A busca por eficiência energética tornou-se uma prioridade estratégica para o setor de saneamento. Grandes consumidoras de eletricidade, as companhias de água e esgoto enfrentam o desafio de reduzir custos operacionais e, ao mesmo tempo, diminuir sua pegada de carbono. Nesse contexto, tecnologias de reaproveitamento de resíduos e geração de energia renovável a partir do esgoto vêm ganhando espaço e transformando o modo como o tratamento de efluentes é conduzido no Brasil.
A Companhia de Saneamento do Paraná (Sanepar), que atende a 345 dos 399 municípios paranaenses, vem desenvolvendo projetos pioneiros de aproveitamento energético em suas estações de tratamento de esgoto (ETEs). O biogás, derivado do lodo, tem se tornado fonte fundamental para a autoprodução de energia, em iniciativas que vão desde a microgeração distribuída até a produção de biomassa.
O setor de saneamento básico, historicamente associado à saúde pública e à infraestrutura urbana, passa a ocupar um papel de crescente relevância na agenda climática nacional. O desafio que se impõe ao setor é estratégico: expandir a cobertura para atingir a universalização dos serviços sem ampliar proporcionalmente sua pegada de carbono.
Nesse contexto, a Companhia de Saneamento do Paraná (Sanepar) desponta como referência, ao lançar um Plano de Descarbonização que une inovação tecnológica, eficiência energética e responsabilidade socioambiental. Trata-se de um movimento pioneiro, uma vez que a descarbonização do saneamento ainda não integra de forma estruturada as políticas públicas brasileiras, ao contrário do que ocorre em setores como a siderurgia e o transporte.
O plano está estruturado em três grandes frentes: um diagnóstico das emissões atuais da Companhia; a realização de um estudo de alavancas de descarbonização, voltado à identificação de tecnologias e boas práticas aplicáveis; e, por fim, a definição de cenários de redução, com soluções viáveis e adaptáveis à realidade operacional da Sanepar.
Segundo Anatalicio Risden Junior, Diretor de Inovação e Novos Negócios da Companhia, a proposta alia engenharia, ciência e inovação, promovendo uma visão integrada entre eficiência operacional e compromissos ambientais. “O investimento em inovação tecnológica não apenas é compatível com a necessidade de manter tarifas acessíveis, como é essencial para isso. Tecnologias mais modernas permitem reduzir perdas, otimizar processos, diminuir custos e ampliar a sustentabilidade dos sistemas. A inovação, nesse sentido, deixa de ser custo e passa a ser estratégia”, enfatiza.
“A inovação, nesse sentido, deixa de ser custo e passa a ser estratégia”

A iniciativa une o crescimento econômico, inovação e responsabilidade ambiental. Em um momento decisivo para o enfrentamento das mudanças climáticas, o exemplo paranaense pode inspirar outras companhias estaduais a repensarem seus modelos operacionais, com vistas à sustentabilidade de longo prazo e à transição para uma economia de baixo carbono.
Entre as iniciativas em andamento, destacam-se os empreendimentos em estações de tratamento como a ETE Belém, em Curitiba, onde um sistema de codigestão processa lodo de esgoto e resíduos orgânicos de grandes geradores, transformando-os em biogás para geração de energia elétrica e calor. Já na ETE Atuba Sul, o uso de biogás em sistemas de secagem térmica permite a combustão do lodo, reduzindo significativamente o volume destinado a aterros e convertendo-o em insumo energético e cinzas com potencial de aplicação em outros setores.
Mas os planos vão além. “Estamos investindo em projetos de produção de hidrogênio renovável a partir do biogás e até em combustíveis sustentáveis de aviação (SAF), obtidos por meio da liquefação hidrotérmica do lodo. São soluções de vanguarda que reforçam o papel da Sanepar como referência em inovação no saneamento brasileiro”, explica Risden Junior.

Essas iniciativas, segundo o diretor, são exemplos de como a empresa busca conciliar transição energética, descarbonização e prestação de serviços de qualidade. “O protagonismo das companhias estaduais de saneamento é determinante para que o setor avance. Temos capilaridade, abrangência e escala para liderar transformações estruturais que beneficiam milhões de pessoas. Ao adotar práticas sustentáveis e soluções inovadoras, fortalecemos o saneamento como indutor de desenvolvimento, saúde pública e preservação ambiental”, acrescenta.
O Plano de Descarbonização da Sanepar inaugura um novo marco para o setor no Brasil. Mais do que um programa interno, representa um modelo a ser seguido por empresas que buscam aliar eficiência, inovação e compromisso ambiental.
Com investimentos em biogás, hidrogênio e SAF, além de políticas de neutralidade de carbono já em curso, a companhia consolida sua liderança em um movimento que tende a se expandir pelo país. No horizonte, está a construção de um setor de saneamento não apenas mais eficiente em energia e operação, mas também protagonista no enfrentamento da crise climática global.

