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POVOS ORIGINÁRIOS

Indígenas querem maior participação na COP 30 e cobram governos

Indígenas querem maior participação na COP 30 e cobram governos

Mesmo representando 5% da população mundial, os povos indígenas ainda protegem 80% das florestas do planeta.

Doutora em desenvolvimento e ambiente pela Universidade Estadual de Santa Cruz (UESC), na Bahia, a pesquisadora Bárbara Nascimento Flores é uma mulher indígena do povo Borum-Kren, originário da região atualmente chamada de Ouro Preto (MG) e foi atrás não apenas sobre o mundo ou sobre a natureza, mas também sobre as suas origens, seus antepassados e a história dos que vieram antes dela — e encontrar seu lugar no mundo. “É por meio dos nossos modos de vida que a gente mantém as florestas em pé, e são elas que mantêm o clima regulado na Terra. Mesmo representando 5% da população mundial, os povos indígenas ainda protegem 80% das florestas do planeta”.

Em seu Lattes, a pesquisadora usa o nome de sua comunidade como sobrenome, para marcar sua identidade: Bárbara Nascimento Flores Borum-Kren e ainda carrega no currículo formações em outras universidades brasileiras e um pós-doutorado no exterior. Bárbara espera que as demandas e preocupações dos povos originários sejam temas debatidos na COP 30 (Conferências das Partes da ONU para o clima), prevista para acontecer entre 10 e 21 de novembro desse ano, em Belém (PA). “Temos que ter espaços onde os povos indígenas tenham protagonismo principalmente nos espaços de decisão sobre a conservação ecológica, a diversidade e os territórios”, diz.

Bárbara disse em entrevista à Agência Bori que foi um trabalho árduo para atingir esse empoderamento e conseguir se identificar como uma pesquisadora indígena. “A gente sofre alguns tipos de violência. O fortalecimento identitário dentro da universidade veio com o fortalecimento identitário do meu povo, que foi declarado extinto. As famílias remanescentes desse povo tiveram que esconder suas identidades como forma de sobrevivência”. Segundo a pesquisadora, as crises climáticas enfrentadas pelo mundo são causadas pela devastação. Mesmo representando 5% da população mundial, os povos indígenas ainda protegem 80% das florestas do planeta. Mesmo nascendo em um contexto urbano, nós mantemos a conexão com o território e as nossas origens. É a forma como a gente enxerga a vida, o território como extensão do nosso corpo. Nossos povos ainda guardam muitas memórias, mesmo povos declarados extintos e que passaram por processos de apagamento histórico, ainda tem muitos conhecimentos sobre biodiversidade muito vivos.

Sobre uma participação entre o conhecimento científico ocidental e o indígena, em especial, em temas ligados à preservação da Amazônia e de sua biodiversidade, Bárbara publicou artigo na revista Science em que trouxe à tona a importância da ciência indígena, que conversa em pé de igualdade com a ciência acadêmica é algo histórico. “Estamos no momento certo para isso, temos ferramentas metodológicas para demonstrar que a ciência indígena deve e pode conversar de igual para igual com a academia. Espero que este artigo abra cada vez mais porta para que os nossos conhecimentos se espalhem como sementes e possam influenciar políticas públicas de como ligar com a terra e com a natureza, com as demarcações”. À respeito da COP 30 a ser realizada no Brasil, em 2025, a expectativa é que os povos indígenas tenham protagonismo principalmente nos espaços de decisão sobre a conservação ecológica, a diversidade e os territórios. “Não temos que participar só como ouvintes, temos que participar das decisões”. E para viabilizar esse aumento de participação dos povos originários, a pesquisadora cita a última COP, na Colômbia, quando houve a formação do Caucus Indígena, um espaço onde os povos indígenas se encontraram para aproximar conceitos e posicionamentos. “Tem também o G9 [coalização de organizações indígenas de nove países sul americanos criada na COP16], um espaço técnico e político para unificar o movimento indígena nas COPs. Estão sendo criados esses espaços de lideranças que estão conversando sobre essas questões para incidir nas decisões da COP”. Bárbara comentou ainda haver um movimento indígena no Parlamento para discutir pautas em comum para povos indígenas do mundo inteiro. “Tem um discurso uníssono, por causa dessa consciência que chamamos de pan-indígena. Antes, os povos ficavam concentrados em demandas do seu próprio território, locais. A partir do movimento indígena organizado, que no Brasil começa nos anos 1970 como movimento político organizado, começa a ter consciência da noção indígena nacional e, mais tarde, internacional. Várias questões que incidem nos territórios no Brasil também incidem em outros países”.

Bárbara disse ainda que os povos indígenas brasileiros e de outros países tem o desejo de conservar a biodiversidade, as florestas em pé para manter os modos de vida tradicionais. “A questão indígena está totalmente relacionada ao território. A questão da conservação dos territórios é a grande base que une as lutas de todos os povos indígenas, a demarcação e soberania dentro dos territórios”. Sobre a postura do Governo atual frente às demandas da crise do clima e da devastação ambiental, a pesquisadora comentou que no Governo Bolsonaro não houve demarcações, nenhuma política, além de boicotes de muitas ações dos próprios ministérios, da Funai, do Ibama. “Houve avanço das invasões dos garimpos, negligência do atendimento aos yanomami. Agora, nenhum governo é bom de fato para os povos indígenas. Os governos são desenvolvimentistas. O governo do PT é desenvolvimentista. Muitas políticas desenvolvimentistas são realizadas em cima dos territórios, como por exemplo Belo Monte, que foi num governo do PT, as hidrelétricas do rio Madeira, que foram no governo do PT, agora o avanço das eólicas, da mineração”. Para a pesquisadora, só veem desenvolvimento para ter melhora na economia, na distribuição de renda e fortalecimento de políticas sociais. “Só que essa ampliação das políticas sociais vem em cima de avanços dentro dos territórios das florestas. Teve demarcação no governo Lula, sim, mas ainda tem muita para fazer, ainda falta muito. Teve a criação do Ministério dos Povos Originários, isso foi bom, mas o ministério não tem como atuar, não tem instrumentalização. Ainda assim, mesmo não sendo suficiente para as demandas dos povos indígenas, o governo do PT dialoga”.

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