Resumo
O artigo apresenta a análise dos resultados da composição química, biológica e física do lodo gerado na Estação de Tratamento de Água do Sistema Produtor São Lourenço (SPSL) S.A, situada em Vargem Grande Paulista – SP e os limites dos contaminantes e nutrientes referen- , Ranieri Ribeiro dos Santos ciados pelas instruções normativas do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (MAPA) de no 7/2016 (BRASIL, 2016), no 35/2006 (BRASIL, 2006) e no 25/2009 (BRA- SIL, 2009) e a escala de valores proposta por Kiehl (2010) para avaliar a qualidade de fertilizantes orgânicos e condicionadores de solo.
Tabela 1. Composição química, biológica e física de amostra de lodo de ETA de Vargem Grande-SP
| Atributos | Lodo de ETA | Limites |
|---|---|---|
| pH (H2O) | 6,2 | 5-9 (1) |
| Matéria Orgânica (%) | 21,1 | ≥ 15 (1) |
| Nitrogênio total (%) | 0,88 | Mínimo 0,5 (2) |
| Fósforo total (%) | 1,87 | 1,5 (3) |
| Cálcio total (%) | 2,4 | 1,5 – 3,0 (3) |
| Arsênio total (mg/kg) | 3,36 | 20 (1) |
| Chumbo total (mg/kg) | 13 | 150 (1) |
| Cádmio total (mg/kg) | 1,0 | 3,0 (1) |
| Cromo hexavalente (mg/kg) | < 0,4 | 2 (1) |
| Mercúrio total (mg/kg) | 0,07 | 1,0 (1) |
| Níquel total (mg/kg) | 16 | 70 (1) |
| Selênio total (mg/kg) | < 0,04 | 80 (1) |
| Ferro total (mg/kg) | 11.294,66 | - |
| Alumínio total (mg/kg) | 16.625,04 | - |
| Manganês total (mg/kg) | 318,6 | - |
| Acrilamida (μg/kg) | 1,8 | - |
| Coliformes termotolerantes (NMP/g ST) | 9,0 x 10² | < 1.000 (1) |
| Ovos viáveis de helmintos (ovos/g ST) | < 0,001 | 1(1) |
| Salmonellas sp (Ausente em 10 g ST) | Ausente | Ausente (1) |
| Capacidade de Retenção de Água (%) | 84,9 | 60 (4) |
| Capacidade de Troca de Cátions (mmolc kg-1) | 585,5 | 220,0 (4) |
1. Composição do lodo da Estação de Tratamento de Águas (ETA)
Na Tabela 1 estão apresentados os valores dos atributos químicos, biológicos e físicos determinados nas amostras de lodo de ETA contendo Policloreto de Alumínio (PCA) férrico, observa-se no quesito de contaminantes ambiental e sanitários que os teores totais de arsênio, chumbo, cádmio, cromo hexavalente, mercúrio, níquel e selênio e os números de coliformes termotolerantes, ovos viáveis de helminthos e Samonella sp estão abaixo dos limites considerados como inadequados pela Instrução Normativa SDA no 7/2016 (BRASIL, 2016).
Quanto à qualidade agronômica, nota-se que os valores de pH (H2O), matéria orgânica, nitrogênio, fósforo e cálcio atendem aos limites estipulados pela Instrução Normativa SDA no 7/2016 (BRASIL, 2016) e a escala de valores de qualidade de fertilizantes orgânicos elaborada por Kiehl (2010). Em relação aos aspectos físicos, é possível observar na Tabela 1 que o valor da Capacidade de Retenção de Água (CRA) foi de 84,9% e a Capacidade de Troca de Cátions (CTC) foi de 585,5 mmolc kg-1 esses resultados atendem as especificações determinadas pela Instrução Normativa SDA no 35 /2006 (BRASIL, 2006) que estabelece os critérios para o registro de condicionador de solo.

Já para o ferro, alumínio, manganês e acrilamida não há na literatura valores de referências para atestar a qualidade do resíduo orgânico para ser utilizado na agricultura como fertilizante orgânico ou condicionador do solo.
Assim, para avaliar se os teores de ferro, alumínio, manganês e acrilamida irão comprometer o desenvolvimento das plantas, foi realizado um ensaio de fitotoxicidade com plântulas de alface (Lactusa sativa) e rúcula (Eruca sativa) submetidas com diferentes concentrações de amostras de lodo de ETA.
2. Bioensaio de fitotoxicidade com plântulas de alface (Lactuca sativa) e rúcula (Eruca sativa)
Para a execução do bioensaio de fitotoxicidade foi necessário preparar os lixiviados das amostras de lodo de ETA nas proporções de 0, 5, 10, 15, 20, 25 e 100%, conforme a metodologia adaptada de Matthews e Hastings (1987). E foram utilizadas sementes de alface (Lactuca sativa) e rúcula (Eruca sativa), por fazerem parte das espécies recomendadas para a execução de testes de avaliação da toxicidade de substâncias e produtos químicos (USEPA, 1996). Foram colocados papel filtro em placas de Petri que depois foram saturados com 4 ml do lixiviado na concentração de 5, 10, 15, 20, 25 e 100%, e no controle negativo (0%) foi adicionado 4 ml de água destilada. Posteriormente as placas de Petri receberam 10 sementes de cada planta e foram vedadas com filme de parafina plástica para evitar a perda de umidade durante o desenvolvimento das radículas. As placas foram incubadas em estufa de crescimento microbiológico durante o período de 168 horas (7 dias), a temperatura de 22ºC e em ausência de luz. Após o período de incubação, procedeu-se à verificação do número de sementes de alface (Lactuca sativa) e rúcula (Eruca sativa) germinadas, bem como a aferição do comprimento das radículas das plântulas com o auxílio de régua milimetrada (Figura 1).

Desta forma, foram determinadas a porcentagem de germinação relativa (PGR), porcentagem de crescimento relativo da radícula (PCRR) e o índice de germinação (IG), os quais foram calculados para os dois tipos de sementes utilizadas nos ensaios, seguindo a metodologia descrita por Tiquia (2000). Segue abaixo descrição das equações:
PGR = (Números de sementes germinadas nas amostras com diluições de lodo de ETA x 100) / (Números de sementes germinadas no controle negativo)
PCRR = (Média do crescimento das radículas com diluições de lodo de ETA x 100) / (Média do crescimento das radículas no controle negativo)
IG = (PGR x 100) / PCRR
O maior valor de IG nas sementes de alface (Lactuca sativa) foi observada com a diluição de 5% e o menor com 100% e com as sementes de rúcula (Eruca sativa) os maiores valores foram determinados nas amostras com diluição de 20 e 25% e os menores quando submetidos as diluições com 5 e 10% (Tabela 2). No geral, os valores de IG da alface (Lactuca sativa) e rúcula (Eruca sativa) em todas as diluições com as amostras de lodo de ETA ficaram acima de 80 e 100%, indicando que o lodo de ETA potencializou a germinação e o crescimento radicular das sementes e nestas condições, segundo Belo (2011) o lodo de ETA pode ser classificado como não fitotóxico.
Tabela 2. Indice de germinação (IG) das sementes de alface e rúcula submetidas a diferentes concentrações de lixiviado do lodo de ETA durante 7 dias de incubação e a classificação de fitotocixidade.
| Concentração (%) | Indice de Germinação (%) | Classificação de fitotoxicidade | |
|---|---|---|---|
| Alface | Rúcula | ||
| 5 | 104,2 | 84,76 | O material não é fitotóxico e potencializa a germinação e o crescimento da raiz |
| 10 | 97,0 | 84,46 | |
| 15 | 92,1 | 88,36 | |
| 20 | 94,2 | 107,03 | |
| 25 | 89,6 | 106,33 | |
| 100 | 87,6 | 93,12 | |
Com base nos resultados, foi possível concluir que o lodo de ETA poderá ser utilizado com segurança na agricultura, pois atendeu a todas as especificações das instruções normativas do MAPA para efetuar o registro de fertilizante orgânico e condicionador do solo. E os teores de ferro, alumínio, manganês e acrilamida não proporcionaram efeito fitotóxico para as plântulas de alface (Lactuca sativa) e rúcula (Eruca sativa).


