Imagine um robô navegando silenciosamente por um túnel submerso de mais de mil metros, detectando falhas, mapeando estruturas e evitando riscos humanos. Essa realidade, que até há pouco tempo parecia restrita à ficção científica, já é aplicada no Brasil, graças aos avanços da robótica subaquática e dos drones para inspeção ambiental e industrial.
De acordo com o Prof. Geraldo José Adabo, coordenador do projeto na Divisão de Engenharia Eletrônica do ITA, a robótica — seja aérea, terrestre, aquática ou subaquática — apresenta desenvolvimento permanente. “O maior trunfo das soluções robóticas é a capacidade de resolver problemas específicos de forma eficiente e segura”, afirma.
No contexto das tubulações, onde a inspeção representa uma das demandas mais relevantes, a evolução tecnológica dos sensores subaquáticos viabilizou soluções inovadoras. “O know-how essencial está na integração de todos os subsistemas do veículo e da infraestrutura ao redor, criando um sistema robótico subaquático funcional para finalidades específicas”, explica Adabo.
Sensores de última geração permitem a detecção de falhas, vazamentos e obstruções mesmo em ambientes sem iluminação e com águas turvas. Sistemas de câmeras e sensores ultrassônicos ajudam na navegação, evitam obstáculos e permitem reconstruir digitalmente o interior das tubulações. “Esses sensores geram nuvens de pontos das paredes, possibilitando análises detalhadas e diagnósticos precisos”, detalha o professor.
Em áreas urbanas, o uso de drones e robôs subaquáticos se mostra particularmente eficiente quando comparado às inspeções tradicionais. A viabilidade econômica e o risco à segurança do operador determinam quando a tecnologia deve ser aplicada. Em operações de alto risco ou repetitivas, a automação representa um ganho significativo em segurança e confiabilidade.
No monitoramento de rios urbanos e no controle de enchentes, essas tecnologias têm potencial estratégico. Robôs subaquáticos podem acompanhar a evolução dos leitos, inspecionar barragens e túneis de adução, permitindo manutenção preventiva e evitando acidentes graves. “O impacto positivo sobre a sociedade é evidente, com segurança, economia de recursos e preservação ambiental”, ressalta o coordenador.
“O impacto positivo sobre a sociedade é evidente, com segurança, economia de recursos e preservação ambiental”
Além da segurança, os ganhos em tempo e custo são expressivos. A repetibilidade das operações realizadas por robôs garante dados consistentes e possibilita o acompanhamento histórico de infraestruturas, algo difícil de alcançar com inspeções humanas. Isso favorece a tomada de decisão e a implementação de políticas públicas mais eficientes.
Os projetos do ITA dialogam diretamente com políticas de saneamento, gestão de enchentes e revitalização de rios urbanos. Segundo Adabo, a aproximação entre instituições públicas, privadas e acadêmicas viabiliza soluções tecnológicas de alto valor agregado, atendendo demandas específicas e promovendo inovação aplicada.
Entre os destaques do instituto, está o projeto “Sistema Autônomo Subaquático para Inspeção de Túneis de Adução” – P&D Aneel, responsável pelo desenvolvimento do VITA2, veículo de inspeção autônomo que mapeou um túnel de 1.145 metros, com 12 metros de diâmetro, utilizando sensores inerciais e ultrassônicos. O projeto envolveu parceria com empresas do setor elétrico e investimento de R$ 5 milhões em quatro anos.
A execução do projeto eliminou a necessidade de drenagem do túnel, tarefa complexa e arriscada, reduzindo custos e evitando interrupções na geração de energia. O VITA2 foi testado em diversas usinas, incluindo Ceran (RS), Foz do Chapecó (SC), Jaguari (SP) e Capão Preto (SP), consolidando o laboratório de sistemas autônomos subaquáticos do ITA como referência nacional e internacional.
O sucesso do VITA2 resultou em registro de patente junto ao INPI e sua apresentação no evento bianual do setor elétrico, Citenel, evidenciando o avanço da robótica subaquática aplicada à infraestrutura crítica. “É a primeira vez que um robô executa um mapeamento completo de um túnel submerso com autonomia total de navegação e controle”, destaca Adabo.
Para os próximos cinco anos, o professor prevê crescimento expressivo do uso de robôs e drones no setor de saneamento e monitoramento ambiental urbano. “A convergência entre políticas públicas, conhecimento científico e investimento responsável pode gerar soluções de grande benefício à sociedade, elevando padrões de segurança, eficiência e sustentabilidade”, conclui.

