Por muito tempo, o reuso de água – em especial da água proveniente de esgoto tratado – foi visto como um tema delicado, cercado de preconceitos e barreiras culturais. No entanto, diante da urgência das mudanças climáticas, da pressão sobre mananciais e da crescente demanda por segurança hídrica, essa prática vem deixando de ser tabu e se consolidando como uma solução estratégica dentro do modelo de economia circular no Brasil.
O conceito de economia circular, que propõe a reintegração dos recursos no ciclo produtivo, encontra no reuso da água uma de suas faces mais significativas. Trata-se não apenas de uma medida de racionalização, mas também de inovação e resiliência hídrica, capaz de transformar um passivo – o esgoto – em ativo valioso para a indústria, a agricultura e os serviços.
Para compreender os avanços, desafios e oportunidades dessa agenda, Alexandre Luis Almeida Vilella, coordenador regional de Meio Ambiente do Departamento de Desenvolvimento Sustentável (DDS) da Fiesp, comentou os três fatores que vêm impulsionando a adoção do reuso no País: regulatórios, econômicos e sociais. “A legislação tem se modernizado, ainda que com lacunas a preencher; os custos crescentes da captação de água bruta pressionam os setores produtivos a buscarem alternativas; e, por fim, a própria sociedade começa a entender a importância de diversificar fontes de abastecimento para enfrentar períodos de estiagem e eventos extremos.”
Nesse sentido, a indústria paulista desponta como protagonista. “Temos observado maior adesão a projetos de reuso, especialmente em setores intensivos em água, como papel e celulose, alimentos e bebidas, além do químico”, ressalta o coordenador.
Ele lembra que é essencial diferenciar reuso interno – quando o efluente tratado é aproveitado dentro da própria instalação que o gerou – do reuso externo, no qual efluentes tratados por empresas de saneamento podem ser destinados a outros setores usuários.
Reuso como prática de economia circular
A agenda do reuso, explica Vilella, se conecta diretamente às melhores práticas de economia circular em dois eixos:
1. A indústria como usuária, que precisa de diferentes tipos de água para seus processos produtivos.
2. A indústria como fornecedora de soluções, fabricando produtos, tecnologias e equipamentos que viabilizam tanto o reuso interno quanto o externo.
Uma pesquisa da Confederação Nacional da Indústria (CNI), em parceria com o Centro de Pesquisa em Economia Circular da USP, revelou que 85% das indústrias brasileiras já praticam alguma forma de economia circular, com destaque para o reuso da água.


Além de reduzir a captação, as empresas têm expandido esse olhar para toda a cadeia de valor, envolvendo fornecedores, logística e clientes, fomentando uma cultura de gestão hídrica integrada.
O potencial brasileiro para expandir o reuso é imenso. De acordo com estudo da CNI, o país possui capacidade instalada para produzir 1 m³ de água de reuso por segundo, mas poderia aumentar esse volume em quase 13 vezes, com investimentos de cerca de R$ 1,89 bilhão. Esse aporte teria impacto econômico estimado em R$ 5,9 bilhões, gerando 96 mil empregos.
A adoção depende também das tecnologias empregadas. Vilella explica que os métodos mais utilizados envolvem processos de membranas: microfiltração, ultrafiltração, nanofiltração e osmose reversa. Cada uma delas permite adequar a qualidade da água tratada às diferentes demandas, sejam industriais ou agrícolas.
Inovações digitais têm ampliado a segurança dos processos. “Soluções de inteligência artificial, sensoriamento remoto e automação já permitem monitorar a qualidade da água em tempo real, ajustando parâmetros de tratamento e garantindo confiabilidade”, destaca o especialista.
Apesar do avanço, algumas barreiras ainda limitam a escala do reuso no Brasil. A insegurança jurídica quanto à titularidade do efluente, a falta de regulamentação clara para o reuso externo e os custos de infraestrutura são entraves relevantes.
Outro desafio é tornar essas soluções acessíveis também a pequenas e médias empresas, para que a economia circular não seja restrita a grandes grupos industriais.
Nesse contexto, a cooperação entre setor público e privado surge como essencial. Modelos de negócio que incentivem a integração de hubs de economia circular em torno do reuso de água podem reduzir custos logísticos e ampliar a viabilidade de novos projetos.
Fórum Mundial e boas práticas
O tema ganhou destaque internacional em maio de 2025, quando São Paulo sediou o Fórum Mundial de Economia Circular (WCEF). O evento reuniu especialistas de 160 países e reforçou a urgência de se adotar modelos produtivos mais sustentáveis.
No mesmo período, a Fiesp e a CNI lançaram o e-book “Economia circular na indústria: boas práticas”, reunindo 49 casos da América Latina, muitos deles relacionados ao reuso de água. A publicação está disponível em economiacircular.fiesp.com.br
Na visão de Vilella, o reuso de esgoto tratado só será amplamente aceito pela sociedade quando for naturalizado como parte da matriz hídrica. Para isso, é necessário garantir segurança técnica, jurídica e tarifária, aliadas a campanhas de informação e engajamento público.
Ele ressalta que não existe solução única: “O mosaico da segurança hídrica depende de diferentes alternativas – águas superficiais, subterrâneas, de chuva, de reuso – sempre com estudos de viabilidade e análise do balanço hídrico”.
O caminho está traçado: transformar o que era tabu em solução estratégica para o futuro da água no Brasil e para a competitividade da indústria no cenário global.

