A 33ª edição da Feira Internacional de Tecnologias de Saneamento Ambiental (FITABES), realizada em paralelo ao Congresso da Associação Brasileira de Engenharia Sanitária e Ambiental (ABES), consolidou-se mais uma vez como um dos principais encontros técnicos e institucionais do setor de saneamento no Brasil e na América Latina. O evento ocorreu em Brasília (DF), entre os dias 25 e 28 de maio, reunindo especialistas, gestores públicos, empresas, entidades reguladoras e acadêmicos para debater os rumos e os desafios da universalização dos serviços de água, esgoto, resíduos sólidos e drenagem urbana.
Entre os destaques da FITABES 2025, merecem atenção as soluções voltadas à digitalização e à automação dos serviços de saneamento. Sistemas de monitoramento remoto, inteligência artificial aplicada à gestão de perdas, plataformas de dados para o planejamento de redes e tecnologias para o reuso de água foram apresentados por expositores nacionais e internacionais.
Diante de um cenário marcado por eventos climáticos extremos e por crescentes demandas por eficiência hídrica e resiliência urbana, o encontro reforçou o papel do diálogo técnico e institucional entre representantes dos setores público e privado, do meio acadêmico e da sociedade civil.
Entre os participantes esteve Hariana Silvestre, executiva de Serviços de Infraestrutura da Amanco Wavin, que destacou a importância do evento diante das transformações climáticas e urbanas em curso. Em entrevista, ela detalhou como o setor tem incorporado tecnologias para a gestão de redes, a redução de perdas e a modernização da infraestrutura existente, além de adotar práticas alinhadas à sustentabilidade e aos critérios ESG na execução de projetos.
A Amanco Wavin Serviços apresentou inovações voltadas à gestão eficiente de redes de água e esgoto, com ênfase em soluções para drenagem urbana, reabilitação de redes e redução de perdas hídricas. Entre os destaques estiveram os métodos não destrutivos (MND), que possibilitam a modernização das redes sem necessidade de escavações convencionais, reduzindo o impacto urbano e sendo aplicáveis a tubulações de grande diâmetro. A tecnologia busca adaptar a infraestrutura urbana às exigências climáticas contemporâneas. Outro exemplo foi o Serviço de Gestão de Redes, operado com apoio de inteligência artificial da empresa israelense Takadu, que realiza o monitoramento contínuo das redes por meio de uma central de controle especializada, permitindo diagnóstico ágil de vazamentos, falhas operacionais e anomalias. Também foi apresentada uma estrutura modular para a gestão de águas pluviais, conhecida como Aquacell, voltada à retenção, detenção e infiltração da água da chuva. Produzida com plástico 100% reciclado, a solução propicia benefícios ambientais como a redução de emissões de CO₂ economia em movimentação de terra e menor demanda de manutenção. Além disso, contribui para a mitigação de enchentes ao aliviar a pressão sobre os sistemas de drenagem, possibilitando ainda o reaproveitamento da água para fins não potáveis. As tecnologias destacadas convergem no sentido de promover maior resiliência urbana frente aos desafios da escassez hídrica e das mudanças climáticas.

“A sustentabilidade é uma temática que vem ganhando cada vez mais relevância nas decisões empresariais. Temos incorporado essa pauta de forma consistente ao planejamento e à execução de projetos e soluções integradas de saneamento, sempre com foco na melhoria de desempenho e na redução dos impactos ambientais. Essa abordagem se materializa em diversas frentes, como o desenvolvimento de produtos com menor impacto ambiental, soluções baseadas em economia circular, processos que minimizem as emissões de CO₂ e a gestão eficiente de resíduos e do tratamento de água — contribuindo para a preservação dos recursos hídricos e a sustentabilidade das obras de infraestrutura”, afirmou.
A FITABES reafirma, como fórum estratégico para o setor de saneamento em um momento decisivo para o país. Com metas ambiciosas de universalização dos serviços até 2033, conforme estabelece o marco legal do saneamento, o evento evidencia que alcançar tais objetivos exige mais do que investimento e inovação: demanda planejamento de longo prazo, inclusão social e compromisso com a equidade.
“No evento e presenciei o fortalecimento do diálogo entre todos os stakeholders – da iniciativa privada ao poder público, passando por academia e sociedade civil – para acelerar o desenvolvimento de infraestruturas que não apenas atendam às necessidades básicas da população, mas que também sejam adaptadas e robustas frente às novas realidades climáticas. Meu olhar para a FITABES 2025 é de otimismo estratégico; acredito que o evento foi um momento de reafirmar o saneamento e a infraestrutura como pilares do desenvolvimento socioeconômico e da proteção ambiental,” ressalta Hariana.
A edição de 2025 reforçou a ideia de que o saneamento é um elemento central para o desenvolvimento sustentável, para a saúde pública e para a adaptação às mudanças climáticas — temas que permearam os debates em praticamente todos os eixos da feira e do congresso.
Entre os destaques das discussões esteve a contribuição de Allan Borges, superintendente executivo de ESG da Companhia Estadual de Águas e Esgotos do Rio de Janeiro (CEDAE). Doutorando em Direito da Cidade pela UERJ, mestre em Bens Culturais e Projetos Sociais pela FGV e ex-subsecretário de Habitação do Rio de Janeiro. Borges apresentou uma análise crítica, densa e profundamente ancorada na realidade urbana brasileira. Para ele, o desafio do saneamento no Brasil é menos técnico e mais estrutural. “Não se trata apenas de expandir redes, mas de reconstruir as relações entre o território, o poder público e as populações vulnerabilizadas”, afirmou. Ele lembrou que mais de 90 milhões de brasileiros vivem sem acesso à coleta de esgoto e que a ausência de infraestrutura reflete desigualdades históricas profundamente enraizadas.

Questionado sobre o papel de sua formação jurídica na condução da agenda ESG da CEDAE, Borges citou: “ESG não pode ser apenas uma métrica ou um modismo de mercado. Precisa expressar um compromisso genuíno com os direitos fundamentais e com a justiça socioespacial.” Com uma trajetória pela atuação na gestão pública, ele liderou iniciativas como o CEDAE por Elas, que promove a equidade de gênero na companhia, e o programa Replantando Vida, que associa reflorestamento à reintegração social de egressos do sistema prisional.
Para Borges, decisões estratégicas precisam estar ancoradas em critérios éticos, sociais e jurídicos. “Inclusão e justiça ambiental não são periféricas ao desenvolvimento — são o seu núcleo.”
Ele reconhece que conciliar interesses econômicos, exigências regulatórias e compromissos ESG não é trivial, mas afirma: “É possível, desde que haja coragem institucional e visão estratégica. A experiência da CEDAE tem demonstrado que incorporar a sustentabilidade como lente decisória gera valor público e responde às complexas demandas do setor”.
“É preciso reconhecer que, em sociedades desiguais, até a técnica carrega escolhas políticas.”
Borges também enfatizou a importância de dados primários e de inteligência territorial para uma governança eficaz. “Sem informação de qualidade e transparência, corremos o risco de reforçar as desigualdades que pretendemos combater.” Os censos coordenados por ele revelam a face invisibilizada das cidades — onde a ausência de banheiro, água potável ou coleta de esgoto é a regra, não a exceção.
Inspirado por autores como Amartya Sen e Milton Santos, Borges defende que o saneamento é uma agenda de liberdades reais, essencial para romper ciclos históricos de exclusão. “É preciso reconhecer que, em sociedades desiguais, até a técnica carrega escolhas políticas.” Nesse contexto, a justiça ambiental exige investimentos guiados por evidências territoriais e escuta ativa das comunidades, como as realizadas nos censos habitacionais em 22 favelas do Rio de Janeiro.
Ao projetar os caminhos da CEDAE rumo à COP-30, que será realizada em Belém, Borges é enfático: “O saneamento é, por excelência, uma política climática.” Ele cita, como exemplo, o compromisso da companhia com o reflorestamento de 30 mil hectares até 2030 e a proteção dos mananciais, destacando que essas ações vão além da mitigação ambiental — buscam construir cidades mais resilientes, inclusivas e justas.
Ao citar o economista e ambientalista Sérgio Besserman, Borges conclui: “O leão do clima já está à nossa frente. Não há mais tempo para esperar. Precisamos correr.” E, nessa corrida, o caminho passa, necessariamente, por garantir o saneamento básico como condição para assegurar um futuro sustentável.


