As cidades brasileiras estão diante de uma equação cada vez mais complexa: como se preparar para eventos climáticos extremos sem ampliar desigualdades, comprometer os recursos naturais ou tornar a infraestrutura urbana ainda mais vulnerável? A resposta, segundo especialistas reunidos pela Revista Saneamento Ambiental, passa por uma mudança na forma de planejar e administrar os territórios.
O tema foi discutido, durante o debate "Resiliência Climática Urbana e Soluções Baseadas na Natureza", realizado na UMAPAZ – Universidade Aberta do Meio Ambiente e Cultura de Paz, em São Paulo. O encontro reuniu profissionais de diferentes áreas para discutir os desafios da adaptação climática e caminhos capazes de aproximar conhecimento técnico, políticas públicas e soluções aplicáveis às cidades.
Participaram do debate Raul dos Santos Azevedo, engenheiro agrônomo e educador da Divisão da Escola Municipal de Jardinagem da UMAPAZ; Carlos Eduardo Nakao Inouye, engenheiro ambiental e gerente de Recursos Hídricos da Tetra Tech; Rozely Ferreira dos Santos, bióloga e professora da USP e da Unicamp; Alejandra Maria Devecchi, doutora em Planejamento Urbano e Regional; Camila Guerreiro Reis, arquiteta e urbanista e sócia da Natureza Urbana; Adriana Blay Levisky, arquiteta e urbanista; e Alexandra Aguiar Pedro, arquiteta e urbanista, mestre em Geografia Física e integrante da Secretaria do Verde e do Meio Ambiente de São Paulo. A moderação foi de Eugenio Singer, conselheiro da Saneamento Ambiental.
Um dos principais consensos do encontro foi que a resiliência climática não pode ser tratada isoladamente por uma secretaria ou área de conhecimento. Meio ambiente, habitação, mobilidade, saneamento, infraestrutura, planejamento urbano e desenvolvimento social estão interligados e precisam ser considerados conjuntamente.
A expansão urbana desordenada, a ocupação de áreas vulneráveis, a impermeabilização do solo e a separação entre os locais de moradia e emprego estão entre os fatores que ampliam a exposição da população aos riscos climáticos.
Nesse cenário, adaptar as cidades significa também rever a maneira como o território é ocupado e planejado. A política habitacional, por exemplo, precisa dialogar com estratégias de adaptação e redução de riscos.

Outro ponto destacado foi a necessidade de superar os limites administrativos tradicionais. Fenômenos como enchentes, escassez hídrica e degradação ambiental não respeitam fronteiras municipais. Por isso, o planejamento deve considerar processos naturais e territoriais, especialmente as bacias hidrográficas, exigindo articulação entre municípios, órgãos públicos e diferentes níveis de governo.
Natureza como parte da infraestrutura urbana
Entre os caminhos discutidos, as Soluções Baseadas na Natureza (SbN) ganharam destaque. A proposta vai além da criação de áreas verdes ou de ações isoladas de recupe- ração ambiental: trata-se de utilizar processos naturais para responder a problemas concretos das cidades.

Jardins de chuva, telhados verdes, recuperação de nascentes e matas ciliares, ampliação de áreas permeáveis, corredores ecológicos e recuperação de cursos d'água estão entre as alternativas capazes de contribuir para a adaptação dos territórios.
Nesse contexto, o conceito de cidade-esponja surge como uma referência para repensar a gestão das águas pluviais. Em vez de priorizar apenas o rápido afastamento da água, a estratégia busca ampliar a capacidade de infiltração, retenção e armazenamento no próprio território.
A abordagem também pode gerar benefícios que ultrapassam a questão ambiental. Experiências discutidas durante o encontro mostram que projetos de recuperação de áreas naturais podem integrar lazer, educação ambiental, qualificação urbana e participação comunitária, fortalecendo a relação da população com o território.
Tecnologia é ferramenta, não solução isolada

Dados e novas tecnologias também ocupam espaço crescente nas estratégias de adaptação climática. Sistemas de monitoramento, sensores, geoprocessamento, inteligência artificial e bases históricas de dados podem ampliar a capacidade de identificar riscos, acompanhar alterações e apoiar decisões.
Os chamados gêmeos digitais foram citados como uma das ferramentas com potencial para esse processo. Ao reproduzir virtualmente determinadas condições do território, esses sistemas permitem realizar simulações, testar cenários e apoiar o planejamento e o monitoramento da infraestrutura.
O desafio está em transformar dados em decisões. Para isso, são necessários profissionais qualificados, integração entre informações e estruturas de governança capazes de incorporar o conhecimento técnico às políticas públicas.
Governança no centro da adaptação

Se a tecnologia amplia a capacidade de compreender os riscos e a natureza oferece alternativas para enfrentá-los, a governança é o elemento que pode conectar essas diferentes frentes.
A fragmentação das políticas públicas foi apontada durante o debate como um dos obstáculos à implementação de estratégias de resiliência. A adaptação climática exige que diferentes setores compartilhem informações, responsabilidades e objetivos.
Educação, meio ambiente, saneamento, habitação, infraestrutura, mobilidade e planejamento urbano precisam deixar de atuar de forma isolada para construir estratégias integradas de território. A participação social também ocupa papel relevante nesse processo. Comunicação, educação ambiental e acesso à informação podem contribuir para ampliar a compreensão sobre os riscos e aproximar as comunidades das decisões que interferem diretamente em seus territórios.

O desafio de planejar para 2035
Ao final do encontro, os especialistas foram convidados a apontar caminhos para tornar as cidades brasileiras mais resilientes até 2035. Entre as prioridades mencionadas estão a integração entre poder público e sociedade, o planejamento orientado pelas características do território e das bacias hidrográficas, a formação de redes de conhecimento, a recuperação de rios, nascentes e matas ciliares, a gestão adequada dos resíduos sólidos, a ampliação das áreas verdes e uma nova abordagem para a relação das cidades com a água.
Mais do que reunir uma série de soluções, o debate colocou em evidência uma mudança de perspectiva: a natureza precisa ser incorporada ao planejamento urbano como parte da infraestrutura e da capacidade de adaptação das cidades.

A resiliência climática, portanto, não depende exclusivamente de grandes obras ou de tecnologias avançadas, mas também envolve decisões de planejamento, recuperação ambiental, qualificação dos espaços urbanos, participação da população e, sobretudo, integração entre setores.
O debate mostra que preparar as cidades para um cenário climático mais desafiador exige mais do que reagir aos eventos extremos depois que eles acontecem. O caminho passa por antecipar riscos, compreender o território e construir, de forma integrada, cidades capazes de conviver com a água, a natureza e as transformações do clima.
ADRIANA BLAY LEVISKY

Graduada pela Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo - FAU USP em 1992. Mestre pela Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo - FFLCH USP, em 2000, com a tese
nha (Espanha), tem pós-graduação em Arquitetura, Educação e Sociedade pela Escola da Cidade e foi professora assistente de urbanismo na mesma instituição nos anos de 2016 e 2017. Conta com mestrado no programa de pós-graduação da FAU-USP na área de Projeto de Arquitetura e atualmente é do Conselho Superior e Diretora Adjunta Financeira do IAB/SP.
Possui experiência em coordenação de projetos executivos de arquitetura e urbanismo. Participou e coordenou equipes multidisciplinares de projeto envolvendo várias escalas de trabalho. EUGÊNIO SINGER

Consultor Estratégico para Desenvolvimento de Negócios na Tetra Tech - Engenharia Ambiental e de Recursos Hídricos. Com mais de quatro décadas de experiência profissional, permanece na integração da sustentabilidade às estratégias de negócios e no desenvolvimento de soluções impactantes em serviços ambientais e energéticos.
ALEJANDRA MARIA DEVECCHI
Alejandra Maria Devecchi é doutora em Planejamento Urbano e Regional com mais de 35 anos de experiência na gestão e desenvolvimento de projetos urbanos complexos, além de forte atuação em processos referentes à formulação de políticas públicas, tendo desempenhado vários cargos públicos na SEHAB, CDHU e SVMA. Como Gerente de Planejamento Urbano da Ramboll Brasil Engenharia e Consultoria Ltda, criou e liderou durante 7,5 anos o departamento responsável pelas análises de risco climático e planejamento resiliente. Merecem destaque os projetos de requalificação urbana para o centro de Vitória (BID e PMV), centro do Rio de Janeiro (BNDES), Orla Noroeste de Vitória (BID e PMV) e Plano de Avaliação de Risco Climático do Município do Rio de Janeiro (C40 e Governo Municipal).
ROZELY FERREIRA DOS SANTOS

Bacharel em Biologia Universidade de São Paulo, USP, Brasil. Ano de formação: 1976. Doutorado em Ecologia Vegetal. Universidade de São Paulo, USP, Departamento de Ecologia. Ano: 1988. Últimas Atuações Profissionais: 2013 a 2022: USP - Instituto de Biociências. Vínculo: Colaborador, Enquadramento Funcional: Professor Permanente.
1999-2013: UNICAMP - Faculdade de Engenharia Civil, Arquitetura e Urbanismo. Vínculo: Professor Pleno, Enquadramento Funcional: Professora Associada. Título Universitário: Livre-docente na área de Planejamento Ambiental. Universidade de Campinas, UNICAMP, Brasil, Faculdade de Engenharia Civil e Arquitetura. Ano: 2003

Áreas de educação e pesquisa: Planejamento Ambiental, Ecologia da Paisagem e Serviços Ecossistêmicos. CARLOS INOYE
Carlos Eduardo Nakao Inouye é engenheiro ambiental, mestre pelo Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA), Especialista em Tecnologia Ambiental pela Universidade Tecnológica de Dortmund (Alemanha), com mais de 15 anos de experiência em recursos hídricos, gestão de riscos e avaliação de impactos associados às mudanças climáticas e a eventos extremos. Atualmente, é Gerente de Recursos Hídricos na Tetra Tech, atuando em estudos e projetos de abastecimento, saneamento, planejamento hídrico e apoio à tomada de decisão em contextos de vulnerabilidade urbana. Ao longo da carreira, também desenvolveu trabalhos em serviços ecossistêmicos, análise de vulnerabilidade e planejamento territorial, com interface direta com adaptação climática e soluções baseadas na natureza.
RAUL DOS SANTOS AZEVEDO
Engenheiro Agrônomo especialista em Conservação de Áreas Verdes, Pós Graduado em Administração para Engenheiros (Instituto Mauá de Tecnologia), ingressou na Prefeitura de São Paulo em 2009 como Especialista em Desenvolvimento Urbano, trabalhou na Divisão de Parques Urbanos, Divisão de produção de plantas ornamentais e medicinais e atualmente, trabalha como educador na Divisão da Escola Municipal de Jardinagem (UMAPAZ/EMJ), coordenando os cursos de Soluções Baseadas na Natureza, Sistemas Agroflorestais e Hortas Urbanas.

