Saneamento Ambiental

Ler como:
Revista
Artigo

ESG

O Avanço das Práticas ESG nas Obras de Saneamento

Por Luana Oliveira

Saneamento Ambiental 201Páginas 38-41
O Avanço das Práticas ESG nas Obras de Saneamento
Sabesp tem procurado gerar menos impactos com suas obras
Indicadores ambientais, diagnósticos sociais e escuta ativa tornam-se ferramentas essenciais para alinhar obras de saneamento à justiça climática e ao desenvolvimento local

O fortalecimento de políticas ambientais, sociais e de governança (ESG) no setor de saneamento no Brasil tem ampliado a adoção de práticas estruturadas nos canteiros de obras e na gestão corporativa das empresas. Em um contexto marcado pela urgência das mudanças climáticas e pela crescente demanda por equidade social, essas iniciativas vêm se consolidando por meio de metas claras, indicadores monitoráveis e integração com agendas internacionais de sustentabilidade.

A adesão aos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) da ONU tem sido uma das principais referências para a mensuração dos impactos das obras em comunidades e territórios. A partir desses parâmetros, empresas do setor vêm adotando indicadores como controle de emissões de gases de efeito estufa, gestão de resíduos sólidos, ruídos e material particulado, além de critérios de conformidade técnica, jurídica e documental. Tais dados subsidiam tanto a avaliação do desempenho atual quanto a identificação de oportunidades de melhoria e planejamento estratégico.

Nesse cenário, destaca-se a atuação da Sabesp, que tem incorporado os princípios ESG à sua estratégia institucional. Segundo Rachel Sampaio, diretora de Sustentabilidade da companhia, a empresa vive uma fase estruturante, orientada por dois eixos centrais: a universalização dos serviços de saneamento até 2029 e o alinhamento da operação à agenda climática global. “A centralidade dos princípios ESG é inegociável. Nossas metas não se restringem à infraestrutura — envolvem a redução de emissões, valorização de resíduos, reuso da água e inclusão social efetiva”, afirma.

Entre os instrumentos adotados pela Sabesp estão os financiamentos sustentáveis, como debêntures verdes e azuis, cujos desembolsos estão condicionados à entrega de resultados socioambientais auditáveis. Os projetos são acompanhados por indicadores rigorosos, com foco em metas como ampliação da cobertura de esgotamento sanitário, reuso industrial e descarbonização da operação.

A economia circular também ocupa lugar de destaque na agenda da companhia. Um exemplo é o Aquapolo Ambiental — maior sistema de reuso industrial da América Latina — que tem servido de modelo para novos polos industriais, substituindo o uso de água potável por água de reuso em processos produtivos. A empresa também participa da construção da usina Barueri Energia Renovável, voltada à conversão de resíduos sólidos urbanos em energia elétrica.

A inovação tecnológica representa outro vetor essencial para um futuro resiliente no saneamento. O uso de sensores, automação em estações de tratamento e sistemas digitais integrados tem contribuído para o aprimoramento da gestão, com redução de perdas, aumento da eficiência energética e maior capacidade de resposta a eventos extremos.

Dimensão social das comunidades

A atuação territorial da Sabesp também tem priorizado a dimensão social. Por meio de diagnósticos prévios, escuta ativa e iniciativas como o programa Parceiros pelo Impacto, a empresa busca construir relações duradouras com as comunidades, promovendo desenvolvimento local e redução de vulnerabilidades. “Uma obra de saneamento não é apenas técnica. Ela precisa gerar pertencimento e mudança real na vida das pessoas”, ressalta Rachel.

Programas como Água Legal e Se Liga na Rede combinam infraestrutura com ações de educação sanitária, regularização fundiária e acesso à tarifa social. Em paralelo, as intervenções são monitoradas por indicadores socioeconômicos, como aumento da renda familiar ou melhoria no acesso a direitos, a fim de mensurar os impactos positivos gerados.

“Reutilizar água, proteger mananciais, reduzir o uso de fertilizantes, extrair energia limpa de resíduos: essas são práticas que já estão ao nosso alcance”

A Paresi, empresa que também atua na implementação de estratégias ESG no setor, tem enfatizado a necessidade de transformar dados em valor real para a sociedade. “Trata-se de compreender a realidade socioambiental das comunidades e, a partir disso, definir diretrizes como controle de emissões, gestão de resíduos e transparência nos processos”, afirma Geovana Conti, CEO da Paresi.

Para além das exigências legais, a empresa tem investido em oficinas, capacitações e mentorias com o objetivo de estimular o uso criativo e eficiente de materiais reaproveitados e fomentar a autonomia local. A medição da pegada de carbono, por exemplo, tornou-se uma ferramenta essencial. O monitoramento de frotas, combustíveis e equipamentos possibilita a criação de metas de redução de emissões e aprimoramento da eficiência energética.

Apesar dos avanços, a consolidação das práticas ESG ainda enfrenta entraves significativos. Entre os principais desafios estão a padronização de metodologias, a capacitação de equipes técnicas e a dificuldade de integração dos indicadores às rotinas operacionais. A ausência de diagnósticos sociais prévios, em muitos casos, compromete o potencial de impacto das intervenções.

A experiência de empresas como Sabesp e Paresi, no entanto, indica caminhos promissores. A realização de mapeamentos sociais, o diálogo com lideranças locais e a análise dos perfis socioeconômicos das comunidades têm se mostrado fundamentais para a construção de projetos mais inclusivos e eficazes.

O setor de saneamento detém potencial estratégico na transição para uma economia de baixo carbono. Tecnologias como a geração de energia a partir do biogás produzido em estações de tratamento de esgoto ou a extração de nutrientes dos efluentes já estão em operação em diversas iniciativas. Tais soluções demonstram que é possível conjugar inovação, responsabilidade socioambiental e geração de valor.

“Reutilizar água, proteger mananciais, reduzir o uso de fertilizantes, extrair energia limpa de resíduos: essas são práticas que já estão ao nosso alcance”, conclui Geovana. A experiência mostra que a integração dos critérios ESG desde a concepção até a operação dos projetos fortalece não apenas a governança ambiental e social das empresas, mas também a capacidade do setor em responder aos desafios climáticos e sociais contemporâneos.

Legenda identificando a primeira foto de executiva
Geovana Conti, CEO da Paresi
Legenda identificando a primeira foto de executiva
Raquel Sampaio, diretora de Sustentabilidade da Sabesp

Artigos relacionados