A IFAT Brasil, realizada em São Paulo, no final de junho, reforça o papel estratégico da tecnologia no enfrentamento dos desafios do saneamento básico no país. Entre os temas centrais debatidos no congresso internacional do evento destacam-se a aplicação da Inteligência Artificial (IA) como ferramenta para melhorar a eficiência operacional e a sustentabilidade dos serviços de água e esgoto.
No painel “A importância das entidades dos profissionais do saneamento para a universalização da prestação dos serviços” realizado com Débora Longo, presidente do Instituto Paulista de Excelência da Gestão (IPEG) e diretora executiva da Sabesp, apresentou o Modelo de Excelência na Gestão ESG (MEGIA), um modelo que utiliza IA para analisar relatórios de desempenho. A proposta é apoiar organizações de saneamento a estruturarem processos alinhados a padrões ambientais, sociais e de governança (ESG), favorecendo uma gestão mais qualificada.
A utilização de IA também está transformando atividades operacionais no setor. Robôs com sistemas inteligentes já realizam inspeções em dutos de drenagem, oferecendo maior precisão e agilidade para manutenção preventiva e redução de perdas. Para Rolf Pickert, CEO da Messe Munchen do Brasil, organizadora da IFAT Brasil, essas inovações tendem a crescer de forma exponencial e serão determinantes para alcançar as metas de universalização do saneamento básico.
“As tecnologias embarcadas em equipamentos mecanizados estão sendo fundamentais para cumprir com os indicadores de eficiência exigidos nos serviços de saneamento. Além disso, fornecem dados confiáveis e em tempo real, aumentando a eficiência e tomada de decisões informadas que afetam os processos relacionados à água”, afirmou Pickert.
Além dos debates técnicos, o evento conta com a Arena de Inovação e Startups, espaço voltado para empresas emergentes que desenvolvem soluções para o setor de água, esgoto e resíduos sólidos. A iniciativa busca aproximar empreendedores, investidores e gestores públicos em torno de projetos que podem modernizar o mercado e melhorar o atendimento à população.
Um dos destaques dessa arena foi o Prêmio IFAT Brasil de Tecnologia Inovadora, concedido à empresa AquiSense. A vencedora apresentou uma solução de desinfecção de água por LED UV-C, tecnologia considerada mais eficiente e segura do que os sistemas convencionais à base de mercúrio. A premiação reconhece iniciativas capazes de impulsionar o setor com inovações práticas e sustentáveis.
O evento também abriu espaço para discussões sobre o uso de resíduos como fonte de energia alternativa. Especialistas abordaram os desafios técnicos para ampliar a produção e o uso do Combustível Derivado de Resíduos (CDR) no Brasil. A fabricação do CDR exige controle rigoroso de parâmetros como teor de cloro, índice de cinzas e poder calorífico para garantir segurança e eficiência no processo de queima.

Diego Tarragó, da Fundação Proamb, enfatizou que o domínio tecnológico e o investimento em processos de controle de qualidade são fundamentais para expandir a aplicação do CDR para além do setor cimenteiro. Rejane Afonso, da Monitore Engenharia, destacou estratégias para otimizar o uso desse combustível no coprocessamento, incluindo ajustes na granulometria e sistemas de by-pass para o controle de elementos indesejados.
As discussões ganham relevância em um cenário em que o Brasil precisa investir pesadamente para cumprir as metas do novo marco legal do saneamento. Pesquisa divulgada pela IFAT Brasil, em parceria com a Pezco Economics e a Resolux Company, estima que serão necessários R$ 387 bilhões em investimentos até 2040. A meta para 2033 prevê cobertura de 90% da população com rede de esgoto e 99% com acesso à água potável.
“Apesar de R$ 387 bilhões estarem previstos até 2040 para o setor de água e esgoto, esse montante ainda é insuficiente para a universalização do saneamento até 2033. A disparidade na alocação desses investimentos é notável: a região Norte, por exemplo, possui apenas 2% dos projetos previstos. Essa desigualdade financeira impede que municípios menos favorecidos invistam em infraestrutura e tecnologias digitais essenciais para o saneamento”, afirma Pickert.
Segundo Pickert, as inovações precisam ser pensadas com foco na universalização e na inclusão social. Essa preocupação esteve presente nas discussões sobre o uso de inteligência artificial e biotecnologia voltadas à promoção de projetos que integrem comunidades historicamente excluídas do acesso a serviços básicos. Um exemplo citado foi a produção de biometano integrada à atuação de catadores, mostrando como a tecnologia pode gerar impactos positivos tanto no meio ambiente quanto na geração de renda e inclusão produtiva. Para que esses avanços se consolidem, os partici pantes reforçaram a importância de políticas públicas claras, segurança jurídica e do fortalecimento de redes de cooperação entre governos, empresas e a sociedade civil.

Os dados também indicam o crescimento da participação da iniciativa privada no setor, que saltou de 5,2% dos municípios em 2019 para 15,7% em 2023. A previsão é que esse percentual alcance 45,6% até 2026, o que mostra a importância de novos modelos de gestão e parcerias público-privadas para viabilizar os investimentos necessários.
A IFAT Brasil recebeu visitantes de todos os estados brasileiros e de outros países sul-americanos. Empresas expositoras também destacaram o papel da feira como espaço de aproximação entre fornecedores e clientes. Flávio Alcantara, diretor da Hidrosolo, de Alagoas, reforçou a demanda crescente por retrofit de estações de tratamento de água e esgoto no país. Para Andréia Fagundes, da Stihl, do Rio Grande do Sul, a participação no evento foi motivada pela busca de soluções inovadoras para reduzir impactos ambientais em processos industriais.
A IFAT Brasil reuniu mais de 200 marcas expositoras e foi um fórum estratégico para o debate de políticas públicas, troca de conhecimento técnico e exposição de tecnologias voltadas à gestão de recursos hídricos, resíduos, energia e mudanças climáticas.

