto. Só em 2021, o segmento de saneamento básico recebeu investimentos na ordem de R$ 35 bilhões, o que representa 10 vezes o valor destinado ao setor em 2020, segundo o Governo federal. Isso prova que a iniciativa privada está atenta à demanda e pronta para atuar em projetos. Projetos para todo o território nacional Dados da Associação Brasileira das Concessionárias Privadas de Serviços Públicos de Água e Esgoto (Abcon) apontam que 23 licitações devem ser realizadas no país até o fim de 2023, sendo que 12 delas ocorrerão para cidades com população igual ou inferior a 50 mil habitantes. No total, os investimentos voltados para municípios pequenos podem somar R$ 22 bilhões em projetos realizados por meio das Parcerias Público-Privadas (PPPs). Embora alto, ainda há mais oportunidades para o desenvolvimento de projetos, pois, para atingir as metas do marco regulatório até 2033, seria necessária uma média de R$ 63 bilhões de aportes por ano para chegar à projeção de R$ 700 bilhões para garantir as melhorias. Muita inovação e tecnologia O crescimento projetado da demanda de água para os próximos anos em todo o mundo está acelerando a tendência de inovações e tecnologias voltadas ao saneamento. Além de sistemas mais sustentáveis, o uso de dados e a implementação de ferramentas inteligentes no setor passam a ser fundamentais. Entre as vantagens, estão: Melhor gestão de perdas no sistema de saneamento; Melhora do fluxo de distribuição de água; Facilidade no monitoramento para adoção de ações preditivas; Aumento da capacidade de identificação de ações clandestinas; Respostas mais rápidas a crises com informações em tempo real. O levantamento Barômetro da Infraestrutura Brasileira , que é feito semestralmente pela Associação Brasileira da Infraestrutura e Indústria de Base (Abdib), em parceria com a consultoria EY, destaca justamente que as empresas têm investido em tecnologia e inovação no saneamento para tornar o atendimento à população mais eficiente e eficaz ao obter mais dados, antecipar problemas e automatizar sistemas. Um exemplo citado é o acompanhamento online de todo o ciclo de processos de tratamento e abastecimento a partir da combinação de dispositivos IoT (Internet das Coisas) com análise de dados baseada em inteligência artificial para gerar informações e possibilitar o monitoramento dos sistemas de água e esgoto à distância. O estudo ainda aponta que a grande necessidade de modernizar os sistemas de água e esgoto e as aberturas para a realização de projetos na área com a nova legislação aprovada em 2020 são o grande fator pelo qual o saneamento desponta como o setor foco para a realização de projetos nos próximos anos. Considerando esse cenário, é possível dizer que o uso de tecnologias no saneamento será fundamental para conseguirmos conter a escassez desse bem tão essencial em nosso planeta. E as empresas estão prontas para desenvolver projetos cada vez mais inovadores e necessários à sociedade. * Márcio Martin é Vice-Presidente Comercial, Soluções e Marketing para América Latina da green4T.

26 de setembro, 2022
Por que as cidades precisam projetar a gestão circular?
ÁGUA
Por que as cidades precisam projetar a gestão circular?

Artigo por Julia Machado Por Julia Machado * As mudanças climáticas ameaçam as condições de moradia de muitos lugares, especialmente das grandes cidades. Desde a elevação do nível do mar até eventos climáticos extremos, os centros urbanos devem se adequar a um clima menos estável com estratégias de adaptação às condições atmosféricas, como a arquitetura inteligente de construção e paisagismo, e a infraestrutura que mitiga riscos ao criar espaços habitáveis e ecossocialmente atraentes. Uma das principais ameaças impostas pelas mudanças climáticas para as áreas urbanas é a disponibilidade de água. Um clima desestabilizado tornará o abastecimento hídrico mais volátil e imprevisível, mas a maneira como pensamos a água apenas intensifica essa ameaça. Tratamos a água de forma linear -- fonte a ser usada para descarte --, em vez de circular, o que apresenta uma tremenda oportunidade para cidades à prova de futuro tornarem-se mais habitáveis nos próximos séculos. A mitigação de riscos e a resiliência no setor de construção urbana podem ser alcançadas por meio de uma infraestrutura azul-verde inovadora, inteligente e integrada -- em particular, com a gestão da água inclusiva. Devemos mudar a maneira de usarmos a água como parte dos esforços mais amplos de adaptação ao clima. Não se trata apenas de usar menos, descarregar mais água de forma mais rápida ou construir reservatórios maiores. Trata-se de usar o recurso hídrico na hora certa e no lugar certo. A forma como tratamos a água hoje é insustentável. Assim que ela entra nas cidades, tentamos nos livrar dela. Devemos tratá-la como um bem precioso e não como uma mercadoria descartável. É necessário reutilizá-la onde há muito pouco, filtrá-la onde estiver muito poluída e devolvê-la ao solo quando o abastecimento de água subterrânea estiver esgotado. Isso fecharia o ciclo da água e deixaria de deslocar o problema de uma extremidade a montante para a outra extremidade a jusante. Uma mentalidade circular deve sustentar cada passo de design urbano que damos. Devemos fazer valer cada gota. Como podemos cumprir essa missão? Para mim, a palavra mágica é conexão. Devemos conectar sistemas muitas vezes vistos como independentes -- como águas residuais, águas pluviais e sistemas de água da torneira -- para criar ciclos de água circulares e controlados em torno de edifícios, bairros e até cidades. Então, devemos aplicar o conceito de conexão a diferentes disciplinas, parceiros, tecnologias, designs e soluções, a fim de alcançar coletivamente a infraestrutura mais adaptável e inclusiva. Ao fazer uso de cada gota com a maior frequência, eficiência e naturalidade possíveis, mitigamos as mudanças climáticas e nos adaptamos a elas. O melhor de tudo é que essa postura ajudará a reconstruir, estabelecer e/ou modernizar e manter uma infraestrutura azul-verde sensível à água a um custo muito menor do que reparar danos causados por catástrofes climáticas. Tanto as pessoas quanto o meio ambiente se beneficiam dessa maneira à prova de futuro de repensar as cidades e construir de forma sustentável, bem como da adaptação e da resiliência climática que prepararão as cidades para o crescimento populacional e as mudanças climáticas. Ao desenvolver novos padrões e soluções enquanto impulsiona o discurso global sobre o futuro das cidades, a Wavin está apoiando cidades resilientes ao clima que podem continuar sendo saudáveis e sustentáveis. Estamos ansiosos para trabalhar com governos, arquitetos, planejadores urbanos e outras partes interessadas para projetar cidades para o futuro. * Julia Machado é Formada em Engenharia Industrial pela Universidade de Osnabruque (Alemanha) e mestre em Psicologia Empresarial pela Universidade de Hamburgo (Alemanha). A executiva está há mais de cinco anos na Wavin.

21 de fevereiro, 2022
Ciclo virtuoso do uso eficiente da água e da energia
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Ciclo virtuoso do uso eficiente da água e da energia

Artigo por Julio Molinari Por Julio Molinari * No último mês de junho, a Organização das Nações Unidas divulgou um relatório com alerta de que o aquecimento global está aumentando e pode fazer com que diversos lugares do planeta sofram com escassez de água e a seca. Para dar uma ideia mais concreta da criticidade da situação, Mami Mizutori, representante especial da ONU para redução de risco de desastres, alertou em entrevista que “a seca está prestes a se tornar a próxima pandemia e não existe vacina para curá-la”. O relatório da ONU traz números impactantes. Um deles é o de que secas causaram perdas econômicas de pelo menos US$ 124 bilhões e atingiram mais de 1,5 bilhão de pessoas entre 1998 e 2017. Além disso, cerca de 130 países podem enfrentar um risco maior de seca neste século, outras 23 nações correm riscos de ter escassez de água por causa do crescimento populacional e 38 países poderão ser afetados pelos dois problemas. Outras entidades trazem dados sobre este quadro. De acordo com o World Economic Outlook, pesquisa realizada pelo Fundo Monetário Internacional (FMI), a "crise da água" é classificada como o quinto maior risco que o mundo enfrentará nos próximos 10 anos. Além disso, estima-se que, em 2025, um terço da população mundial viverá em áreas de escassez e com problemas hídricos e que em cerca de metade de todos os estados-membros da União Europeia, mais de 20% da água potável é perdida devido a vazamentos. A preocupação com escassez de água no mundo não é uma questão nova, mas, como não poderia deixar de ser, segue recebendo muita atenção, ainda mais quando são divulgados dados como estes. Até mesmo em regiões onde a disponibilidade de água é maior, o assunto é muito sensível e relevante. Isso porque a falta de recursos hídricos poderia não apenas representar um gargalo para a rotina da população em termos de consumo, mas também comprometer o funcionamento das atividades econômicas se a matriz energética estiver baseada em usinas hidrelétricas. Este seria um cenário possível no Brasil, já que, segundo a Empresa de Pesquisa Energética (EPE), vinculada ao Ministério de Minas e Energia (MME), 64,9% da energia elétrica gerada no País é hidráulica. Outro levantamento que a EPE mantém sobre consumo nacional de energia elétrica aponta que dentre os segmentos residencial, industrial, comercial e outros (rural, serviço público e iluminação pública), entre 1995 e 2018, a indústria sempre foi a que mais consumiu energia no Brasil. Neste contexto, a utilização de tecnologias já existentes, como equipamentos que controlam motores elétricos, se torna ainda mais estratégica e mesmo necessária. Um exemplo disso é a estimativa de redução em 8% do consumo de energia até 2040, com a adoção em larga escala de motores controlados por drives no setor industrial. Sendo a matriz energética brasileira baseada em geração hidrelétrica, fica claro que utilizar água e energia com mais eficiência não só indica um ciclo que se retroalimenta, mas também que é essencial para que a nossa economia possa produzir com a máxima competitividade possível. Isso porque, como se sabe, é mais dispendioso quando há necessidade de se aumentar o consumo de energia proveniente de termelétricas, repassando um custo operacional mais alto para o que é produzido e, portanto, para a população que consome. Outra situação que mostra um forte vínculo entre água e energia se dá justamente no setor de saneamento. A dependência mútua entre estes dois recursos e a crescente demanda global por eles têm um impacto enorme no crescimento econômico, na sustentabilidade global e no nosso futuro. Felizmente, já estão disponibilizadas a digitalização e tecnologias desenvolvidas para criar um setor de água neutro em energia, atuando em todos os estágios do ciclo da água, da produção e distribuição até o tratamento e bombeamento de efluentes. Um sistema de distribuição hídrica mais eficiente permite reduzir vazamentos de água automaticamente, o consumo energético e o desperdício. Dispor destas soluções é um trunfo muito importante ao se analisar números do setor. Ele é responsável por 4% do consumo energético global e acredita-se que esse número dobrará até 2040. Além disso, instalações de água e saneamento são as maiores consumidoras de energia de um município, representando de 30 a 50% da conta de eletricidade total das autoridades locais. Por fim, ao contornar o problema de escassez de água reduzindo o seu desperdício, um setor de saneamento neutro em energia também pode contribuir para reduzir as emissões de CO2 e, consequentemente, para evitar o agravamento das mudanças climáticas que, por sua vez, interferem nos ciclos de chuva e hídricos no mundo inteiro. Assim, vemos como, novamente, o uso eficiente de água e energia pode formar um ciclo virtuoso que se retroalimenta continuamente. * Julio Molinari é Presidente da Danfoss na América Latina

4 de agosto, 2021
Estiagem é sinal de alerta
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Estiagem é sinal de alerta

Por Leo Cesar Melo * A pior seca em 91 anos enfrentada por cinco estados brasileiros, entre eles São Paulo, de acordo com um comitê de órgãos do governo federal, fez com que fosse anunciado o alerta de emergência hídrica no país. Mas, além da falta de água nas torneiras de casa, do apontamento da estiagem como responsável pelo aumento da conta de luz e de colocar o país sob risco de apagão, acima de tudo é importante refletir sobre o mau uso que se faz da água. Há uma demanda crescente por esse bem natural e, com isso, uma degradação cada vez maior dos nossos recursos hídricos. Portanto, é indispensável que ações e novas técnicas de preservação ambiental, que possam reduzir ao máximo esses impactos, sejam tomadas urgentemente. De acordo com um relatório da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (UNESCO), até 2030 o planeta deve enfrentar um déficit de água de 40%. Uma das alternativas para reverter esse quadro é a captação e tratamento da água da chuva. Além de uma economia que pode chegar até 50% do consumo de água, tanto de uma residência como de uma indústria, a medida gera impactos positivos ao meio ambiente. Hoje, a engenharia oferece soluções para isso. Em um terminal portuário no Espírito Santo, por exemplo, projetamos e construímos uma Estação de Tratamento de Águas Pluviais (ETAP) em uma área de 110 hectares que já está operando com capacidade de 4 mil m³/h de tratamento. Isso equivale a quase duas piscinas olímpicas por hora. Projeto que pode ser adequado, de acordo com a necessidade de cada indústria, além de outros fatores. Cuidar da água está intimamente ligado à sustentabilidade, já que não há futuro sustentável se tivermos desabastecimento. Portanto, a afirmação "água é vida" resume bem o tom de conscientização que todos nós devemos ter. * Leo Cesar Melo é CEO da Allonda, empresa de engenharia com foco em soluções sustentáveis.

2 de julho, 2021
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Quanto custa a falta de água?

Por Leo Cesar Melo * A água é um recurso natural muito valioso, não só para economia mundial como também para toda a sociedade civil. Cuidar da água está intimamente ligado à sustentabilidade, já que não há futuro sustentável se tivermos desabastecimento. A presença ou falta dela têm impactos sociais, ambientais e econômicos imensuráveis, por isso a necessidade urgente de medidas de preservação. Vivemos em um país em que 35 milhões de pessoas não possuem acesso à água potável e outros 100 milhões (quase metade da população) não têm o seu esgoto tratado. Isso tem um impacto gigantesco na qualidade de nossos rios e reservatórios e na oferta de água limpa, o que causa mais custos no tratamento e disponibilização para a população. Segundo cálculos do Ministério da Economia, até 2033 cerca de R$ 700 bilhões devem ser investidos para mudar esse panorama, graças ao novo marco legal do saneamento. A meta é nos próximos 12 anos universalizar o abastecimento de água e atender 90% dos brasileiros com esgotamento sanitário. Mas ampliar o acesso não pode ser a única frente de trabalho nessa jornada. Educar pessoas e empresas a transformar a sua relação com a água é outra demanda urgente. Por meio da redução do desperdício, o fim do descarte incorreto e uso racional, podemos criar uma nova era pautada pela sustentabilidade, que vai nos ajudar a garantir o futuro equilibrado de todas as nossas atividades. Afinal, não podemos nem sequer imaginar o quanto custaria a todos nós não ter mais acesso à água. Portanto, a afirmação "água é vida" resume bem o tom de conscientização que todos nós devemos ter. * Leo Cesar Melo é CEO da Allonda, empresa de engenharia com atuação em soluções sustentáveis

19 de abril, 2021
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Redução de perdas de água passa pela digitalização

Por Giovanino Di Niro * O Brasil tem pela frente um imenso desafio para conseguir atender as metas incluídas no Novo Marco do Saneamento Básico, que prevê garantir o atendimento de 99% da população com água potável até 2033. Atualmente, esse índice está em 83,6%, o que resulta em quase 35 milhões de brasileiros sem acesso a esse serviço básico, segundo dados do Instituto Trata Brasil. Mas para obter sucesso dentro das melhorias previstas no texto sancionado recentemente, o país terá que resolver um dos grandes problemas do setor, que é o grande volume de perdas de água. Devido à infraestrutura atrasada do saneamento no Brasil, muito devido à falta de grandes investimentos e introdução de equipamentos modernos nos sistemas de transporte e distribuição da água, o país atingiu 38,5% de perdas reais e 37,1% em perdas comerciais ao longo de 2018, segundo dados de estudo divulgado este ano pelo Trata Brasil em parceria com a organização americana Water.org. Para se ter uma ideia da importância desperdiçada, todos os dias foram perdidos o equivalente a 7,1 mil piscinas olímpicas, volume que gerou prejuízo de mais de R$ 12 bilhões no ano base do levantamento. Para reduzir essa quantidade de perdas no transporte e na distribuição de água e dar um passo importante para atingir as metas impostas pelo Novo Marco do Saneamento Básico, é crucial que o sistema seja digitalizado. Medições em relação ao fluxo e pressão da água têm que ser realizadas em vários pontos da rede, por longas distâncias, pois só assim é possível detectar onde há variações que remetem a um problema no transporte e na distribuição. Hoje, por exemplo, a grande maioria das identificações só é feita quando uma pessoa percebe um vazamento e avisa a empresa responsável. Ou, na pior das hipóteses, quando se tem vazamentos pequenos que vão prejudicando o lençol freático até abrir uma cratera no local. Com a digitalização por meio da instalação de medidores ao longo das tubulações, o gerenciamento de todo o sistema passa a ser realizado por meio de dados em nuvem e essa modernização está dentro das novas diretrizes para o setor de saneamento no país. Dessa forma, além de otimizar a gestão por meio de plataformas de inteligência operacional onde os dados são transformados em informações que estão disponíveis em dashboards que ajudam a gerar insights para a adequação do fluxo de distribuição da água, todo o sistema - de uma cidade ou região - passa a ser monitorado em uma única sala de controle. Podemos usar como exemplo o sistema de controle que é realizado hoje nas principais rodovias do país. A partir da instalação de câmeras é feito todo um monitoramento das vias para saber que medidas serão tomadas caso ocorra imprevistos como acidentes, congestionamentos, neblina ou fumaça na pista. Ao detectar algum problema, são avaliadas possíveis medidas para desviar o fluxo de veículos visando evitar possíveis acidentes e maiores congestionamentos. Da mesma maneira, quando se tem uma análise de dados do sistema de distribuição de água, é fácil detectar locais de rompimento da tubulação e tomar medidas para a redistribuição da água para evitar perdas até o reparo do problema. Recentemente, por exemplo, a Siemens trouxe para o mercado brasileiro o portfólio SIWA (Siemens Water) voltado para o saneamento. Entre as tecnologias há uma voltada para detecção do local de rompimento da tubulação, com precisão que varia de 20 a 50 metros. A partir dos dados em nuvem, as soluções também auxiliam as empresas a atuarem de maneira preditiva a partir da detecção de locais propícios para a ocorrência do rompimento de uma tubulação, evitando assim perdas de água, e reduzindo custos com manutenções desnecessárias do sistema. Para se ter uma ideia dos benefícios de introduzir soluções inteligentes no setor, uma cidade europeia onde a Siemens atua conseguiu reduzir os danos nas tubulações em 48% ao longo do sistema de 1.500 quilômetros de tubulação. Como resultado, os vazamentos foram reduzidos em 85% e gerou um aumento do faturamento de água em 7%. Para atingir as metas impostas pelo Novo Marco do Saneamento Básico, o Brasil terá não apenas que expandir a distribuição de água tratada para quase 20% da população brasileira como também modernizar todo o sistema que hoje já está ultrapassado quando comparado a outros países. Com esse grande desafio pela frente, será essencial a redução do grande volume de perdas de água que temos atualmente e isso só será alcançado com a introdução de novas tecnologias que já estão disponíveis ao mercado. * Giovanino Di Niro é Gerente Executivo Digitalização e Saneamento da Siemens.

30 de setembro, 2020
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ÁGUA
Como reduzir o consumo na agricultura e aumentar a produtividade?

Por Ana Paiva * Precisamos falar sobre água. Um recurso que sempre foi tido como inacabável, mas que há alguns anos sabemos que a realidade é outra. As mudanças climáticas, somadas a séculos de indústrias fabris e o uso excessivo de recursos naturais, tornaram a água um bem escasso. Em relatório divulgado em março de 2019, a ONU informa que mais de dois bilhões de pessoas não têm acesso à água potável e mais de quatro bilhões não tem acesso à esgoto sanitário. Dado este cenário, é com grande urgência que o agronegócio, atividade que demanda grande quantidade de recursos hídricos, precisa se mover. Conhecer, desenvolver e aplicar tecnologias e inovações são essenciais neste momento, tanto para garantir a perenidade do próprio negócio como para proteger o planeta das mudanças climáticas. Exemplos positivos existem mundo afora. Em alguns países que a água nunca foi abundante, como Israel, a irrigação por gotejamento, por exemplo, vem sendo utilizada há décadas com muito sucesso. Originado nos anos 1940, na Inglaterra, este sistema se desenvolveu e passou a ser comercializado mais amplamente na década de 1960, nos Estados Unidos e principalmente em Israel, junto com o lançamento do plástico polietileno. Hoje é utilizado no cultivo de cereais, flores, algodão, hortaliças, frutas, cana-de-açúcar, vinhedos, grãos, entre outros. As soluções de plástico estão extremamente alinhadas com os objetivos do agronegócio, que busca produzir mais, com menos recursos. O sistema de irrigação por gotejo é um bom exemplo disto, uma vez que promove aumento de produtividade minimizando o consumo de fertilizantes e água por tonelada produzida, algo essencial para preservação do meio ambiente. A principal característica da irrigação por gotejamento é a economia dos recursos hídricos, pois oferece total controle da água utilizada, garantindo que será colocado no solo exatamente a quantidade de água que a planta precisa. Neste sistema utiliza-se gotejadores com tecnologia autocompensante (que controlam a vazão) e anti-sifão (que impedem a entrada de partículas do solo). Os gotejadores são inseridos em tubos de polietileno que podem ser produzidos com resinas de origem fóssil ou renovável (à base de cana-de-açúcar). Estes tubos de polietileno podem ser colocados na superfície do solo ou enterrados, dependendo da forma de manejo da cultura que será irrigada. Irrigação da cana-de-açúcar com tubos gotejadores enterrados já é uma realidade. Na Índia, por exemplo, há canaviais que a cada dez milímetros que se irriga por gotejamento, ganha-se uma tonelada de cana e a possibilidade de plantar em todo o ano aumenta o rendimento dos equipamentos de plantio. Algo impensável para o país sul-asiático antes desta tecnologia surgir. Essa tecnologia já está em operação nos canaviais brasileiros, pois uma usina goiana registrou um aumento de 70% em sua produção no primeiro ano de irrigação, na comparação com a produtividade obtida em área de sequeiro (área não irrigada). Ou seja, este é apenas um dos vários exemplos que mostram que, com uso de tecnologia, o agronegócio pode aumentar de forma significativa sua produção com consumo muito otimizado de recursos naturais. * Ana Paiva é especialista em Desenvolvimento de Mercado da Plataforma Agro da Braskem.

18 de maio, 2020
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OPINIÃO
De quem é a governança das águas?

Por Yves Besse* Em 2015 a falta de chuvas proporcionou aos paulistas um dos melhores verões com muito sol, calor, piscina, praia e mar - tudo que sonha nas suas férias de janeiro. Mas na volta à sua rotina de trabalho, foi confrontado com uma crise hídrica que o fez mudar vários dos seus hábitos de conforto ligados à água. Passou a racionar os banhos, reutilizar as águas de chuveiros para usos sanitários, pensar em soluções de uso racional das águas e de reúso de águas de chuva para uso doméstico. Finalmente as chuvas voltaram e as preocupações com água voltaram a sua rotina tradicional: enchentes, alagamentos, enxurradas, doenças veiculadas à água etc. Ufa, voltamos a normalidade! Nossa memória é curta. Dois anos antes da crise de 2015 São Paulo foi confrontado com uma das maiores épocas chuvosas e que obrigou a abertura das comportas das represas, o que levou ao alagamento de várias cidades a jusante. Hoje, dois anos depois da famosa crise hídrica, entramos novamente num momento chuvoso, com muita água, enchente e alagamentos. Percebemos que não temos controle nenhum sobre as nossas águas urbanas. Se chove, alaga, se não chove, seca. Não sabemos quem governa as águas de São Paulo e nem do Brasil. Em parte, é a Agência Nacional de Águas (ANA), em parte o Departamento de Água e Esgoto (DAE), em parte é a secretaria estadual de recursos hídricos, em parte as agências de bacia, em parte os municípios, em parte a região metropolitana, e pode ser que eu tenha esquecido alguém. Ou seja, uma verdadeira confusão que ninguém quer resolver. Vale o ditado: cão com vários donos morre de fome. Se queremos evitar futuras crises hídricas - e elas virão, pois o clima é cíclico - deve haver interesse e responsabilidade política e pública. A crise que houve por falta de chuva foi superada graças às chuvas e a impressão que se tem é que o assunto está encerrado, ninguém fala mais da crise hídrica. Mas ela voltará e, quando isso ocorrer, não será mais problema dos políticos atuais, nem dos gestores públicos atuais. Só resolveremos o problema se nós conseguirmos responsabiliza-los pelo ocorrido, de tal forma de que não aconteça mais. A governança das águas é um assunto complexo, que deve ser tratado com muita seriedade, muita competência e com sabedoria específica. Para isso, o Brasil criou em 1997 uma lei para os Recursos Hídricos. Essa lei foi baseada num conceito clássico, que veio da França, do usuário e poluidor pagador e das agências de bacias. Infelizmente a sua tropicalização e seu uso político impedem que ela seja adequadamente implantada e utilizada. Foram criados os conceitos dos rios federais e dos rios estaduais - que acabam se sobrepondo -, assim como as responsabilidades entre as diversas agências de bacias federais e estaduais - que nem sempre existem - e os diversos entes de regulação federal e estadual - que também muitas vezes ainda não existem. Vejamos um exemplo típico de comparação entre a França e o Brasil. A França, nos anos 1970, criou seis bacias hidrográficas e suas respectivas agências de bacias para gerir suas águas. O estado de São Paulo - que é mais ou menos a metade em área da França - criou 22 bacias hidrográficas e suas respectivas agências, que acabaram dominadas por interesses políticos em detrimentos dos interesses técnicos. Quase 20 anos após a aprovação da lei, ainda não conseguimos implantar, de maneira sustentável, a gestão das nossas águas. Vinte anos após a criação de sua lei, a França aplicava entre 500 milhões e 1 bilhão de Euros anualmente, isto é, entre 1,5 bilhão e 3 bilhões de Reais, por agência de bacia. Esses recursos foram obtidos na própria bacia hidrográfica pelo conceito de usuário e poluidor pagador e usado na própria bacia. Isso representa a metade dos recursos que necessitaríamos para universalizar o saneamento brasileiro em 20 anos. A mudança desse cenário passa pela conscientização, planejamento, controle, regulação e, principalmente, responsabilidade e condenação de quem não respeita a lei. Semelhante com o que está sendo feito pela Lava Jato com a corrupção no Brasil. Não existe um único responsável pela governança das águas. Os quatro poderes brasileiros - Executivo, Legislativo, Judiciário e Ministério Público - têm o dever de gerir as águas; a sociedade civil organizada tem o direito de receber essa governança que ela paga por diversos meios, como impostos, taxas e tarifas. A sociedade civil organizada, incluindo a imprensa, deve pressionar os quatro poderes pelos seus direitos de ter água e esgotamento sanitário, de modo a colocar isso na agenda política para que seja tratado de maneira séria e não demagógica. Hoje só temos como alternativa rezar para que chova. Porém, não depende de nós. *Yves Besse é diretor geral de Projetos para América Latina da Veolia Water Technologies

24 de fevereiro, 2017
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ÁGUA
A indústria como parte da solução

Por Jorge Soto* De acordo com o Fórum Econômico Mundial, a crise hídrica é o risco mais impactante que o mundo enfrenta. Enquanto alguns lugares, como a Somália, sofrem com longos períodos de seca, em outros, como no Sul no Brasil, o excesso de chuva causa estragos de grandes proporções. Essas grandes variações acontecem até dentro do mesmo país e em todos os casos há consequências importantes no desenvolvimento socioeconômico. E as mudanças climáticas já estão agravando essa situação. Nós estamos preparados para cenários cada vez mais imprevisíveis e extremos? Há anos a gestão da água é um assunto prioritário para a ONU (Organização das Nações Unidas), mas hoje o tema também está nas agendas de discussões de um número significativo de companhias em todo mundo. Isso porque está claro que sociedade, governo e empresas devem atuar em conjunto para desenvolver políticas que melhorem, em todas as esferas, a eficiência e a produtividade desse recurso natural insubstituível. Se tradicionalmente a gestão da água industrial estava focada apenas em reduzir custos e melhorar a eficiência – cerca de dois terços das maiores companhias globais reportaram estar sujeitas a riscos relacionados ao recurso –, atualmente empresas ambientalmente responsáveis já perceberam que tal estratégia é um componente crítico para o desenvolvimento sustentável. Não querem e não podem competir com a comunidade. Pelo contrário, têm que se engajar na solução do problema. Da porta para dentro das indústrias, além de entender como a água é utilizada e o destino dado aos efluentes, a gestão hídrica deve analisar e otimizar todos os recursos de uma unidade produtiva e levar em conta fatores externos, como as mudanças climáticas. Ou seja, é uma questão estratégica e deve ser incorporada à estratégia de negócios. As empresas precisam identificar riscos e oportunidades associados ao uso desse recurso olhando para o curto, médio e longo prazo. Crescimento da população nas cidades, excesso ou falta de chuva, a integração regional olhando a situação das bacias, mudanças de padrão de uso de solo, são questões que estão em crescimento e devem motivar as empresas a fortalecer o assunto. Por outro lado, onde há um grande desafio há também uma vastidão de oportunidades. Muitas iniciativas interessantes e possíveis de replicar já são realidade e muitas outras podem ser desenvolvidas por meio da inovação. No ABC Paulista, por exemplo, o Projeto Aquapolo é o resultado de uma parceria público-privada que pode fornecer até mil litros por segundo de água de reúso, a partir do tratamento de esgoto doméstico, para outras empresas do Polo Petroquímico de Mauá. Os benefícios vão além da economia de água potável, uma vez que ao tratar esgoto vários problemas ambientais e de saúde pública são minimizados. Há um ganho social claro. Mas também as indústrias da região ganharam, por reduzir o risco de desabastecimento. Outra demonstração dos esforços empreendidos por companhias é o engajamento, ao lado das comunidades, na busca de solução de problemas. No Brasil, o Movimento pela Redução de Perdas de Água na Distribuição – uma iniciativa da Rede Brasileira do Pacto Global da ONU e liderado pela Braskem e pela Sanasa – tem como objetivo debater amplamente a respeito das perdas de água nos sistemas de distribuição, com a participação de governos, sociedade civil e setor privado. Além disso, há iniciativas como o CEO Water Mandate, da ONU, que mobiliza líderes empresariais de todo mundo em busca de avanços no gerenciamento da água e do saneamento; a Comissão Técnica para Água, do Cebds (Conselho Empresarial Brasileiro para o Desenvolvimento Sustentável); e o Instituto Trata Brasil. As soluções para os problemas socioambientais continuarão sendo discutidas ao redor do mundo. A ONU acabou de propor a nova agenda para 2030, os Objetivos do Desenvolvimento Sustentável. Não há dúvidas de que as indústrias têm um papel fundamental na entrega de soluções para esse desenvolvimento que tanto almejamos. Para tal devemos continuar a fazer nosso dever de casa, minimizando os eventuais impactos negativos e potencializando os impactos positivos nas três dimensões da sustentabilidade: econômica, social e ambiental. * Jorge Soto é Diretor de Desenvolvimento Sustentável da Braskem

22 de março, 2016
O acesso à água tem implicações econômicas, sociais e ambientais
ÁGUA
O acesso à água tem implicações econômicas, sociais e ambientais

Por Adalberto Luis Val * Um dos grandes desafios para as atuais e futuras gerações é atender a demanda de itens básicos para o desenvolvimento humano. A previsão para 2030 da Organização das Nações Unidas (ONU) é que a população global vai necessitar de 40% mais água, 35% mais alimentos, e 50% mais energia. Vale lembrar que tanto a produção de alimentos quanto a de energia estão diretamente ligadas à oferta de água. Outra questão vital é a crescente necessidade de ampliação do tratamento de água e da cobertura de saneamento, que impactam tanto a saúde da população quanto a conservação do meio ambiente. Apesar de o acesso à água potável ter sido uma das maiores conquistas dos Objetivos de Desenvolvimento do Milênio (ODM), atualmente, quase 750 milhões de pessoas no mundo não têm acesso à água tratada, 2,5 bilhões não melhoraram suas condições sanitárias e 1,3 bilhão não têm acesso à eletricidade, de acordo com a ONU. Neste sentido, é essencial o entendimento de que o recurso “água” está ligado a tudo na humanidade, da produção de alimentos à urbanização, da saúde ao transporte. E tem impacto no controle de doenças, no desenvolvimento sustentável e, até mesmo, na desigualdade social. Uma cidade que não tem acesso à água potável, por exemplo, pode ter grande prejuízo no seu desenvolvimento humano. Ainda hoje, a falta de acesso à água potável e saneamento é responsável pela morte de uma média de mil crianças todos os dias em consequência de doenças diarreicas. Além disso, a dificuldade de acesso à água condena mulheres e meninas a diminuir muito o tempo dedicado ao cuidado de suas famílias e aos estudos, aumentando ainda mais a desigualdade de oportunidades. O Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF) estima que, na África, a soma do tempo gasto pelas pessoas a cada ano caminhando para se abastecer de água ultrapassa 40 bilhões de horas. E cada vez mais, não é possível dissociar a oferta do manejo. Qualidade ambiental e água estão intrinsicamente ligados. Uma das maiores crises hídricas de todos os tempos, enfrentadas pelo Brasil, em especial a região sudeste, a mais populosa e com as maiores metrópoles, colocam em xeque o tratamento que temos dado aos nossos recursos hídricos. Ao mesmo tempo em que a população sofria com a falta d’água, tinha que conviver com enchentes. Por outro lado, as soluções caseiras encontradas para armazenar água tratada e água de chuva trouxeram outra ameaça à saúde: o crescimento de casos da dengue. Até abril deste ano, o Brasil já havia registrado um aumento de 240%, sendo que só em São Paulo, que tinha a mais grave situação de epidemia, foram registrados 258 mil casos de dengue nos primeiros três meses do ano, representando 56% dos casos no país, e número sete vezes superior ao mesmo período de 2014, conforme dados do Ministério da Saúde. Isso nos leva a repensar soluções imediatistas e sem planejamento, como se estivéssemos lidando com recursos infinitos ou uma situação pontual. E o que também deve ser repensado são as técnicas que temos usado para tratamento de águas servidas, que ocasionam uma série de problemas, como o descarte inadequado de medicamentos, que trazem efeitos devastadores para o meio ambiente. Quando antibióticos, anticoncepcionais, inibidores de apetite e diversos outros medicamentos chegam aos ecossistemas implicam, muitas vezes, na extinção de um conjunto significativo de microrganismos que têm papel importante na recomposição de corpos d’água degradados, além disso, podem contribuir para extinção de um vasto número de anfíbios, de peixes e da própria vegetação do entorno dos corpos d’água, por conta da poluição causada. Em suma, não dá para tratar a água sem pensar todo o ciclo e implicações econômicas, sociais e ambientais. E fica a pergunta: se não é possível desenvolvimento econômico sem água, por que colocar os interesses econômicos acima da preservação de mananciais e fontes de água potável? *Adalberto Luis Val é pesquisador do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (INPA/MCTI) e membro do Conselho Administrativo da Fundação Bunge.

29 de junho, 2015