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MINERAÇÃO URBANA

O tesouro esquecido no lixo eletrônico

Por Luana Oliveira

Saneamento Ambiental 201Páginas 48-50
O tesouro esquecido no lixo eletrônico
Dispositivos eletrônicos precisam ser descartados de forma correta
Descartar eletrônicos sem reciclagem é desperdiçar recursos valiosos e agravar impactos ambientais que já começam antes do fim da vida útil dos equipamentos

A sociedade contemporânea está cada vez mais conectada – e, consequentemente, mais dependente de dispositivos eletrônicos. Celulares, notebooks, televisores, eletrodomésticos e tantos outros itens tecnológicos nos servem por um período e, ao se tornarem obsoletos, muitas vezes são descartados de forma inadequada, gerando um passivo ambiental preocupante. Diante disso, a chamada mineração urbana surge como uma resposta estratégica e sustentável para a gestão de resíduos eletrônicos e a preservação dos recursos naturais.

Como afirma o professor Jorge Alberto Soares Tenório, titular da Escola Politécnica da USP e coordenador do LAREX (Laboratório de Reciclagem e Extração), os impactos ambientais do descarte de resíduos de equipamentos eletroeletrônicos (REEEs) começam antes mesmo do fim de sua vida útil. “Os impactos ambientais causados pelos resíduos eletroeletrônicos começam antes mesmo do descarte e se agravam no pós-uso, quando a liberação de metais pode contaminar solos e corpos d’água, afetando o equilíbrio dos ecossistemas”.

Os equipamentos eletrônicos modernos, por serem de alto desempenho, exigem materiais cada vez mais específicos e escassos – como os elementos de terras raras, presentes em telas de LED, e o indispensável cobre, comum a praticamente todos os dispositivos. A demanda crescente por esses materiais leva à intensificação da mineração tradicional, com impactos significativos sobre o meio ambiente, como desmatamento, poluição hídrica e emissões de gases de efeito estufa.

A alternativa sustentável está, literalmente, no lixo eletrônico. “A mineração urbana e a economia circular são imprescindíveis para uma gestão ambiental inteligente. É possível recuperar metais valiosos e, com isso, reduzir a extração primária, diminuir impactos ambientais e gerar valor econômico”, afirma Tenório. No entanto, ele alerta: “O Brasil ainda carece de tecnologia para realizar essa recuperação de maneira eficiente, ao contrário dos países mais desenvolvidos, que investem em inovação e infraestrutura para reciclagem”.

A presença de substâncias tóxicas, como chumbo e mercúrio – embora atualmente regulada por normas internacionais – ainda representa riscos consideráveis quando os resíduos não são processados corretamente. “Mesmo com restrições, muitos dispositivos antigos ou ilegais ainda contêm esses elementos, e o descarte inadequado permite que esses metais contaminem os recursos hídricos e o solo, causando desequilíbrios na fauna, flora e, eventualmente, afetando a saúde humana”, destaca o professor.

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Economia circular permite recuperar metais valiosos

Nesse contexto, a ausência de políticas públicas robustas para o tratamento e reaproveitamento de REEEs é uma lacuna crítica. “Sem políticas públicas eficazes, não há o que proteja de fato o meio ambiente. A gestão adequada desses resíduos começa, necessariamente, com diretrizes claras, incentivos ao desenvolvimento tecnológico e responsabilidade compartilhada entre governo, indústria e sociedade”, conclui Tenório.

A mineração urbana é uma oportunidade econômica. É uma necessidade ambiental urgente. Transformar o lixo eletrônico em recurso é um caminho estratégico para mitigar os impactos da mineração tradicional, preservar os ecossistemas e alinhar o país com os princípios da sustentabilidade e da economia circular. O futuro da gestão ambiental talvez esteja escondido dentro de um velho celular, esquecido no fundo da gaveta.

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Jorge Alberto Tenório, Coordenador do Larex

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