Perda líquida de manguezais cai 44% nos últimos 20 anos

Um relatório global da ONU indica uma redução significativa de 44% na perda líquida anual de manguezais nas últimas duas décadas, sinalizando o sucesso de esforços internacionais de conservação.
O 3º Relatório de Avaliação Mundial do Oceano (III World Ocean Assessment - WOA III), um estudo global das Nações Unidas, revelou que a perda anual de manguezais está desacelerando em todo o mundo. O levantamento aponta que entre 2010 e 2020 a perda líquida anual de manguezais caiu 44% nas duas últimas décadas. Lançado em junho de 2026, o relatório mostra que a área perdida passou de uma média de 181,5 km2 por ano, entre 2000 e 2010, para 102,4 km2 na década seguinte (2010-2020). O resultado indica que esforços internacionais para proteger esses ecossistemas, como a iniciativa Mangrove Breakthrough, começam a trazer efeitos concretos.
Para o pesquisador Ronaldo Christofoletti, membro da Rede de Especialistas em Conservação da Natureza (RECN), professor do Instituto do Mar da Unifesp e um dos autores do WOA III, a recuperação dos manguezais é uma mudança importante na forma como esses ambientes vêm sendo tratados em todo o mundo. "Infelizmente, o relatório apontou uma degradação acelerada dos ecossistemas marinhos globais. Mas, em relação aos manguezais, percebemos uma evolução muito clara e promissora", afirma. O levantamento contou com a participação de cientistas de 86 países. A mudança de cenário acompanha uma valorização crescente dos serviços ecossistêmicos prestados pelos manguezais à sociedade. Segundo a ONU, os benefícios econômicos gerados por esses ecossistemas, que incluem a proteção da linha de costa, a conservação da biodiversidade e o sequestro de carbono (carbono azul), são estimados em cerca de US$ 65 bilhões por ano.
Para a oceanógrafa Liziane Alberti, especialista em Conservação da Biodiversidade da Fundação Grupo Boticário de Proteção à Natureza, o reconhecimento mostra o avanço do conhecimento científico, dos estudos de valoração econômica, da perspectiva de expansão do mercado de carbono e da mobilização internacional em torno da agenda climática. "O grande salto de qualidade nessa evolução é que hoje os manguezais são reconhecidos como uma das principais Soluções Baseadas na Natureza. Eles não são apenas guardiões da biodiversidade, mas desempenham também um papel estratégico na adaptação às mudanças climáticas e na retenção do carbono azul", afirma. Christofoletti destaca que a proteção desses ecossistemas costuma ser mais eficiente e econômica do que muitas obras de infraestrutura convencional. "Em vez de investir milhões em infraestrutura para diminuir o impacto da erosão na praia e amortecer o impacto de tempestades, a manutenção e restauração de uma área de manguezal faz isso de graça. É uma poupança para o futuro”.
Apesar dos avanços na redução do desmatamento, os especialistas alertam que o ritmo de conservação ainda está longe do necessário. A avaliação global da Lista Vermelha de Ecossistemas da União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN) mostra que metade dos ecossistemas de manguezal do planeta correm risco de colapso. Além disso, cerca de 20% já estão classificados nas categorias mais graves de ameaça: "Em Perigo" ou "Criticamente em Perigo". "O estudo da IUCN deixa claro que essa degradação é impulsionada principalmente pelas mudanças climáticas, em especial pela elevação do nível do mar, que pode submergir mais de 23 mil km2 de manguezais até 2050", explica Liziane.
O WOA III também aponta que o financiamento global ainda não acompanha a importância desses ecossistemas. Atualmente, manguezais, marismas e pradarias marinhas — conhecidos como ecossistemas de carbono azul — recebem apenas cerca de 3% de todo o investimento climático mundial. Segundo o relatório, a escassez de recursos limita a expansão das iniciativas de conservação e restauração. Outro desafio é ampliar a incorporação das Soluções Baseadas na Natureza nas políticas climáticas nacionais. Embora o WOA III destaque que várias nações já incluíram ações de conservação de ecossistemas costeiros em suas metas climáticas, levantamentos globais de monitoramento apontam que apenas cerca de metade dos países com zonas costeiras integraram soluções marinhas em suas Contribuições Nacionalmente Determinadas (NDCs), apresentadas no âmbito da ONU. "É fundamental que governos e mercado compreendam que proteger os manguezais e recuperar sua integridade ecológica é muito mais eficaz e economicamente inteligente do que tentar remediar os danos depois. O futuro do nosso litoral depende de financiarmos e respeitarmos a engenharia da própria natureza", afirma Liziane.
E o Brasil tem importância fundamental ao lado de apenas outros quatro países (Indonésia, Austrália, México e Nigéria) na mudança desse cenário. Todos abrigam cerca de metade de toda a área de manguezais do planeta, o que reforça sua relevância para as metas globais de mitigação das mudanças climáticas. O Brasil tem cerca de 40 milhões de pessoas vivendo em 300 municípios com o ecossistema. O estudo Oceano sem Mistérios: Carbono Azul dos Manguezais, lançado pela Fundação Grupo Boticário em parceria com o projeto Cazul, estima que os manguezais brasileiros armazenem cerca de 1,9 bilhão de toneladas de dióxido de carbono. No mercado voluntário atual, esse estoque representa um potencial de pelo menos R$ 48,9 bilhões, podendo superar R$ 1 trilhão à medida que o mercado de carbono avance e seja regulamentado.




