TECNOLOGIA E INOVAÇÃO

Pesquisadores australianos desenvolvem "armadilha molecular" capaz de remover 98% dos PFAS da água

Pesquisadores australianos desenvolvem "armadilha molecular" capaz de remover 98% dos PFAS da água

Tecnologia inédita da Flinders University utiliza nanogaiolas para capturar substâncias químicas eternas de cadeia curta, consideradas as mais difíceis de eliminar pelos tratamentos convencionais

Pesquisadores da Flinders University, em Adelaide (Austrália), desenvolveram uma tecnologia inovadora de filtração capaz de remover até 98% dos contaminantes conhecidos como substâncias químicas eternas (PFAS) da água, com eficiência significativamente superior aos métodos convencionais. 

O avanço, publicado no periódico científico Angewandte Chemie International Edition em fevereiro de 2026, aborda uma das lacunas mais críticas no tratamento de água: a eliminação de PFAS de cadeia curta.As substâncias per- e polifluoroalquiladas (PFAS) representam um desafio crescente para o setor de saneamento global. 

Originários de aplicações como revestimentos antiaderentes, espumas extintoras de incêndio e embalagens impermeáveis, esses compostos sintéticos acumulam-se no ambiente e nas cadeias alimentares com extrema dificuldade de degradação natural — característica que lhes rendeu a denominação de "químicos eternos" (forever chemicals). Sua presença em mananciais e sistemas de abastecimento de água preocupa profissionais da área de recursos hídricos e saúde pública em todo o mundo.

Nanogaiolas moleculares: o mecanismo por trás da inovação

A equipe liderada pelo Dr. Witold Bloch, pesquisador do Australian Research Council (ARC) na Faculdade de Ciências e Engenharia da Flinders University, desenvolveu uma estrutura molecular em nanoescala que funciona como uma "armadilha de PFAS" altamente seletiva. Diferentemente dos adsorventes tradicionais, o sistema força as moléculas de PFAS a se agregarem favoravelmente dentro da cavidade da nanogaiola, criando um mecanismo de ligação incomumente forte.

Para viabilizar a aplicação prática, os pesquisadores incorporaram essas gaiolas moleculares em sílica mesoporosa — um material que, isoladamente, não possui qualquer capacidade de reter PFAS. Porém, ao receber as nanoestruturas, o material composto passou a capturar contaminantes em amplo espectro de comprimentos de cadeia molecular.

"Realizamos estudos aprofundados sobre como os PFAS se ligam dentro da gaiola no nível molecular. Isso nos permitiu compreender o comportamento preciso de ligação e, a partir desse conhecimento, projetar um adsorvente eficaz para a remoção de PFAS", explicou Caroline Andersson, doutoranda em química na Flinders University e primeira autora do estudo.

O grande diferencial: captura de PFAS de cadeia curta

O aspecto mais relevante da descoberta reside na capacidade de remoção dos PFAS de cadeia curta. Enquanto algumas tecnologias existentes conseguem reduzir parcialmente a presença de PFAS de cadeia longa na água, os compostos de cadeia curta — mais móveis e solúveis — permanecem como um desafio não resolvido para o setor de tratamento. Esses compostos menores vêm sendo cada vez mais utilizados pela indústria como substitutos dos PFAS tradicionais, porém são justamente os mais difíceis de interceptar nos processos de filtração.

Testes laboratoriais com água de torneira modelo demonstraram que o novo adsorvente remove até 98% dos PFAS em concentrações ambientalmente relevantes. O material também apresentou reutilizabilidade comprovada, mantendo alta eficácia após pelo menos cinco ciclos de uso — característica que o posiciona como candidato viável para integração em sistemas de filtração de água potável como etapa de polimento final do tratamento.

Cenário regulatório internacional: pressão por soluções eficazes

O avanço ocorre em momento de intensificação do rigor regulatório sobre PFAS em diversos países. Na União Europeia, a Diretiva 2020/2184 estabeleceu limite de 0,1 µg/L para a soma de 20 PFAS específicos e de 0,5 µg/L para a concentração total de todas as substâncias per- e polifluoroalquiladas presentes na amostra. Nos Estados Unidos, a EPA (Environmental Protection Agency) fixou limites de 4 partes por trilhão (ppt) para PFOA e PFOS na água potável, entre os mais restritivos do mundo. A Austrália, por sua vez, adota valores de referência de 70 ng/L para PFOS e PFHxS e de 560 ng/L para PFOA em suas diretrizes nacionais.

Brasil: ausência regulatória e oportunidade tecnológica

Para o setor de saneamento brasileiro, a inovação australiana ganha relevância adicional diante de um cenário de lacuna regulatória e infraestrutura não preparada para o enfrentamento dos PFAS. O Brasil ainda não possui legislação específica para o controle dessas substâncias em água potável. No âmbito federal, o Projeto de Lei 2.726/2023 propõe a criação da Política Nacional de Controle de PFAS, mas ainda tramita no Congresso. No plano normativo, a ABNT NBR 10.004 encontra-se em fase de revisão para inclusão de parâmetros de PFAS.

No âmbito estadual, a CETESB — Companhia Ambiental do Estado de São Paulo permite a inclusão de informações sobre algumas PFAS em sua planilha de avaliação de riscos em áreas contaminadas, porém de forma ainda limitada. A maior parte dos diagnósticos que vêm sendo realizados no país parte da análise da água, o que sugere que a questão tende a avançar pela vertente do saneamento.

Especialistas avaliam que, via de regra, tanto as estações de tratamento de água quanto as de esgoto no Brasil não estão preparadas para lidar com PFAS — realidade que não é exclusividade nacional, mas que se agrava diante da necessidade de expansão e modernização da infraestrutura de saneamento prevista pelo Marco Legal do Saneamento (Lei nº 14.026/2020).

A adaptação de tecnologias como a desenvolvida pela Flinders University para realidades locais pode contribuir para a melhoria dos padrões de qualidade da água distribuída à população, especialmente em regiões próximas a bases militares, aeroportos e zonas industriais onde o uso histórico de espumas de combate a incêndio à base de PFAS é documentado.

Próximos passos

Os pesquisadores australianos indicam que a tecnologia encontra-se em fase de desenvolvimento aplicado. Os próximos passos envolvem testes em escala piloto e avaliação da viabilidade econômica para implementação em diferentes contextos operacionais, com perspectiva de disponibilização comercial em médio prazo. A pesquisa contou com financiamento do Australian Research Council e utilizou infraestrutura de grande porte, incluindo o Síncrotron Australiano da ANSTO e a Infraestrutura Nacional de Computação de Alto Desempenho da Austrália.


Referências:
ANDERSSON, Caroline V. I. et al. Efficient Removal of Short‐Chain Perfluoroalkyl Substances by Cavity‐Directed Aggregation in a Molecular Cage Host. Angewandte Chemie International Edition, v. 65, n. 12, 2026. DOI: 10.1002/anie.202526027

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