SANEAMENTO

Investimento no Brasil ainda é inferior a R$ 100 por habitante

Investimento no Brasil ainda é inferior a R$ 100 por habitante

Enquanto os 20 melhores municípios contam com 98,08% de coleta de esgoto, os 20 piores possuem apenas 28,06%, uma diferença de 70,02 p.p.

O Instituto Trata Brasil em parceria com GO Associados publicou a 18ª edição do Ranking do Saneamento com foco nos 100 municípios mais populosos do Brasil. O levantamento considerou os indicadores mais recentes do Sistema Nacional de Informações em Saneamento Básico (SINISA), ano-base 2024, publicados pelo Ministério das Cidades. A falta de acesso à água potável ainda impacta mais de 30 milhões de brasileiros, enquanto cerca de 90 milhões (43,3% da população) não possuem coleta de esgoto, o que provoca problemas de saúde, falta de produtividade no trabalho, desvalorização imobiliária, perdas relacionadas ao turismo e queda na qualidade de vida da população, impactando profundamente o desenvolvimento socioeconômico do país.

O Ranking do Saneamento é baseado pela análise de três dimensões do saneamento básico em cada município: “Nível de Atendimento”, “Melhoria do Atendimento” e “Nível de Eficiência”. O município paulista de Franca ocupou a primeira colocação, seguida por São José do Rio Preto (SP), Campinas (SP) e Santos (SP). Pela primeira vez na série histórica do Ranking, os quatro municípios mais bem posicionados alcançaram a pontuação máxima. Isso significa que, em 2024, essas cidades não apenas apresentavam níveis de atendimento considerados universalizados, conforme estabelecido pelo Marco Legal do Saneamento Básico, como também registravam baixos índices de perdas, compatíveis com os parâmetros definidos pela Portaria nº 490/2021, que é de 25% para perdas na distribuição ou 216 L/por ligação por dia para perdas por ligação.

Devido ao empate na pontuação, foi necessária a adoção de um critério de ranqueamento. Para isso, utilizou-se a soma dos indicadores de atendimento total de água (IAG0001), esgoto (IES0001) e esgoto tratado em relação à água consumida (IES2003). Esses indicadores variam de zero a 100, resultando em uma pontuação máxima possível de 300 pontos.

Dos 20 municípios mais bem colocados no Ranking de 2026, nove são do estado de São Paulo, seis do Paraná, dois de Goiás, dois de Minas Gerais e um do estado do Rio de Janeiro, enquanto entre os 20 piores municípios do Ranking estão quatro do Rio de Janeiro, quatro no Pará e três em Pernambuco. Do restante, quatro pertencem à macrorregião Norte, três situam-se na macrorregião Nordeste, um no Centro-Oeste e outro na região Sul. Além disso, dos 20 piores municípios ranqueados em 2026, sete são capitais de seus estados: Maceió (AL), Manaus (AM), São Luís (MA), Belém (PA), Rio Branco (AC), Macapá (AP) e Porto Velho (RO).

Nota-se relação direta entre o volume de investimentos e os avanços nos indicadores de saneamento básico. Nesse sentido, um indicador relevante é o Investimento Médio por Habitante, pois permite comparar os grupos dos 20 melhores e dos 20 piores a partir da distância relativa de seus níveis de investimento em relação ao valor estabelecido pelo PLANSAB como referência para a universalização do saneamento nos municípios, de R$ 225 por habitante. Entre 2020 e 2024, os 20 municípios mais bem posicionados no Ranking registraram um investimento anual médio de R$ 176,17 por habitante, cerca de 22% abaixo do patamar nacional médio estimado para a universalização. Esse nível de investimento é compatível com a realidade dessas cidades, que já apresentam indicadores avançados ou universalizados, sem comprometer o cumprimento das metas do Marco Legal do Saneamento Básico e da Portaria nº 490/2021. Em contraste, os 20 municípios com pior desempenho apresentaram investimento anual médio de R$ 77,58 por habitante no mesmo período, cerca de 66% abaixo do patamar nacional médio. Diante de indicadores ainda muito distantes da universalização, esse baixo volume de investimentos dificulta significativamente o alcance das metas legais dentro do prazo.

Nos 20 melhores municípios, o atendimento total de água chega a 99,05%, enquanto nos 20 piores fica em 83,01%, diferença de 16,05 pontos percentuais (p.p.). Enquanto os 20 melhores municípios contam com 98,08% de coleta de esgoto, os 20 piores possuem apenas 28,06%, uma diferença de 70,02 p.p.. No tratamento de esgoto, os 20 melhores registram 77,97%, enquanto os 20 piores alcançam apenas 28,36%, uma diferença de 49,61 pontos percentuais. Já as perdas na distribuição ficam em 24,28% nos 20 melhores e 44,78% nos 20 piores, diferença de 20,50 p.p. O Elevador do Ranking do Saneamento 2026 destaca os municípios que mais variaram de forma positiva e negativa em relação ao Ranking de 2025. É importante ressaltar que os indicadores do SINISA buscam estabelecer um paralelo entre os dados disponíveis e a realidade observável de cada município em termos de infraestrutura de saneamento. Teresina foi o município que mais avançou no Ranking de 2026, com salto de 14 posições, impulsionado pela ampliação do atendimento de esgoto e pela redução das perdas. Guarulhos (SP) avançou 13 posições e Juiz de Fora (MG), 12, com destaque para a melhora nos indicadores de atendimento de água, coleta e tratamento de esgoto. Betim (MG) também avançou 13 posições, destacando-se pela melhora nos indicadores de perdas. São José dos Pinhais (PR) avançou 12 posições e passou a figurar entre os 20 mais bem colocados em função dos avanços nos indicadores de atendimento de água, coleta e de tratamento de esgoto.

São José dos Campos (SP), Joinville (SC) e Cariacica (ES) subiram 11 posições no Ranking de 2026. São José dos Campos (SP) se destacou pela combinação de avanços no atendimento e redução das perdas; Joinville (SC), pelos ganhos no atendimento e no tratamento de esgoto, aliado à redução de perdas; e Cariacica (ES), pela expansão do atendimento e do tratamento de esgoto, aliada à redução das perdas.

Porto Alegre recuou 14 posições, resultado principalmente da redução no atendimento de esgoto e do aumento nos indicadores de perdas. João Pessoa (PB) também caiu 14 posições, com retração nos indicadores de atendimento de água e esgoto, além do aumento das perdas de água. Santo André (SP) perdeu 12 posições no Ranking deste ano, com destaque para a redução no investimento total por habitante, acompanhada de aumento nos indicadores de perdas. Piracicaba (SP) recuou 11 posições, movimento explicado principalmente pela queda no atendimento de água e pela redução do investimento total por habitante (redução de R$ 80), apesar da já universalização no serviço de coleta e tratamento dos esgotos.

Ao todo, 28 municípios já atingiram a universalização do abastecimento de água conforme as metas do Marco Legal do Saneamento. Desse grupo, 11 registram cobertura total de 100%, enquanto outros 17 apresentam índices iguais ou superiores a 99% de atendimento O menor percentual de atendimento de água em 2024 foi de 30,74%, em Porto Velho (RO). No ano anterior, 2023, o menor índice encontrado foi de 35,02%, no mesmo município. O indicador médio de atendimento dos 100 maiores municípios foi de 93,55% e mostra uma pequena queda frente ao índice de 93,91% observado em 2023. No geral, os municípios considerados possuem níveis de atendimento em água superiores à média brasileira total, que foi de 84,1%. Em relação a cobertura de esgoto, apenas três municípios da amostra alcançaram 100% de cobertura na coleta de esgoto. Outros 37 registram índices superiores a 90% e também podem ser considerados universalizados, de acordo com as metas estabelecidas pelo Marco Legal do Saneamento Básico. Na outra ponta, o menor nível de atendimento foi observado em Santarém (PA), onde apenas 3,28% da população possui acesso ao serviço de coleta de esgoto. O indicador médio de coleta dos municípios foi de 76,97% em 2024, menor que os 77,19% verificados em 2023. No geral, os municípios considerados possuem coleta de esgoto superior à média total do Brasil, calculada a partir do SINISA (2024), que foi de 56,7%.

Sete municípios apresentaram valor máximo (100%) de tratamento de esgoto e outros 25 municípios têm valores superiores a 80%, podendo ser considerados universalizados de acordo com a NBR 9.649/1986. Contudo, a nota máxima somente é conferida àqueles municípios que também alcançam a universalização em termos de atendimento (coleta), segundo metas do Novo Marco Legal do Saneamento Básico. O indicador médio de tratamento de esgoto dos 100 maiores municípios foi de 64,42%, uma queda em relação aos 65,11% observados em 2023. Segundo o SINISA (2024), a média nacional para o tratamento dos esgotos gerados foi de 51,8%, novamente menor que a média da amostra do Ranking. No entanto, em ambos os casos, o indicador está em um patamar longe da meta de universalização, apontando uma área com grandes desafios a serem superados.

Entre os 100 municípios analisados, o investimento médio em saneamento foi de R$ 135,89 por habitante em 2024. Os dados revelam, porém, um cenário de insuficiência de recursos. Ao todo, 51 municípios investem menos de R$ 100 por habitante, o que corresponde a menos da metade do patamar de R$ 225 por habitante estimado pelo PLANSAB como necessário para a universalização dos serviços. Em contraste, apenas 17 municípios investem mais de R$ 200 por habitante, sendo que dez deles superam o nível considerado de excelência. Entre os destaques, Praia Grande (SP) registrou o maior investimento per capita do período, com R$ 572,87. Na outra ponta, Rio Branco (AC) apresentou o menor valor, com apenas R$ 8,99. “Os resultados desta edição do Ranking mostram que, apesar dos avanços registrados em diversos municípios no acesso à água potável e à coleta de esgoto, o tratamento do esgoto ainda é o aspecto mais distante da universalização no país e segue como o principal desafio a ser enfrentado. Em um ano eleitoral, é fundamental que o saneamento ganhe centralidade no debate público e integre de forma prioritária as agendas dos futuros governantes em todo o país. Ao mesmo tempo, o empate nas quatro primeiras colocações do Ranking traz uma mensagem positiva: há cidades que estão cumprindo seu papel, alcançando elevados níveis de atendimento e eficiência, o que reforça que a universalização é viável quando há planejamento, investimentos contínuos e boa gestão”, afirma Luana Siewert Pretto, Presidente Executiva do Instituto Trata Brasil. Para Gesner Oliveira, Sócio Executivo da GO Associados, o Ranking do Saneamento do Instituto Trata Brasil chega à sua edição de 2026 não apenas com motivos de celebração, mas também de preocupação. “Se, por um lado, é positivo observar que cada vez mais municípios já atingiram ou estão próximos da universalização dos serviços em 2024, ano de referência do estudo, por outro ainda há localidades em situação bastante precária. Esse cenário se torna ainda mais preocupante à medida que o prazo de 2033 se aproxima sem que, em muitos casos, se observe uma mudança estrutural consistente. Além disso, a melhora, ainda que lenta, dos indicadores médios no país muitas vezes mascara a profunda heterogeneidade que caracteriza o setor no Brasil. Na prática, municípios que já apresentam bons indicadores seguem investindo na modernização e na eficiência de suas redes, enquanto outros permanecem praticamente estagnados. Por isso, é premente que a sociedade civil acompanhe de perto a atuação dos gestores públicos e cobre avanços concretos no saneamento básico, especialmente em um ano eleitoral”.

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