Acabamos de vivenciar o ano mais quente registrado pela humanidade: em 2024, a temperatura média global do planeta ficou 1,6°C acima da média do período pré-industrial. Pela primeira vez, tivemos um ano acima do limite de 1,5° do Acordo de Paris. Isso não quer dizer, entretanto, que a meta não poderá ser cumprida, uma vez que ela diz respeito a evitar esse patamar de aquecimento global por um período superior a três décadas. O que essa ultrapassagem do teto de 1,5°C nos diz é que é preciso agir com mais vigor para evitar os piores cenários, seja reduzindo as emissões de gases do efeito estufa (GEE), seja se adaptando para um planeta já mais quente.
A água tem um papel fundamental para equilibrar esse sistema climático. O vapor d'água é o GEE mais abundante no planeta. Em 2024, com o planeta mais quente e a intensificação da evaporação da superfície do oceano, a atmosfera esteve, em média, com 4,9% de vapor d'água a mais do que entre os anos 1992 e 2020. Porém, diferentemente dos outros GEE, a água em sua forma gasosa se condensa em contato com as baixas temperaturas no alto da troposfera. Em concentração maior, esse processo cíclico é potencializado com mais energia, o que significa eventos extremos mais intensos.
No Brasil, vimos, no último ano, tanto emergências provocadas por enchentes e alagamentos quanto por escassez hídrica. No Rio Grande do Sul, as inundações históricas que atingiram mais de 90% dos municípios em maio de 2024 materializaram de forma trágica os riscos climáticos. Na Amazônia, a seca mostrou como um bioma caracterizado pela abundância hídrica está vulnerável à nova realidade climática. Sistemas econômicos e sociais organizados sob o ritmo das águas consolidado nos últimos milhares de anos estão sob ameaça de colapso.
Segundo o estudo Impacto da Mudança Climática nos Recursos Hídricos do Brasil, da Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico (ANA), a disponibilidade hídrica pode cair até 40% nas regiões Norte, Nordeste, Centro-Oeste e parte do Sudeste até 2040. Ou seja, nos próximos 15 anos.
Promover a segurança hídrica é um dos compromissos climáticos que o Brasil declarou em sua nova Contribuição Nacionalmente Determinada (NDC), apresentada em novembro de 2024 à Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas (UNFCCC). O instrumento doméstico de implementação das metas climáticas brasileiras é o Plano Clima, dividido em uma vertente de mitigação e outra de adaptação. Entre os 16 planos setoriais e temáticos de adaptação, em consulta pública até 25 de abril, está o Plano Temático de Recursos Hídricos.
Para o documento, a ANA elaborou uma classificação específica para o impacto potencial da mudança do clima sobre a disponibilidade hídrica, a fim de facilitar o entendimento e o nível de atenção demandado. Foram definidas as classes Emergencial, Crítica, Alerta e Cautela – do grau de maior criticidade para o mais brando. O resultado traz um chamado à ação urgente: regiões mais densamente povoadas e economicamente mais ativas do Brasil estão sob maior risco de faltar água. A análise alerta para um cenário de vulnerabilidade desigual entre as regiões. No Nordeste, com o agravamento das secas que já marcam a região, 39 milhões de pessoas podem ser impactadas.
A ANA também analisou os cenários de disponibilidade hídrica associados a pontos de captação e demanda de quatro setores usuários de água essenciais no Brasil: agricultura irrigada, geração de energia, abastecimento urbano e indústria. A agricultura irrigada e o abastecimento urbano são os setores mais vulneráveis, com mais áreas classificadas como situação Emergencial ou Crítica.
A segurança hídrica deve olhar não somente o risco de escassez ou garantir a qualidade do fornecimento de água, mas considerar igualmente a intensificação dos eventos extremos como cheias e inundações. Sob essa ótica, 1.891 dos 5.570 municípios brasileiros, abrangendo 44,95 milhões de pessoas, enquadram-se na categoria Emergencial, de maior risco. Além de considerar as medidas primordiais necessárias para proteger vidas nessas ocorrências, a gestão dos recursos hídricos tem o desafio de construir resiliência das infraestruturas para lidar com esses fenômenos extremos.
Este é o momento de uma mudança paradigmática no planejamento do setor de saneamento básico. As séries históricas já não dão mais conta do que vem pela frente. É imprescindível gerir os recursos hídricos à luz das necessidades já presentes, compreendendo as alterações em curso e os cenários futuros, do curto ao longo prazo. O setor é um dos mais vulneráveis às mudanças climáticas e, dada sua transversalidade, suas medidas antecipatórias trarão resiliência também em outras áreas.
Referências



