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CIDADES INTELIGENTES

Dados, Sustentabilidade e Água: A Revolução Silenciosa do Saneamento Urbano

Por Luana Oliveira

Saneamento Ambiental 201Páginas 51-56
Dados, Sustentabilidade e Água: A Revolução Silenciosa do Saneamento Urbano
Digitalização do saneamento fortalece a gestão ambiental
Com dados em tempo real, automação e foco em eficiência hídrica, a GS Inima Brasil mostra como a digitalização do saneamento pode transformar a gestão ambiental e fortalecer a resiliência urbana.

Num cenário de urbanização acelerada, eventos climáticos extremos e escassez de recursos, a busca por soluções sustentáveis e inteligentes se tornou urgente. O saneamento, muitas vezes relegado a segundo plano, emerge como peça-chave para garantir saúde pública, preservar os mananciais e sustentar o crescimento das cidades. É é na interseção entre tecnologia, dados e sustentabilidade que se desenha o futuro desse setor.

Em entrevista com Giuliano Vito Dragone, diretor de desenvolvimento e novos negócios da GS Inima Brasil, que compartilha como a empresa tem utilizado dados em tempo real, automação, inteligência artificial e plataformas integradas para revolucionar a eficiência hídrica, o reuso de água e a proteção ambiental. Dragone também destaca os desafios e oportunidades da digitalização no Brasil e aponta as tendências que devem moldar a próxima geração de cidades inteligentes, onde saneamento, meio ambiente e inovação caminham lado a lado. A seguir, você confere como o saneamento digital pode ser motor de transformação ambiental, social e tecnológica em todo o país.

Saneamento Ambiental: Como a análise de dados em tempo real tem contribuído para tornar os sistemas de água e esgoto mais eficientes nas operações da GS Inima Brasil?

Giuliano Dragone: A análise de dados em tempo real é essencial para as operações da GS Inima Brasil. Possuímos um software comercial próprio, o GS Inima Smart, que organiza e automatiza processos de atendimento e faturamento. Paralelamente, temos direcionado nossos investimentos ao controle e monitoramento da qualidade da água e do efluente, bem como ao desenvolvimento de soluções de telemetria, planejamento hidráulico e automação de sistemas. Além disso, estamos implementando plataformas integradas de gestão de dados, que favorecem a interoperabilidade entre áreas, a visualização de indicadores em tempo real e a tomada de decisão baseada em evidências. Essas ferramentas qualificam a gestão operacional e estratégica dos nossos serviços. No cenário global, o Grupo GS Inima está implantando o sistema Inima View, uma plataforma digital que permite criar gêmeos digitais (digital twins) de nossas plantas. Essa inovação otimiza os processos de engenharia, possibilitando o acompanhamento remoto. São tecnologias que consolidam a empresa como referência em digitalização no setor de saneamento.

Saneamento Ambiental: A eficiência hídrica é uma pauta central nas cidades inteligentes. Que iniciativas a GS Inima tem adotado para reduzir o consumo e otimizar o uso da água?

Dragone: No Brasil, investimos fortemente na redução de perdas, modernização de redes, automação e reuso de água em concessões atualmente em operação. Em Santa Cruz das Palmeiras, enfrentamos o desafio de perdas elevadas e já registramos avanços significativos. Também utilizamos água de reuso em processos internos e promovemos melhorias operacionais nas ETAs para consumo eficiente. Além dessas iniciativas, operamos projetos de destaque no reuso de água, como o Aquapolo, um dos maiores empreendimentos de água de reuso da América Latina, e o projeto Águas de Reuso de Vitória, que consolida nossa liderança neste segmento e reforça nosso compromisso com a sustentabilidade hídrica. Internacionalmente, a GS Inima é referência em economia circular da água. Somos líderes em reuso no Brasil e operamos grandes dessalinizadoras no Oriente Médio. Projetos como Shuweihat 4 (Emirados Árabes) e Daesan (Coreia do Sul) mostram como combinamos eficiência hídrica e inovação em contextos de escassez.

Saneamento Ambiental: Como a empresa atua na proteção de mananciais e qual o papel da tecnologia nesse processo de conservação ambiental?

Dragone: A proteção dos mananciais é parte da nossa estratégia de segurança hídrica e adaptação às mudanças do clima. Trabalhar com proteção de mananciais ainda é um desafio, pois exige um olhar ampliado para os recursos hídricos de toda a bacia hidrográfica. Isso requer ações articuladas em parceria com demais usuários da água e os gestores de recursos hídricos. Nos municípios onde operamos conduzimos estudos hidrológicos e análise da situação das Bacias Hidrográficas, como o do Ribeirão Baguaçu em Araçatuba/SP, que permitem o desenvolvimento de medidas operacionais, de gestão e de investimento na área ambiental mitigando riscos ambientais. Em termos de tecnologia é bastante comum o uso de sensores, telemetria e automação para monitorar a captação e evitar impactos nos serviços.

Saneamento Ambiental: Como a empresa integra os princípios de ESG às suas soluções tecnológicas e práticas de gestão em saneamento urbano?

Dragone: A GS Inima Brasil possui uma estratégia própria de sustentabilidade chamada Hidrosfera, que incorpora os princípios ESG, endereça a ambição 2030 dos Objetivos do Desenvolvimento Sustentável (ODS) e guia a empresa rumo a uma performance cada vez mais sustentável. O trabalho interno de planejamento, monitoramento e avanço na gestão de cada tema da agenda de sustentabilidade é contínuo e intenso. Há sempre uma grande preocupação em endereçar os principais desafios dos locais onde operamos, das comunidades que atendemos, além do acompanhamento das agendas globais e do mercado — especialmente as expectativas de investidores — que influenciam diretamente a nossa estratégia.

Temos diversos Programas e planos de ação ligados à Hidrosfera e às dimensões ESG. A GS Inima Brasil faz parte do Pacto Global da ONU e integra o CEBDS (Conselho Empresarial Brasileiro para o Desenvolvimento Sustentável), reforçando nosso compromisso com uma atuação alinhada às melhores práticas nacionais e internacionais.

Saneamento Ambiental: Qual a importância da interoperabilidade entre sistemas — como gestão de resíduos, abastecimento e drenagem — para alcançar um modelo integrado de cidade inteligente?

Dragone: Sem dúvida, o olhar integral sobre esses serviços públicos — abastecimento, esgoto, drenagem urbana e resíduos — é fundamental para alcançar um modelo de cidade inteligente. Entretanto, no Brasil, essa sinergia entre operadores de serviços públicos ainda não é tão comum, especialmente no que se refere à prestação integrada. Para que essa realidade se torne possível, seria necessário avançar em soluções conjuntas, modelos de concessão mais integrados e mecanismos regulatórios que favoreçam essa articulação.

Saneamento Ambiental: Como a GS Inima tem trabalhado junto a prefeituras e concessionárias para implementar soluções digitais em cidades de diferentes portes?

Dragone: As soluções digitais ocorrem predominantemente no âmbito da concessionária, ou seja, na prestação dos serviços de abastecimento de água e esgotamento sanitário. Trabalhamos em estreita parceria com as prefeituras e agências reguladoras, principalmente nas frentes de gestão de clientes, com soluções voltadas para manutenção do cadastro, comunicação com os usuários e atendimento de solicitações de serviços.

Do ponto de vista operacional, vemos um grande potencial de desenvolvimento de soluções digitais conjuntas para a gestão de riscos climáticos, com a implementação de sistemas capazes de prever episódios críticos que podem impactar a segurança dos serviços. Esses sistemas possibilitam a adoção de medidas mitigadoras de controle operacional, além do envio de alertas antecipados aos usuários.

Saneamento Ambiental: De que maneira a participação da comunidade e o acesso à informação podem ser potencializados pelas tecnologias digitais no setor de saneamento?

Dragone: A transparência e o acompanhamento da performance dos serviços, bem como do atendimento aos usuários, são temas de grande potencial para as tecnologias digitais. A área comercial, de fato, é a que mais tem avançado para refletir os avanços da sociedade em termos de comunicação digital. Hoje, já contamos com plataformas onde o usuário realiza o atendimento de forma autônoma e digital, mas essa relação é uma via de mão dupla — os usuários também ajudam a concessionária a melhorar seus serviços.

Um desafio comum no setor de saneamento é o conhecimento da população sobre a complexidade e o funcionamento dos sistemas de água e esgoto. As tecnologias digitais facilitam essa interlocução tão importante, permitindo formatos adequados de divulgação das informações, maximizando o alcance das comunicações e potencializando o engajamento dos usuários na gestão dos serviços.

Saneamento Ambiental: Quais são os principais gargalos hoje para a expansão do saneamento digital no Brasil e como superá-los?

Dragone: Entre os principais desafios estão as disparidades de infraestrutura entre regiões, a limitação orçamentária dos municípios e a baixa conectividade digital em áreas remotas. Superar esses gargalos exige investimentos robustos, tanto públicos quanto privados.

No setor de saneamento, temos um enorme desafio para universalizar o acesso, e a sustentabilidade econômico-financeira dos contratos depende, em grande parte, da tarifa. Garantir os investimentos necessários para a ampliação dos serviços já é, por si só, um desafio considerável, pois frequentemente há resistência em discutir os impactos tarifários para os usuários. Investir em modernização e cidades inteligentes se torna, assim, um desafio ainda maior.

Infelizmente, o setor de saneamento ainda precisa superar desafios do século passado, como a ausência de infraestrutura básica, ao mesmo tempo em que lida com os desafios do nosso tempo atual, como mudanças climáticas e digitalização. Os desafios se somam — e, por isso, as respostas precisam ser igualmente inovadoras.

Internacionalmente, temos experiência em operar em ambientes regulatórios complexos. Isso nos permite contribuir com soluções que dialogam com a realidade brasileira. Fortalecer o ambiente regulatório, garantir recursos estáveis e promover a interoperabilidade são caminhos para avançar.

Saneamento Ambiental: Olhando para o futuro, quais tendências tecnológicas devem transformar ainda mais a relação entre saneamento, meio ambiente e inteligência urbana?

Dragone: Como em todos os setores, a inteligência artificial tem o potencial de revolucionar diversos serviços no saneamento. Ela poderá contribuir para o aumento da produtividade, a redução de perdas, a eficiência energética e o uso otimizado de recursos naturais. A automação de processos e o uso de dados em tempo real permitirão uma gestão mais inteligente, preditiva e resiliente dos sistemas.

A inteligência artificial também viabiliza uma atuação mais responsável por toda a cadeia de valor, facilitando o monitoramento de fornecedores e promovendo uma gestão mais rigorosa de critérios ESG, contribuindo para que todos os elos envolvidos na prestação dos serviços adotem boas práticas de sustentabilidade.

Avanços em tecnologias de captura de gases de efeito estufa, novas soluções para promover saúde e segurança dos trabalhadores, bem como o uso de sistemas integrados para avaliação de riscos e adaptação às mudanças climáticas, também tendem a ganhar força. O desenvolvimento de ferramentas que impulsionem a economia circular, a recuperação de energia e nutrientes dos efluentes, e a conservação dos recursos naturais — especialmente os recursos hídricos e a qualidade dos mananciais — será fundamental.

A digitalização contribuirá ainda para fortalecer a gestão de riscos operacionais e ambientais, trazendo mais robustez para os sistemas diante de eventos extremos. Em resumo, o futuro do saneamento estará cada vez mais conectado à inovação, à sustentabilidade e à inteligência na gestão ambiental.

Citação destacada em caixa azul, acompanhada de foto do autor Giuliano Dragone
Giuliano Dragone, da GS Inima Brasil

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