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ONU 80, Pacto Global 25: o início de um novo ciclo para a sustentabilidade global

ONU 80, Pacto Global 25: o início de um novo ciclo para a sustentabilidade global

"Vivemos uma convergência de crises climáticas, sociais, econômicas e geopolíticas que evidencia a interdependência entre todos os setores e países"

O ano recém-encerrado marcou um momento raro na história do multilateralismo. Em 2025, o mundo celebrou os 80 anos da ONU, instituição criada em 1945 para reconstruir um planeta devastado por duas guerras mundiais, e os 25 anos do Pacto Global da ONU, maior iniciativa de sustentabilidade corporativa do planeta, que chegou ao Brasil em 2003. Esses marcos históricos não são apenas comemorativos: são verdadeiros convites à reflexão sobre o modelo de desenvolvimento que queremos para as próximas décadas, e sobre a responsabilidade compartilhada de governos, empresas e sociedade civil.

O contexto não poderia ser mais desafiador. Vivemos uma convergência de crises climáticas, sociais, econômicas e geopolíticas que evidencia a interdependência entre todos os setores e países. O grande propósito da Agenda 2030 da ONU, uma visão integrada de prosperidade, justiça social e proteção ambiental, permanece atual e inadiável. Os 17 Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS), 18 no Brasil, que escolheu, muito acertadamente, se comprometer também com a equidade étnico-racial, funcionam como um sistema: não é possível enfrentar a emergência climática sem reduzir desigualdades; não existe competitividade econômica duradoura sem respeito aos direitos humanos; não há inovação possível sem educação, diversidade e segurança do trabalho. É nesse contexto que o Pacto Global se consolida como ponte essencial entre valores universais e ação prática no setor privado.

O Brasil tem papel decisivo nesse cenário! Como uma das maiores economias do mundo e detentor de uma das mais importantes reservas de biodiversidade e água doce do planeta, o país reúne condições únicas para liderar a transição para um modelo de desenvolvimento de baixo carbono, inclusivo e regenerativo. Essa liderança já começou a se materializar por meio de iniciativas coordenadas pela Rede Brasil. A Ambição 2030, por exemplo, reúne dez Movimentos estratégicos centrados em clima, água, economia circular, diversidade, saúde mental, transparência, salários dignos, educação e proteção da Amazônia - todos com metas mensuráveis e compromissos públicos. Até o presente momento, já são 389 organizações aderentes.

Em escala internacional, o SDGs in Brazil 2025 ampliou como nunca a visibilidade da Rede Brasil dentro da ONU, em Nova York. O evento consolidou o país como ator estratégico na promoção dos ODS e atraiu novas parcerias e engajamentos, reforçando a relevância do setor privado brasileiro no avanço global da Agenda 2030. Na COP30, em Belém (PA), esse protagonismo se intensificou: 16 novas adesões ao Pacto Global da ONU – Rede Brasil e aos Movimentos foram oficializadas durante a conferência, sinalizando que as empresas estão dispostas a assumir compromissos reais, verificáveis e alinhados a uma economia mais sustentável, ética e transparente. Para a conferência, inclusive, o engajamento começou bem antes, no Pacto Rumo à COP30, iniciativa que reuniu 14 projetos e 22 ações coletivas e teve a aderência de 487 organizações.

Já no 14º Fórum Mundial sobre Empresas e Direitos Humanos, realizado em novembro, em Genebra, a participação da Rede Brasil deu visibilidade a temas decisivos para o futuro do trabalho. Na ocasião, o lançamento do guia “Saúde Mental e Futuro do Trabalho”, com diretrizes práticas e diagnóstico aprofundado, posicionou o Brasil como referência no debate sobre o tema, uma dimensão fundamental da sustentabilidade corporativa. Somado a isso, o painel sobre multilateralismo reforçou a necessidade de fortalecer sistemas de governança capazes de responder às transformações ambientais, econômicas e tecnológicas que moldarão as próximas décadas.

Mas é necessário reconhecer um ponto fundamental: nenhum desses avanços seria possível sem a adesão voluntária da iniciativa privada. Os progressos observados ao longo de 2025, tanto a nível local quanto no cenário global, são, antes de tudo, fruto da disposição das empresas em assumir compromissos públicos, incorporar práticas responsáveis, rever modelos de negócio e investir em inovação sustentável. O Pacto Global da ONU nasce, existe e se fortalece porque organizações do setor produtivo decidem, voluntariamente, mudar a maneira como atuam no mundo.

A Rede Brasil tem o papel de articular, orientar, catalisar e mobilizar os agentes privados. Mas quem transforma, na prática, são as empresas, sejam elas grandes, médias ou pequenas, que colocam em movimento cadeias produtivas inteiras, influenciam políticas públicas, moldam padrões de consumo e impulsionam tecnologias capazes de reduzir emissões, ampliar inclusão e proteger direitos humanos. Sem essa força coletiva, não há Ambição 2030, não há escala para os ODS, não há capacidade de regeneração ambiental ou transformação social de longo prazo.

Por isso, ao olharmos para 2026 e mais adiante, o desafio não é apenas acelerar a implementação da Agenda 2030: é fortalecer ainda mais o pacto entre as Nações Unidas, o setor privado e a sociedade civil. O novo ciclo que se abre exige maturidade institucional, visão estratégica e, sobretudo, disposição das empresas em continuarem ocupando seu papel como coautoras de soluções sistêmicas – ou seja, não como espectadoras, mas como agentes centrais de inovação, impacto e corresponsabilidade. Os 80 anos da ONU e os 25 anos do seu Pacto Global não celebram apenas o passado, apontam para um futuro que dependerá, acima de tudo, da nossa capacidade de agir juntos. É esse o chamado: transformar compromissos em resultados, princípios em prática e vontade coletiva em impacto duradouro.

*Mônica Gregori é Diretora de Impacto do Pacto Global da ONU – Rede Brasil

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