MUDANÇAS CLIMÁTICAS

Mulheres desenvolvem soluções para enfrentar seca pelo mundo

Mulheres desenvolvem soluções para enfrentar seca pelo mundo

As mulheres e meninas enfrentam as maiores dificuldades provocadas pela estiagem, mas, ao mesmo tempo, são as que mais contribuem com o desenvolvimento de soluções para enfrentar tal aridez.

Segundo novo relatório da Convenção das Nações Unidas para o Combate à Desertificação (UNCCD) e da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO), as mulheres e meninas enfrentam as maiores dificuldades provocadas pela estiagem, mas, ao mesmo tempo, são as que mais contribuem com o desenvolvimento de soluções para enfrentar tal aridez. Lançado por ocasião do Dia Internacional das Mulheres Rurais, o relatório intitulado Women-Led Solutions for Drought Resilience pede melhor reconhecimento e apoio aos esforços liderados por mulheres para proteger comunidades vulneráveis dos efeitos devastadores da seca. Ele também ressalta que os direitos das mulheres à terra são cruciais para alcançar a segurança alimentar. “As mulheres há muito são vistas como as mais vulneráveis à seca, mas, como este relatório revela, elas também são as mais resilientes, liderando o caminho no desenvolvimento de soluções para um dos desafios mais urgentes do mundo", disse Ibrahim Thiaw, Secretário Executivo da UNCCD. "A engenhosidade e a desenvoltura das mulheres que combatem a seca ao redor do mundo são ilimitadas. Seja na região do Sahel na África, no norte do Quênia, no Irã, no Peru ou no Marrocos, as mulheres provaram sua resiliência e sua capacidade de superar as condições mais caóticas para manter suas famílias prosperando. Abordar a desigualdade de gênero não é apenas uma questão de justiça — é uma oportunidade de aproveitar o potencial inexplorado na luta contra as mudanças climáticas”.

Mulheres e meninas são desproporcionalmente afetadas pela seca devido às persistentes desigualdades estruturais de gênero que limitam seu acesso a recursos essenciais, como terra, água e serviços financeiros. Essas desigualdades também colocam cargas de trabalho em excesso sobre mulheres e meninas. Em muitas áreas impactadas pela seca, as mulheres são as principais responsáveis por coletar água, muitas vezes caminhando longas distâncias, colocando sua saúde e segurança em risco. Além disso, elas administram trabalho de assistência não remunerado, como cuidar de crianças e idosos, o que complica ainda mais sua capacidade de lidar com a seca e ressalta a necessidade de que os planos de seca levem em consideração os desafios específicos enfrentados pelas mulheres.

Apesar de enfrentar barreiras sistêmicas, como a propriedade limitada de terras, as mulheres estão desenvolvendo soluções inovadoras que permitem que suas comunidades se adaptem às condições ambientais cada vez mais adversas. As mulheres produzem até 80% dos alimentos nos países em desenvolvimento, mas possuem menos de 20% das terras globalmente. Essa disparidade limita seu acesso a recursos como crédito e treinamento e sua capacidade de se preparar e se recuperar de secas, exacerbando sua vulnerabilidade às mudanças climáticas.

Outro ponto a se destacar é que as secas contribuem para 15% das perdas econômicas relacionadas a desastres globalmente e são responsáveis por 85,8% das mortes de gado. Em regiões agrícolas alimentadas pela chuva, a seca ameaça os meios de subsistência das mulheres, que constituem uma parcela significativa da força de trabalho agrícola. Até 40% das terras do mundo estão degradadas, afetando mais de 3,2 bilhões de pessoas. Como resultado da degradação da terra e da seca, muitas mulheres são forçadas a caminhar distâncias maiores para ter acesso a água limpa e coletar lenha para suas famílias.

Em contrapartida, pesquisas mostram que garantir direitos à terra para as mulheres melhora a nutrição das famílias, aumenta os gastos com educação das crianças e melhora as condições econômicas gerais. O relatório apresenta 35 estudos de cases da África, Ásia e América Latina, mostrando a liderança feminina no enfrentamento da resiliência à seca. De práticas de conservação de água a técnicas de agricultura climaticamente inteligentes, os exemplos ilustram como as mulheres estão impulsionando o progresso e construindo resiliência à seca. No Peru, mulheres pastoris combinam conhecimento moderno e tradicional para gerenciar recursos hídricos usando monitoramento ecohidrológico, garantindo vegetação durante todo o ano para sustentar o gado e mitigar crises de seca, enquanto na Índia, elas desenvolveram sistemas de coleta de água da chuva durante as monções, garantindo água para as plantações durante os períodos de seca e protegendo a produção de alimentos. No Quirguistão, as mulheres estão restaurando terras degradadas cultivando ervas medicinais, criando recuperação ambiental e fontes de renda sustentáveis.

As descobertas de Women-Led Solutions for Drought Resilience informarão as discussões na 16ª Conferência das Partes (COP16) da Convenção das Nações Unidas para Combater a Desertificação (UNCCD), que ocorrerá em Riad, Arábia Saudita, de 2 a 13 de dezembro de 2024. Um foco principal da UNCCD COP16, incluindo seu Gender Caucus, será ampliar as iniciativas lideradas por mulheres e garantir que estratégias sensíveis ao gênero estejam no centro dos esforços globais de resiliência à seca. O aumento do investimento nessas estratégias será fundamental para apoiar as comunidades no enfrentamento dos crescentes desafios ambientais impostos pela desertificação, degradação da terra e seca em todo o mundo.

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