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Chile dá o exemplo em como enfrentar a escassez hídrica

Por Francisco Alves e Luana Oliveira

Saneamento Ambiental 201Páginas 6-19
Chile dá o exemplo em como enfrentar a escassez hídricaCrédito da foto: © Médiathèque VEOLIA - Christophe Daguet
Mapocho Trebal biofactory

Diante dos crescentes desafios impostos pela escassez hídrica, soluções inovadoras e sustentáveis tornam-se indispensáveis para garantir a segurança no abastecimento de água, especialmente em grandes centros urbanos. Um exemplo emblemático dessa transformação é a estratégia de Biofábricas e, mais recentemente, o conceito de BIO-Cidade, desenvolvido pela Veolia no Chile, há mais de uma década. Esta iniciativa surgiu em resposta a uma severa crise hídrica que impacta fortemente a Região Metropolitana de Santiago, cuja dependência de recursos hídricos superficiais e subterrâneos exige uma gestão cada vez mais resiliente, eficiente e sustentável.

Em entrevista à Revista Saneamento Ambiental, Rachel Bernardin (*), Diretora de Estratégia e Assuntos Institucionais da Águas Andinas, empresa do Grupo Veolia, detalhou como essa estratégia vem sendo estruturada a partir de cinco pilares fundamentais: expansão da captação de água subterrânea, adaptação a eventos climáticos extremos, reutilização de efluentes tratados, implementação de soluções baseadas na natureza e fortalecimento do uso responsável da água. Este modelo não apenas oferece respostas imediatas às crises, mas também pavimenta o caminho para uma gestão hídrica mais integrada e circular.

Diante desse cenário, a Saneamento Ambiental também ouviu Gabriel Penha Pereira, Gerente de Desenvolvimento de Negócios da Veolia Brasil, para compreender de que maneira essa experiência bem-sucedida no Chile pode ser adaptada e aplicada ao contexto brasileiro, contribuindo para a construção de cidades mais resilientes, sustentáveis e preparadas para os desafios climáticos do presente e do futuro.

SANEAMENTO AMBIENTAL – Como foi desenvolvida a estratégia das Bio-fábricas no Chile?

RACHEL BERNADIN – A Veolia desenvolveu a estratégia das Bio-fábricas no chile há 15 anos, através da elaboração do plano de saneamento. Há cerca de 10 anos, o Chile começou a viver uma crise hídrica muito importante, principalmente em Santiago, cujo abastecimento depende atualmente de 80% da água dos rios e 20% de água subterrânea. Percebemos que já não havia água suficiente com os direitos de captação de água que a empresa (Águas Andina) detinha para abastecer a cidade. Por isso, começamos a desenvolver a estratégia de Bio-cidade, que assenta em cinco pilares. Um dos pilares é aumentar nossa capacidade de extração de água subterrânea, porque temos a sorte de, em Santiago, ainda haver muita água nos aquíferos, pois estamos próximos à cordilheira e, de fato, a 50 quilômetros de Santiago a água subterrânea está aflorando à superfície, o que nos dá a possibilidade de extrair mais água do subsolo. Assim, passamos de 16% para 26% nos últimos cinco anos. Isso nos obriga a investir, porque temos que buscar água subterrânea a 50 quilômetros de Santiago e fazer o rebombeamento, pois estamos abaixo do nível da cidade de Santiago.

Outro eixo da estratégia foi a adaptação aos eventos climáticos extremos de turbidez, principalmente. Em Santiago, passamos por eventos semelhantes aos de Valência, que é um dos eventos mais recentes que se viveu em nível mundial, onde temos momentos em que chove muito forte e isso faz com que os rios se transformem em rios de lama. E nesse conceito, assim como há 15 anos, tínhamos nove horas de autonomia, ou seja, do momento em que parávamos de tirar água dos rios e começávamos a ficar sem água na cidade, se passavam nove horas. Aumentamos os poços, ampliamos os reservatórios de regulação na cidade para chegar a 12 horas, mas obviamente isso não era suficiente. E criamos os mega reservatórios de Pirque, uma reserva de água bruta de 1,5 milhão de metros cúbicos e que nos permitiu passar para 35 horas de autonomia. Portanto, muito mais.

No entanto, os dois últimos eventos que tivemos em 2021 e em 2023 duraram mais de 100 horas. Como conseguimos enfrentar? Porque não cortamos a água em Santiago. Conseguimos graças ao fato de termos tido sorte de serem eventos no inverno, quando o consumo não é tão alto. Assim, conseguimos aguentar mais. Fizemos diluição, ou seja, tiramos a mesma quantidade de água do rio, diluímos e conseguimos tratar por mais tempo, mas realmente chegamos ao limite. Por isso, já com o governo, concordamos em fazer obras de infraestrutura que estão agora em fase de Estudo de Impacto Ambiental e que fazem parte do plano para aumentar nossa autonomia diante de eventos extremos de mais de dois dias, de 48 horas. E eu diria que poderia ir muito mais longe, porque vamos conectar nosso reservatório de água bruta na cordilheira acima da principal estação de tratamento da cidade, que é o complexo Viscaya. Então, isso está em andamento, que é o segundo pilar.

O terceiro pilar, que está ligado ao plano de saneamento, sobre o qual falaremos depois, é a reutilização das águas residuais tratadas para uso na agricultura, nos lugares onde se pode. Os rios no Chile são divididos em seções e cada seção tem direitos sobre a água, sendo que parte desses direitos é para uso potável e outros para uso agrícola. Então, a ideia é, em uma primeira etapa, que as Bio-fábricas tratem com os agricultores para que eles nos cedam seus direitos sobre a água bruta do rio para uso potável. E sabemos que, certamente, em 10 ou 15 anos, teremos que utilizar essas águas residuais, tratadas e repotabilizá-las, para uso na cidade. Então, são como novas fontes que também vão junto com outra parte que é a recarga dos lençóis freáticos. Estamos começando a reinjetar água potável no lençol freático para utilizar o subsolo como armazenamento.

O quarto pilar são as soluções baseadas na natureza, porque isso também é importante. No último ano, fizemos quatro quilômetros de valas de infiltração na cordilheira e agora estamos com outro projeto mais importante, com fundos externos e com colaboração público-privada, para fazer um reflorestamento e cinzas de infiltração em uma bacia mais importante da Cordilheira, em uma parte que abastece a cidade de Santiago. Porque acreditamos que a biodiversidade e as soluções baseadas na natureza também são fundamentais. Isso não vai resolver tudo, ou seja, não podemos colocar toda a ênfase nisso, mas faz parte das soluções que devem ser levadas em consideração.

E o quinto pilar é o uso responsável da água, trabalhando principalmente em tudo o que diz respeito a infiltrações, perdas na adução de água bruta, nos grandes aquedutos que abastecem a cidade, toda a rede secundária e os arranques, ou seja, toda a rede de abastecimento. Isso também é algo em que estamos trabalhando.

SANEAMENTO AMBIENTAL – E tudo isso a Veolia faz em colaboração com entes públicos, uma parceria público-privada? Como funciona?

RACHEL – Tudo o que a empresa de saneamento faz é num modelo público-privado, porque, no final, o Estado delegou à Veolia Chile a operação e a manutenção da cidade de Santiago. Mas tudo o que fazemos em termos de investimento é respaldado pelas tarifas. Ou seja: se o estado não validasse a Bio-cidade nós não poderíamos fazer, porque no final tudo é pago com as tarifas. Portanto, a boa notícia é que a cada cinco anos as tarifas da concessão são reavaliadas. É uma concessão vitalícia, mas a cada cinco anos é reavaliado o que temos que fazer. Da mesma forma que validaram o plano de saneamento, há 25 anos, agora o Estado decidiu que precisava avançar para manter Santiago como está, porque se não vamos ter problemas de restrição de água, como aconteceu em outros países. Então, decidiram validar e aprovar os investimentos para poder levar adiante todo esse plano. Portanto, à medida que vamos concretizando, a tarifa vai sendo paga. Mas a tarifa só é validada quando concluímos o trabalho, não antes.

SANEAMENTO AMBIENTAL – E como funciona a estrutura das Biofábricas? Gostaria que nos explicasse com o máximo de detalhes como é a concepção e como funciona, como é a operação.

RACHEL – Tenho a sorte de estar no Chile há 23 anos, portanto vivi todo esse processo por dentro, porque quando comecei na Águas Andina, comecei justamente ajudando, de Paris, com todo o apoio técnico para implementar isso no Chile. Portanto, vivi isso realmente de perto. Digamos que, no início, partiu-se de uma ideia de primeiramente coletar toda a água servida, para ser levada para fora da cidade. Depois, foi construída a chamada estação de tratamento de águas residuais, uma estação tradicional, cuja principal função é tratar as águas residuais e devolver água limpa ao rio, o que já é muito. Mas nos deparamos com dois novos produtos, por assim dizer, que naquele momento ainda eram vistos como resíduos. Os lodos eram levados para o aterro sanitário, o mesmo que recebia os resíduos da cidade. E, por outro lado, havia o biogás, que era queimado em uma tocha. O que aconteceu foi que se trabalhou dizendo: “E por que não tentamos utilizar esses dois insumos em produtos, para valorizá-los?”. E foi aí que a estação de tratamento convencional se transformou em uma Bio-fábrica. Trabalhamos em conjunto com o Estado para criar as leis, porque o que acontece é que, quando se avança com a tecnologia e a inovação, é preciso seguir as leis que permitiam levar os lodos para outro lugar que não fosse um aterro, neste caso para a agricultura.

Então, houve cerca de cinco anos de pesquisa com os ministérios da Agricultura e do Meio Ambiente para poder fazer testes e demonstrar que os lodos eram muito bons para a agricultura, porque permitem fornecer nitrogênio, que geralmente os agricultores precisam fornecer às plantas. Os lodos forneciam matéria orgânica e permitiam melhorar o solo pela própria aeração do solo, por ser um produto que permitia que o solo não ficasse tão compacto. Então, após cinco anos de validação e realização de todos os testes, conseguimos leis que nos permitiram levar os lodos não mais para o aterro sanitário, mas para a agricultura, para os campos. Hoje, coletamos amostras do solo antes de aplicar o biossólido, para garantir que o solo estava em boas condições. O biossólido é levado para análise, realizada por uma universidade estadual, para garantir a transparência. E lá vemos que não há contaminantes, que é o risco que os agricultores viam, não há metais pesados, não há problema. Nós levamos gratuitamente em caminhões o lodo para os campos e espalhamos, para garantir que a dose não seja demasiada, porque se deixássemos isso para o agricultor, o risco era que ele colocasse demais. Então, nós regulamos a dose e depois o agricultor só precisa incorporar e misturar. Essa é a única tarefa dele. Depois, nós coletamos uma amostra do solo quando está misturado, para garantir a rastreabilidade, para que não haja contaminação e evitar problemas posteriores, pois é preciso sempre se proteger, e isso também está acordado com o Estado. Isso tem sido um sucesso.

Legenda da imagem industrial mostrando instalações de tratamento
Biofábrica Mapocho-Trebal

No início foi difícil convencer os agricultores, mas hoje eles veem isso como algo muito bom, porque lhes permite reduzir seus custos, já que precisam usar menos fertilizantes e também fazer menos fertilização e espalhamento, porque nós fazemos isso. Além disso, suas terras têm melhorado com o tempo, graças à matéria orgânica. Então, hoje levamos quase 70% da nossa produção de biossólidos para o campo e os 30% restantes vão para o nosso centro integral de biossólidos, onde continuamos secando esse lodo, porque quando o levamos para a agricultura ele está seco em 25%, e nós o secamos até 90%, e aí estamos em um processo de fazer um produto premium para o qual obtivemos a autorização de comercialização há um ano e que nos permite aplicar em produtos que precisam de uma higienização mais importante, como frutas, vinhas, hortaliças, e também levá-lo ao comércio para as pessoas usarem no dia-a-dia. Este produto, ao contrário do outro, é vendido.

Então, no caso dos biossólidos, passamos de um resíduo para um produto que agrega mais valor à natureza. E o biogás, que é a outra vertente, já não o estamos queimando numa tocha. Atualmente é queimado apenas 7%, porque ainda não temos tudo otimizado em termos de regulamentação, mas digamos que 90%, por assim dizer, é utilizado para outros fins. Primeiro para caldeiras, porque há caldeiras que utilizam o biogás para aquecer todos os processos da Bio-fábrica, ou seja, é preciso aquecer os digestores e tudo o que é hidrólise, o que é feito com o próprio biogás. Além disso, temos em uma Bio-fábrica motores de cogeração que nos permitem produzir energia elétrica, suprindo 70% do consumo de energia elétrica da biofábrica.

Ou seja, somos quase autônomos em termos de energia elétrica em uma das duas biofábricas, que é a Mapocho Treval. E na Farfana, transformamos o biogás em biometano, que passa por outro processo de limpeza. Esse gás é enviado para a rede de consumo da cidade e abastece cerca de 10 mil casas próximas à biofábrica. É por isso que hoje já é um modelo de economia circular, porque partimos de um resíduo que é a água residual tratada, e isso nos permitiu limpar os rios, pois a água limpa é devolvida aos rios, podendo ser utilizada para a agricultura, para consumo humano e para a mineração. E temos os biofertilizantes, que, como acabei de mencionar, são utilizados na agricultura ou podem ser transformados em um produto premium. E o biogás, que não é mais queimado e não polui a atmosfera, mas é utilizado tanto para aquecer os processos de produção de energia elétrica quanto para produzir gás para a cidade.

A geração de energia representa cerca de 80% da planta.

SANEAMENTO AMBIENTAL – Quais foram os principais impactos quando as biofábricas foram implantadas?

RACHEL – No caso da biofábrica, o plano de saneamento, na verdade, mudou a cara do Chile, porque não foi só em Santiago, foi em todo o país. Havia muitos problemas de cólera, tifo, etc., em Santiago, em todo o Chile, digamos, mas houve casos importantes de cólera no final dos anos 1990. E isso fazia com que, quando cheguei ao Chile, não se pudesse comer vegetais nem frutas sem passar tudo por cloro. Então, a gente comia verduras e frutas saudáveis, mas era como se tivesse cloro, acabávamos com problemas estomacais ou não comíamos nada. Então, bom, era um assunto complexo e, graças ao plano de saneamento, já foi possível irrigar todos os campos com água limpa e, consequentemente, elevar o padrão. Ou seja, graças ao plano de saneamento, o Chile passou a ser um exportador de frutas, principalmente cerejas e mirtilos. Muitas das frutas do Chile vão para a Europa e para a China agora, graças a isso, porque têm um certificado que comprova que toda a irrigação agrícola é feita com água não contaminada por esgoto, o que antes não era possível.

Também por causa dos vinhos, as certificações mudaram e permitiram abrir o mercado de forma exponencial neste setor. Já é possível ter frutas e verduras sem precisar adicionar cloro, e isso é um hábito que já se espalhou por toda Santiago. Ninguém usa mais aqueles frascos para adicionar cloro à água para lavar frutas e verduras. Então, também permitiu recuperar espaços de lazer dentro da cidade. Antes, o rio Mapocho, que atravessa toda Santiago, era um rio muito poluído, com muito cheiro, e hoje é uma ciclovia agradável. Neste fim de semana, fizemos um evento cidadão chamado Águas Andina, com uma corrida dentro do rio, porque nesta época o rio tem muito pouca água. Assim, é possível atravessar o rio a pé e correr, ontem foram 5 e 10 quilômetros de corrida. E isso já é bem visto pela população, que perdeu o medo desse rio, ao qual antes não se podia chegar por causa da poluição. E embora seja verdade, e o cheiro ainda o diga, ainda precisamos provar isso. Então, esses são eventos que permitem lembrar que realmente houve avanços.

E isso nos permite, obviamente, pensar na reutilização de águas residuais tratadas para reutilização, o que obviamente é um passo que estamos dando, como está acontecendo em Barcelona, na Califórnia, etc., onde já estão fazendo isso.

SANEAMENTO AMBIENTAL – No Brasil há um cuidado com relação ao uso de biossólidos na agricultura, com a questão dos metais pesados. Esse é um tema que vocês observaram lá?

RACHEL – Nós fazemos análises em todos os lotes de lodo que saem, ou seja, há amostras diárias de toda a produção de lodo, o que permite que o agricultor tenha um certificado, uma análise associada à dispersão, onde não há problema com metais pesados. Isso já aconteceu no passado, principalmente com o cobre, houve um problema em um momento específico e, quando vemos que há um metal saindo, obviamente deixamos de enviar para a agricultura e já é levado, neste caso, foi enviado para aterro sanitário porque sabemos que não podemos usar esse lodo. O Estado também nos obriga a controlar os efluentes industriais que saem de todas as indústrias. Ou seja, todas as indústrias que estão dentro da cidade têm a obrigação de tratar seus efluentes industriais antes de descarregá-los na rede de esgoto. E nós temos monitoramento na rede em muitos pontos para que, em casos como este, possamos saber mais ou menos de onde veio. Neste caso, era complicado porque vinha de um setor público, portanto não fazia parte do setor que podíamos monitorar, mas pedimos autorização ao Estado para nos ajudar e, em conjunto, chegamos à indústria que estava poluindo e resolvemos o problema.

Mas contaminou nossos lodos durante três meses, porque demorou muito para encontrá-los, pois eles fazem o descarte à noite, nos fins de semana, justamente para evitar que seja fácil encontrá-los. Como o lodo fica 28 dias no digestor, quando o digestor está contaminado, ele fica contaminado durante 28 dias. Então, isso era difícil de limpar, de tirar. Isso aconteceu uma vez em 15 anos, mas o resto do tempo estamos muito bem e não há, digamos, contaminação por metais pesados, mas isso também obriga a um trabalho muito próximo com as indústrias que são as que contaminam. Portanto, também é preciso atacar essa parte e ter controle. Existem várias empresas no Chile que se dedicam ao controle das indústrias, que por lei são obrigadas a ter um certificado de uma dessas empresas que valide que o tratamento está em conformidade.

SANEAMENTO AMBIENTAL – Em termos de custos, qual é a viabilidade? Até que ponto um projeto de biofábrica é viável sem cobrar tarifas excessivas? Economicamente e tecnicamente, é um projeto de economia circular fabuloso. E em termos de custos, a viabilidade também é tranquila?

RACHEL – Não sou especialista no assunto, mas o único que posso dizer é que, no Chile, o preço da água é de 1.000 pesos, ou seja, um dólar por metro cúbico, incluindo água potável e esgoto. Ou seja, continua sendo um preço muito baixo, considerando todos os serviços. Acredito que foi uma grande conquista do Chile ter alcançado esse modelo público-privado, permitindo manter uma tarifa tão boa. Porque, no final das contas, se eu comparar, pelo menos com o que conheço da França, estamos com um preço de 6,7 dólares por metro cúbico pelo mesmo serviço. E em Santiago estamos com um dólar por metro cúbico, um dólar ponto dois, digamos, dependendo da cotação, mas é muito barato, não sei quanto é aqui em São Paulo (em São Paulo é quase o dobro)

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Então, teve impacto, sim, porque houve um aumento. Mas eu diria que o modelo que funciona bem é aquele em que a tarifa é definida com base em uma empresa modelo. Assim, a tarifa é definida com base em uma empresa que, por exemplo, não tem perda de água potável ou tem 15%. Então, eles fazem isso de forma muito eficiente e, com base nisso, calculam a tarifa, o que permite chegar à tarifa que temos, que é muito boa e está tão regulamentada que permite que todos encontrem um bom equilíbrio, eu diria, sem que isso tenha um impacto tão grande na cidade. E, de fato, este ano elas aumentaram, porque com todo o plano BIOCidade já fizemos obras que não haviam sido reconhecidas e que tiveram que ser reconhecidas agora, e o preço da água subiu cerca de 5% e não foi um problema em Santiago, porque as pessoas veem que há um retorno, ao contrário do que aconteceu, por exemplo, com a energia, que subiu 50%, e isso sim gerou muita raiva nas pessoas.

Mas em relação à água, quando se vê o trabalho, diria que há uma grande aceitação, porque também se vê que, em nível sul-americano, muitos países têm problemas com a seca, com eventos extremos, com o fato de que a água em muitos lugares não é potável, que não há tratamento de águas residuais.

Então, tudo isso faz com que já exista um conhecimento e uma compreensão de que isso tem um preço e que o preço é barato em comparação com o ambiente. Eu diria que, por enquanto, não há problema nisso.

Acredito que a percepção dos cidadãos acaba sendo muito positiva em relação a isso, como disponibilidade e qualidade do serviço. Então, quando há um ajuste na tarifa, não há problema, porque o cidadão percebe facilmente que tem água disponível, mesmo em eventos como os que estamos enfrentando.

Atuação no Brasil

SANEAMENTO AMBIENTAL – Como você vê a possibilidade de utilização desse conceito das Biofábricas no Brasil? E qual é a visão da Veolia para a gestão de água no Brasil?

GABRIEL PEREIRA – Eu acho que, sobre a questão das biofábricas, em termos de conceito no Brasil isso já avançou muito. Acho que já é um conceito que as grandes empresas de saneamento conhecem. A Veolia consegue trazer, em nível mundial, é a experiência ao longo dos anos em que isso já está sendo feito. E principalmente, de uma forma integrada em grandes estações, em diferentes tipos de estações. Então, o que vemos hoje aqui no Brasil é uma realidade em que existem diversas iniciativas pontuais e específicas para cada estação e para cada realidade. E o que a Veolia traz e contribui é essa experiência e know-how de integrar isso.

É um desafio, tanto que ainda não conseguimos implantar no Brasil exemplos completos de grande porte, principalmente, e talvez a Veolia possa contribuir bastante nisso, no mercado nacional.

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E entrando um pouco mais na questão da gestão da água, no Brasil, vemos que em várias situações – a própria situação da região metropolitana de São Paulo, é um exemplo – não só o estresse hídrico e o agravamento disso com as mudanças climáticas, com os eventos extremos, já se tornou uma realidade. Então, o que acabamos percebendo é que as cidades que estão vivendo isso há mais tempo, como Barcelona, Santiago, e outros países em que o estresse hídrico faz parte da história da gestão hídrica, começamos a perceber um fluxo muito mais forte para a questão da reutilização da água e não apenas para questões industriais. Então, já começamos a ver isso no Brasil, e estamos participando disso, inclusive colocando tecnologias dentro desses grandes projetos de reutilização, e que é, no final das contas, o caminho que vamos acabar tendo que seguir. E, além de simplesmente trazer eficiência aos métodos mais tradicionais com os quais já estamos acostumados a trabalhar, temos que aprofundar a eficiência dentro da gestão hídrica: toda a gestão da distribuição, das redes, bem como pensar um pouco mais além dessa questão da produção.

Hoje em dia, no Brasil, a Veolia já contribui muito em termos tecnológicos. Assim, as grandes estações que têm possibilidade de reutilização da Veolia contam com tecnologia embarcada. E na parte de estruturação de projetos, vemos que há um espaço crescente para que empresas como a Veolia, com o know-how que já temos em nível mundial, consigam trazer esse conhecimento também e resolver problemas locais dentro da gestão hídrica. Acho que esse é um pouco o caminho, talvez, até o aprendizado, as experiências que já temos, quando vemos os cursos sobre dessalinização alimentação de água ou os cursos sobre não ter água, passa a fazer muito sentido toda essa gestão estratégica, que a Veolia já adota em várias de suas operações, pensando em água de reutilização, água regenerada, pensando no reabastecimento de aquíferos. Todas essas tecnologias e o domínio dessas operações e do know-how de tudo isso, acredito que é o que a Veolia consegue, em um futuro, talvez mais próximo do que pensávamos há pouco tempo. Vamos conseguir agregar bastante valor em nível nacional.

Acredito que nos posicionamos como um parceiro, não apenas do setor privado, mas também do público. Não apenas no mundo todo, mas também aqui no Brasil. E lá vamos nós, não apenas fornecendo tecnologias, mas também atuando nas operações. Portanto, hoje temos operações industriais em todo o País na área de água. Em todas as regiões, já temos presença com operações de água. E no mundo público, também, um pouco mais na prestação de serviços. Atuamos menos em um mercado regulado aqui, por enquanto, do que no Chile. Por exemplo, acredito que toda essa discussão vem dentro de um mercado regulado, de concessões. Mas aí é uma questão de estratégia da empresa hoje em dia, e ela se reposiciona trabalhando dentro disso. Mas como prestadores de serviços, semelhantes, inclusive, aos fornecedores e prestadores de serviços de um mercado regulado, também já atuamos hoje. Então, acredito que há um leque de possibilidades muito grandes e de formas diferentes de se estruturar um negócio que está aberto a isso.

Rachel Bernardin
Rachel Bernardin é Engenheira civil hidráulica, francesa. Há mais de 25 anos está atuando em empresas de saneamento, tanto na área de tratamento de água potável quanto no tratamento de águas residuais. Participou da implementação do plano de saneamento de Santiago, da implantação do modelo de economia circular na biofábrica Mapocho-Trebal, e trabalhou na aplicação de soluções de mitigação e adaptação aos efeitos das mudanças climáticas no Chile (gestão de eventos extremos e secas). Há um ano, assumiu a direção da gerência de Estratégia e Sustentabilidade da Águas Andinas - do Grupo Veolia, para dar continuidade ao plano estratégico Biocidade de adaptação às mudanças climáticas, com o objetivo de mobilizar toda a organização em torno dos desafios da sustentabilidade, da educação e da conexão com a cidadania.
Rachel Bernardin

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